Após vencer a depressão e a falência, Agilmar Ferreira se reinventa e faz sucesso como humorista e com 2mi seguidores


A trajetória de Agilmar Ferreira é marcada por superação, reinvenção e coragem. Ex-gerente de loja e dono de bar falido, ele enfrentou a depressão até encontrar na comédia uma forma de cura. Começou com vídeos na internet e, hoje, lota teatros com seu espetáculo “Fora do Quintal”. A arte virou profissão e propósito: fazer rir e inspirar. Agilmar também aborda temas sociais e de saúde, como o combate ao tabagismo. Sua comédia é simples, cotidiana e acessível a todos os públicos. Para ele, o humor está nos detalhes e na felicidade genuína. Além do palco, produz um sitcom autoral no YouTube

*por Vítor Antunes

“Enquanto houver sol haverá um caminho (…) nem uma ideia vale mais que a vida”. Ainda que essa frase possa, à primeira vista, soar como um típico clichê de autoajuda, ela vem de uma canção dos Titãs. E, curiosamente, resume com precisão quase biográfica a trajetória de Agilmar Ferreira. O humorista, hoje com quase dois milhões de seguidores nas redes sociais, percorreu uma longa estrada de reconstrução pessoal. Após se ver cara a cara com a depressão, encontrou na arte e no humor uma forma de renascer e se reinventar. E fez disso sua profissão. Antes de subir aos palcos, Agilmar levou a vida de forma mais tradicional. Trabalhava como gerente em uma loja do ramo agrícola e como empresário, função que, como ele mesmo destaca, exigia postura séria e comportamento comedido. No entanto, bastava uma brecha no cotidiano para que seu lado irreverente se manifestasse. A veia cômica, que o acompanhava desde a infância, ficou latente por muitos anos — até que a crise o empurrou de volta a si mesmo.

Ele relembra a trajetória até aqui: “Desde criança, eu já tinha um lado engraçado. Com o tempo, deixei essa criança de lado e comecei a trabalhar numa área que não era comédia. Abri um bar, mas ele não deu certo. A falência me levou à depressão. E o que me tirou dessa depressão foi justamente a comédia. De tanto assistir, comecei a fazer. Na pandemia, percebi que as pessoas estavam muito em casa, tristes, entediadas. ‘Posso levar um pouco de humor para essas pessoas, para melhorar o dia delas’. Comecei a desenvolver esse lado de ator: criar personagem, roteiro, história. Estreei a montagem, consegui meu DRT recentemente, e estou muito feliz com essa conquista. Há cerca de dois anos, deixei meu emprego principal e passei a viver exclusivamente da comédia.”

Depois que fechei o bar — que não deu certo — me afundei em dívidas, sendo cobrado, sem saber para onde ir. Entrei numa depressão moderada, fiquei meses sem querer fazer nada. Achava que não havia saída. Foi então que descobri os vídeos de stand-up. Comecei a assistir comédia no YouTube e, naquele momento, parecia que eu era outra pessoa. Saía da depressão por alguns instantes, voltava a rir. Passei a testar algumas piadas, até mesmo no trabalho. E as pessoas gostavam. A comédia, além de me ajudar com a depressão, foi me transformando. Depois de fazer análise, ir ao psiquiatra e psicólogo, percebi que o que me faltava não era o bar, era a arte. O humor entrou como arte e me tirou da zona depressiva. A comédia me salvou completamente. Sou muito grato. Hoje, se consigo fazer alguém sorrir, já estou feliz. Já cumpri meu papel – Agilmar Ferreira

Agilmar Ferreira trabalhou em diversos ofícios até virar humorista (Foto: Danylo Vasconellos)

Além da atuação nos palcos, Agilmar também tem se mostrado atuante nas redes sociais ao abordar questões de saúde pública e bem-estar. Um exemplo disso é o conteúdo que ele vem produzindo sobre o tabagismo. O vício no cigarro surgiu como uma resposta à crise emocional que enfrentou após a falência, e superá-lo se tornou mais uma conquista em sua jornada de superação pessoal. “Na época do bar, foi também quando comecei a fumar. Fiquei anos tentando parar, até que consegui. Hoje, uso meu espaço para mostrar às pessoas que o cigarro não é essencial — ele só escraviza. Espero estar ajudando quem precisa de um empurrãozinho para parar”.

O artista, que se reinventou e transformou a dor em arte, agora se desdobra em diferentes frentes do entretenimento. Além de seu espetáculo solo nos palcos — batizado de “Fora do Quintal”, sua grande estreia presencial —, ele também se aventura na criação e produção de uma sitcom autoral, exibida gratuitamente em seu canal no YouTube. A proposta é trazer humor com identidade própria, conectado à realidade de quem acompanha seu trabalho desde a internet. “Neste ano, estou com bastante expectativa por causa da peça que montamos e estamos apresentando. O show tem sempre uma novidade a mais. A gente vai ajustando para criar uma conexão mais próxima com o público, especialmente porque estamos saindo da internet e indo para o palco. Sempre buscamos conectar o personagem ao máximo com quem está assistindo. Então, uma das grandes expectativas é o show. Outra é o sitcom que já faço. Atualmente, tenho um sitcom chamado ‘Quintal’, que está no YouTube com oito episódios. Já escrevemos a segunda temporada e, assim que possível, vamos gravar. É uma das coisas que mais gosto de fazer”.

Agilmar Ferreira estreou uma montagem teatral baseado em seus posts da internet (Foto: Danylo de Vasconcellos)

MÚLTIPLO

Antes de se tornar um humorista seguido por milhares de pessoas e aplaudido nos palcos, Agilmar Ferreira viveu muitas vidas. E não apenas no sentido metafórico: ele literalmente desempenhou uma série de profissões até encontrar seu lugar na comédia. Sua trajetória é marcada por reinvenções constantes, espírito empreendedor e uma inquietação criativa que parece sempre buscar novos caminhos, mesmo diante dos percalços mais duros da vida. “Antes de dedicar-se à carreira de humorista, Agilmar foi muita coisa. ‘Eu era professor de administração. Também já vendi pão de alho na rua, pão doce de Nutella, pipoca gourmet… Já fui garçom, gerente, vendedor, entregador… Um pouco de tudo! E esses produtos que eu vendia eram feitos por mim. Até tentei voltar a fazer, mas hoje em dia não deu muito certo. Sempre tive esse lado empreendedor. E até hoje tento aplicar isso na internet, trazendo coisas novas para o público’.”

Essa versatilidade não apenas moldou seu repertório de experiências, como também formou a base do que viria a ser seu olhar cômico: atento às minúcias do cotidiano, aos tipos populares e às situações absurdas que passam muitas vezes despercebidas. E é sob essa mesma diretriz — a de transformar tudo o que viveu em algo que possa se comunicar com as pessoas — que ele agora conduz sua nova fase: a de comediante de palco. Foi só nesse momento, ali, diante do público e das luzes, que Agilmar sentiu que, de fato, havia se tornado um artista. “‘Fora do Quintal‘ nasceu de um sonho meu de ir para o teatro. Quando me perguntavam se eu era comediante, respondia: ‘Ainda não. Só vou me considerar comediante quando subir num palco e fizer um show de comédia’. E foi o que aconteceu. A ideia era mostrar para o público que os personagens do quintal — aquele universo que conhecem da internet — estão fora do quintal, na cidade, perto das pessoas. O personagem que você gosta está próximo, você pode vê-lo ao vivo. O espetáculo surgiu dessa vontade de sair do virtual e alcançar novos lugares. Estar em vários lugares ao mesmo tempo”.

Agilmar Ferreira empreendeu até conseguir trabalhar como ator e só tirou seu registro profissional há pouco tempo (Foto: Danyllo Vasconcellos)

Ele prossegue dizendo: “Apesar de ter feito poucas cidades até agora, o show só está começando, já percebo diferenças. Em algumas cidades, a plateia ri de uma coisa, em outras, ri de outra. Às vezes, algo funciona em São Paulo e não funciona no Rio. Ainda estou aprendendo a lidar com isso. Como meu texto é pensado para toda a família, para qualquer idade, vejo que as pessoas têm gostado bastante. Não tem resistência ao conteúdo. Está sendo ótimo ver o público se divertir. É uma sensação difícil de descrever: ver alguém rindo ao vivo de uma piada ou de algo que o personagem fez”.

Essa nova etapa representa para Agilmar não apenas uma realização pessoal, mas também um verdadeiro mergulho em uma linguagem completamente diferente da que ele dominava. Acostumado a trabalhar diante da câmera do celular, editando vídeos, escolhendo os melhores takes, ele agora precisa se adaptar à arte efêmera e imprevisível do teatro. Uma arte onde não há edição, não há volta — apenas o agora. “Antes do palco, eu só precisava olhar para um par de olhos ou para a lente do celular. Se eu errasse, parava, voltava e gravava de novo. Se algo desse errado, era só pausar e recomeçar. No palco, são 500, 600 pessoas me olhando ao mesmo tempo. A sensação é muito diferente — assim como ouvir a risada do público ao vivo. Na internet, você recebe um ‘kkk’ ou um ‘rsrs’, mas não sente aquela energia de todo mundo rindo junto. No palco, sente. Isso me faz errar menos. Mesmo quando improviso, percebo a energia do público — para o bem ou para o mal. Sinto que estou descobrindo novas ferramentas”.

Agilmar Ferreira em cena em “Fora do Quintal” (Foto: Bruna Borges)

Para o ator, “o teatro é um laboratório ao vivo, onde a gente se descobre o tempo todo. Para mim, que estou começando agora, tudo ainda é novidade. Cada personagem tem uma personalidade única. Em cada cidade, você encontra alguém parecido com eles. A gente vai observando essas figuras e se divertindo com isso. Essa simplicidade do interior, que conheço bem pois sou de Patrocínio (MG), é encantadora e contagia. Acho que essa felicidade genuína ajuda muito na comédia”.

Mesmo com a entrada no mundo do teatro, Agilmar não se afastou da internet — o lugar onde tudo começou. Ele continua nutrindo seus perfis com conteúdo constante, mantendo o vínculo com seu público fiel, mas agora com uma nova consciência: a de que, ao influenciar, é preciso ter responsabilidade. E ele leva isso a sério. “‘Acredito que quem tem muitos seguidores carrega uma grande responsabilidade. Pelo conteúdo que compartilha, pela maneira como influência. Hoje em dia, qualquer coisa pode ser interpretada de outra forma e acabar incentivando alguém a agir de um jeito distorcido. Por isso, tento usar meu espaço para trazer pautas sociais, mesmo fora do humor. Quero ser uma influência positiva, representar de forma responsável e tentar extrair o melhor das pessoas. Quem trabalha com internet lida com ruídos de comunicação o tempo todo. Às vezes, fico receoso de postar algo e ser mal interpretado. Tem muita gente bacana que está gostando da minha comédia'”.

Agilmar Ferreira traz seus personagens para o palco (Foto: Bruna Borges)

E se fazer rir é a sua missão, é natural se perguntar: o que faz rir quem faz rir? A resposta, para Agilmar, está nas coisas mais simples da vida. Um gesto, uma cena comum, uma expressão desavisada. A graça, para ele, mora no cotidiano. “Gosto de rir das coisas simples, do dia a dia. Às vezes, estou no supermercado e rio sozinho com algo que vejo. Meu humor é bem simples, cotidiano. Essas pequenas situações que passam despercebidas por muitos são as que mais me fazem rir”.

O que me faz rir hoje são as pessoas felizes. Acho que gente feliz não enche o saco de ninguém'”, dispara, com a leveza de quem sabe que o bom humor pode ser, sim, uma forma de generosidade -Agilmar Ferreira

Da incerteza ao sucesso, da depressão à risada compartilhada, do fundo do poço aos palcos de teatro, Agilmar Ferreira reconstruiu a própria vida com coragem, sensibilidade e um profundo senso de propósito. Hoje, sua arte não apenas entretém, mas inspira. E a sua caminhada parece ecoar com força a letra daquela canção dos Titãs, que serve quase como um epílogo para sua trajetória: “Enquanto houver sol, haverá um caminho.”