Por Brunna Condini
Angela Ro Ro partiu na manhã de segunda-feira (8), aos 75 anos. Ela estava internada desde junho no Hospital Silvestre, no Cosme Velho, com uma infecção pulmonar grave. Desde então, teve uma série de complicações. E segundo o advogado Carlos Eduardo Lyrio, recentemente a cantora teve uma nova infecção e não resistiu.
Ro Ro morreu como viveu: à margem dos padrões, dona de uma voz inconfundível e de uma coragem rara de cantar sua própria vulnerabilidade. Mas partiu também como tantos outros artistas brasileiros: dependendo da bondade alheia para sobreviver, quase esquecida por um país que consome seus talentos com voracidade e depois fecha os olhos quando o artista precisa de ajuda.
É cruel notar como a trajetória de uma das maiores intérpretes da música popular brasileira, que misturava blues, samba-canção, bolero e rock com uma autenticidade devastadora, terminou em solidão financeira. Nos últimos anos, a artista recorreu à ajuda de fãs e amigos para pagar despesas básicas. Ro Ro, que nos anos 1980 emocionou o país ao cantar ‘Amor, Meu Grande Amor’ de smoking em rede nacional, não teve o mínimo de estabilidade para envelhecer com dignidade.

Foto: Marcelo Castello Branco
Para além das consequências das escolhas pessoais de cada um, sabemos que o Brasil tem memória curta para seus artistas. Celebramos datas importantes, compartilhamos vídeos antigos no dia da morte, fazemos trending topics de despedida. Mas no cotidiano, enquanto ainda estão vivos, damos pouca atenção a quem não está na ‘crista da onda’. É como se disséssemos: “cante, nos emocione, nos represente, mas não nos peça cuidado”.
Angela nunca se encaixou. Não se moldou ao mercado, não se filtrou para ser palatável. Foi debochada, intempestiva, autodestrutiva, visceral. E pagou o preço por ter sido exatamente quem era, na luz e nas sombras. A vida boêmia, os excessos, as dores cantadas sem maquiagem fizeram dela uma figura incômoda. E artistas incômodos raramente recebem o amparo que merecem.
“Eu fiz a experiência de me autodestruir e não fui competente. Errei comigo”, disse certa vez. Havia ironia, mas também uma lucidez cruel nessa confissão. Angela foi uma mulher que ousou falar de amor pelo olhar feminino, quando isso ainda era visto como escândalo. E fez desse escândalo a sua assinatura.
O Brasil aplaudiu o show, mas não garantiu os bastidores. Aplaudiu a coragem, mas não construiu a rede de apoio para que ela pudesse envelhecer com o mínimo de segurança. Angela Ro Ro deixa uma discografia de raríssima beleza, mas também um espelho desconfortável: que país é esse que deixa seus maiores artistas dependerem de vaquinhas, favores e doações para sobreviverem quando precisam?
Talvez a morte de Angela Ro Ro seja mais um chamado. Não basta reverenciar artistas quando se vão. É preciso discutir políticas de proteção social para quem vive de cultura, repensar contratos, reverter a lógica do esquecimento. O aplauso não paga contas, e a ‘bondade alheia’ não pode ser o destino de quem dedicou a vida inteira a cantar nossas dores e amores.
Angela se foi. E com ela mais uma chance perdida de cuidar, em vida, de quem nos deu tanto.
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