Após ‘Garota do Momento’, Maria Eduarda de Carvalho volta ao teatro e reflete: “Ser artista é salvação e condenação”


Após o sucesso na novela das seis, a atriz está de volta aos palcos com o espetáculo ‘Vermes Radiantes’, em cartaz no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea. Nesta entrevista, Maria Eduarda reflete sobre desumanização, consumo, crise dos 40, maternidade, estigmas e resistência feminina, além de revelar os próximos passos com o documentário ‘Nós por Todas’, onde mantém sua arte conectada a debates urgentes, como a violência contra as mulheres. E ao falar sobre a experiência do teatro como transformação pessoal e artística, divide: “Minha relação com a arte sempre se deu pela possibilidade de uma transformação através deste tipo de experiência. Muito pequena fui tocada pela arte neste lugar. Descobri que o teatro apaziguava minhas angústias e ressignificava minha dor. A partir daquele momento entendi que não poderia fazer qualquer outra coisa da vida. Sou artista porque não posso não ser. Se pudesse, certamente não seria. Este chamamento, que é ao mesmo tempo uma salvação e uma condenação, funciona como um norte muito bem determinado”

*Por Brunna Condini

Depois de viver Tereza na última trama das seis da Globo, ‘Garota do Momento’, Maria Eduarda de Carvalho volta ao teatro com Vermes Radiantes’, que estreou nesta sexta-feira (5), no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea. No espetáculo, a atriz mergulha nas contradições de sua personagem, confrontada por dilemas éticos em meio ao sonho de ascensão, pano de fundo que expõe, entre outros fenômenos sociais, a desumanização do nosso tempo. “Estamos deixando de enxergar o outro em nome dos nossos próprios desejos. E, em maior ou menor escala, estamos todos nesse barco”, reflete.

Ao longo da conversa, a atriz fala sobre as ilusões do consumo, os pactos silenciosos da geração atual, a crise dos 40, os estigmas enfrentados como mulher e artista, e ainda revela bastidores do seu documentário ‘Nós por Todas’, onde reuniu relatos femininos de violência e resistência. “Sou artista porque não posso não ser. Esse chamado é, ao mesmo tempo, salvação e condenação”, diz, deixando claro que seu percurso segue guiado mais pela urgência da arte do que pela lógica do sucesso. E salienta, que estar em cena é também provocar desconforto no espectador: “Se ele sair mexido, mesmo sem saber por quê, já valeu”.

O teatro não está aí para oferecer respostas, mas para lembrar que ainda somos humanos, e precisamos resistir a tudo o que tenta nos desumanizar – Maria Eduarda de Carvalho

Maria Eduarda de Carvalho estreia peça e reflete sobre consumo, desigualdade, estigmas, maternidade e resistência: “Sou artista porque não posso não ser” (Foto: Divulgação/Globo)

Maria Eduarda de Carvalho estreia peça e reflete sobre consumo, desigualdade, estigmas, maternidade e resistência: “Sou artista porque não posso não ser” (Foto: Divulgação/Globo)

Em ‘Vermes Radiantes’, Maria Eduarda interpreta Jill, que junto do marido Ollie (Rui Ricardo Diaz) recebe a chance de trocar um conjugado precário por uma casa própria no subúrbio, graças a um misterioso projeto governamental apresentado por Senhorita Dee (Marcos França). A promessa de ascensão rapidamente se transforma em pesadelo quando, já na primeira noite, a casa é invadida e um crime muda o destino do casal, desencadeando uma série de acontecimentos descontrolados.

“Li este texto pela primeira vez na pandemia e me impressionou a forma como ele conversava com tudo o que estávamos vivendo. Naquele momento existia uma fantasia de que sairíamos daquele horror mais generosos, pensando o coletivo, considerando menos o próprio umbigo. No entanto o que presenciamos foi um recrudescimento da política do eu. Com preocupante desenvoltura, estamos deixando de enxergar o outro em nome dos nossos desejos. Esse espetáculo provoca o espectador a se ver neste lugar incômodo de cegueira seletiva. Porque a verdade é que, em maior, ou menor escala, estamos todos neste barco”.

Maria Eduarda de Carvalho, Rui Ricardo Diaz e Marco França em 'Vermes Radiantes' (Foto: Matheus Ramalho)

Maria Eduarda de Carvalho, Rui Ricardo Diaz e Marco França em ‘Vermes Radiantes’ (Foto: Matheus Ramalho)

Crise dos 40, maternidade e estigmas

O questionamento da meia-idade, que a atriz começou a viver aos 40, também dialoga com o mergulho existencial de Jill em ‘Vermes Radiantes’. “A crise dos 40 me fez perguntar quem era a mulher que eu não estava me tornando”, conta. Hoje, com 42 anos e mãe de Luiza, de 15, Maria Eduarda traz essa reflexão para o dia a dia. Diante de tantas notícias de violência contra mulheres, essa pergunta ganha novos contornos. “Outro dia pedi que minha filha trocasse um short que achei muito curto, com medo do que poderia passar na rua. E ela retrucou: ‘Você não é feminista?’. Eu disse: ‘Sou, mas vivemos em um país amplamente machista. Preciso cuidar de você’. Ela ouviu, mas não trocou o short”, conta, aos risos, revelando como maternidade e feminismo se cruzam em um terreno repleto de contradições e medos totalmente humanos.

E ao pensar nos estigmas direcionados às mulheres, tanto na vida, quanto profissionalmente, ela analisa: “Ser mulher na nossa cultura é ser colocada em ‘prateleiras’ de forma permanente. Graças à Psicanálise, que faço desde que me entendo por gente, tenho tentado aprender a separar o que é meu e o que é do outro. Não é fácil, mas este exercício tem me permitido entender melhor quem sou eu e quais são os meus reais desejos, neste momento da vida”.

"Com preocupante desenvoltura, estamos deixando de enxergar o outro em nome dos nossos próprios desejos" (Foto: Fael Gregório)

“Com preocupante desenvoltura, estamos deixando de enxergar o outro em nome dos nossos próprios desejos” (Foto: Fael Gregório)

Pactos perigosos da geração atual

Maria Eduarda é uma das personagens centrais do espetáculo, confrontadas com um pacto quase faustiano (negociação em que uma pessoa troca um valor moral ou espiritual de grande importância, como a sua alma, por um benefício mundano, como poder, riqueza). A metáfora se expande quando a atriz relaciona o enredo à vida real, onde também negociamos valores em troca de aceitação e sucesso. Para a atriz, o espetáculo provoca o público a se perguntar: qual pacto eu já aceitei sem perceber?

Estamos decididos a não nos aprofundarmos em nossa própria existência. Passamos por cima das dores e problemas com diagnósticos rápidos, receitas mágicas ou medicamentos. O preço disso é alto. O inferno não são os outros: é o que não enfrentamos em nós mesmos – Maria Eduarda de Carvalho

Maria Eduarda de Carvalho e Rui Ricardo Diaz no espetáculo 'Vermes Radiantes' (Foto: Matheus Ramalho)

Maria Eduarda de Carvalho e Rui Ricardo Diaz no espetáculo ‘Vermes Radiantes’ (Foto: Matheus Ramalho)

Sobre ilusões

Com 30 anos de trajetória, a atriz aprendeu a identificar como as promessas de completude oferecidas pelo mercado e pela carreira podem ser ilusórias. Em ‘Vermes Radiantes’, esse alerta aparece encarnado em sua personagem, que é seduzida pela chance de ascensão a qualquer custo. “O capitalismo joga com essa sensação de incompletude comum a todos nós. Ele te dá a ilusão de que a felicidade está no consumo, mas quanto mais consumimos, mais sentimos que falta. O que esquecemos é que a falta é parte da condição humana. O segredo é aprender a lidar com ela”, reflete. Para a atriz, o teatro surge como espaço de ruptura dessa engrenagem: uma pausa necessária para lembrar que desejo e consumo não são sinônimos de sentido: “No palco, a gente não vende nada, compartilhamos presença, fragilidade e humanidade. E isso, para mim, é muito mais revolucionário do que qualquer vitrine”.

Maria Eduarda de Carvalho e Rui Ricardo Diaz e Marco França estão em 'Vermes Radiantes' que entrou na cena carioca (Foto: Matheus Ramalho)

Maria Eduarda de Carvalho e Rui Ricardo Diaz e Marco França estão em ‘Vermes Radiantes’ que entrou na cena carioca (Foto: Matheus Ramalho)

Documentário e próximos passos

A experiência de reunir vozes femininas no documentário ‘Nós por Todas’ ecoa no desejo da atriz de manter sua arte conectada a debates urgentes, como a violência contra as mulheres. “Acho que as maiores violências que já sofri foram em ‘ambientes seguros’. O que aprendi ao longo dos anos foi pedir ajuda. Verbalizar o abuso ajuda a gente a realizar a gravidade da violência”, divide, sobre a própria experiência.

Sobre o futuro do projeto e seus planos, revela: “Estamos inscrevendo o filme em festivais internacionais e procurando uma distribuidora. Também quero muito levar ‘Vermes Radiantes’ para outras cidades e, em paralelo, tenho o desejo de fazer uma peça com minha nova amiga de infância, Flávia Reis“, conta, mencionando a atriz que foi sua fiel escudeira em ‘Garota do Momento’. Na visão de Maria Eduarda, o futuro artístico se constrói nesse equilíbrio entre a criação autoral e as parcerias, sempre guiada pela necessidade de provocar reflexão. E ao falar sobre a experiência do teatro como transformação pessoal e artística, finaliza:

Minha relação com a arte sempre se deu pela possibilidade de uma transformação através deste tipo de experiência. Muito pequena fui tocada pela arte neste lugar. Descobri que o teatro apaziguava minhas angústias e ressignificava minha dor. A partir daquele momento entendi que não poderia fazer qualquer outra coisa da vida. Sou artista porque não posso não ser. Se pudesse, certamente não seria. Este chamamento, que é ao mesmo tempo uma salvação e uma condenação, funciona como um norte muito bem determinado –

Maria Eduarda de Carvalho

"O inferno não são os outros: é o que não enfrentamos em nós mesmos" (Foto: Fael Gregório)

“O inferno não são os outros: é o que não enfrentamos em nós mesmos” (Foto: Fael Gregório)