Amanda Mirásci expõe a autoestima delirante do homem e questiona: “A mulher hétero está no mapa da fome?”


Atriz parte das suas experiências e de relatos de outras mulheres para examinar, com humor, a construção social que coloca os homens em posição de superioridade. No espetáculo, Mirásci expõe como essa confiança inflada — muitas vezes descolada da realidade — afeta relações afetivas, familiares e profissionais. A atriz discute ainda a permanência de padrões que moldam mulheres a aceitarem pouco, seja em encontros, casamentos ou maternidade. Ao mesmo tempo, aponta a dificuldade masculina em lidar com vulnerabilidade e mudança, reforçada desde a infância. Com teatros lotados, a peça se firma como um retrato crítico e geracional das dinâmicas de gênero contemporâneas

*por Vítor Antunes

As redes sociais estão lotadas de mulheres levando a público denúncias contra os homens. Entre diversas abordagens, fala-se abertamente sobre o quão problemáticos eles podem ser e sobre como, muitas vezes, é difícil conviver com a autoestima do homem hétero. É sob essa pauta que se organiza a peça de Amanda Mirásci, “A autoestima do homem hétero”, que encerrou sua temporada em outubro deste ano, lotando teatros em São Paulo, e que retornará ao cartaz no ano que vem. A peça expõe a própria construção de autoestima que faz com que os homens se percebam numa categoria superior e adificuldade até cômica de se lidar com isso. “É a insalubridade da vida da mulher solteira. É triste assumir, mas é uma verdade. Essa peça nasceu quando eu estava solteira; fiquei cerca de quatro anos assim, colecionando bizarrices em dates e encontros. Usei Tinder, e há até uma cena na peça sobre isso. Muitas mulheres se identificam. Dá para conhecer pessoas legais no Tinder, é possível, já aconteceu comigo. Mas, de maneira geral, existe uma carência afetiva muito grande, e acabamos aceitando qualquer porcaria.”

Quantas mulheres permanecem em relacionamentos completamente falidos apenas pela necessidade de manter uma figura masculina ao lado? Digo isso sem julgamento. Inclsuive porque já fui essa mulher – Amanda Mirásci

A atriz segue explicando que essa edificação do homem-salvador é reiterada há muito tempo. “A gente cresceu acreditando nas referências das princesas: Bela Adormecida, Branca de Neve, que ficava morta até o outro aparecer; a Pequena Sereia, que abre mão da própria voz para ir atrás do homem. Minha geração ainda está muito marcada por esse imaginário. Tenho uma sobrinha de 15 anos e sinto que ela já cresce de outra maneira, com outras referências, entendendo o feminismo em outro lugar e descobrindo que ele existe muito antes. Eu mesma só fui me aprofundar nisso aos 30 anos. Muitas mulheres ainda desejam um homem padronizado esteticamente. E, muitas vezes, esses são os piores. Se o homem hétero ainda é bonito, a autoestima dele vai para um lugar quase inalcançável. A autoestima que satirizo é aquela ridicularizada na internet — uma autoestima que beira a alucinação, sustentada por uma ideia de superioridade”.

Amanda Mirásci debate a autoiestima do homem hetero em sua primeira peça autoral (Foto: Julia Lego)

Ainda que ache que a mulher está no mapa da fome eu acho delicado usar esse tipo de máxima, porque vejo tantas mulheres que poderiam estar solteiras, mas preferem permanecer em relacionamentos nos quais pensam: “Está tão difícil para uma mulher solteira hoje, então vou me manter aqui. É justamente aí que está o ponto sensível: compreender o cenário sem entender que isso signifique aceitar qualquer coisa. É melhor enfrentar o “mapa da fome” do que se envolver com qualquer um. A autoestima do homem hétero — e falo disso na peça por meio do humor — pode ser um lugar destrutivo. Se você é uma mulher em busca de amor, de uma troca afetiva real, e fica perseguindo esse retorno na figura masculina, isso pode ser muito doloroso – Amanda Mirásci

A atriz prossegue em sua análise. “O homem, histórica e socialmente, foi colocado no topo da pirâmide. Para ele, é confortável permanecer ali. Para que saia desse lugar, ele precisa realmente querer mudar. Manter-se no topo é mais fácil, então ele segue. Nós, mulheres, estamos correndo atrás do tempo perdido, tentando compreender como esses papéis que desempenhamos acabam sendo negativos para nós. Caminhamos bastante, mas ainda há muito a caminhar.”

Para Amanda, essa figura do homem hétero e do lugar que ele ocupa está profundamente marcada na sociedade. “O homem está em uma posição tão privilegiada que dificilmente se pergunta sobre isso; seria preciso uma força-tarefa. Meu espetáculo convida os homens ao debate e para a transformação. Sem isso, nadamos contra a maré sem conseguir resultados. Eles precisam fazer parte desse debate e dessa luta, que é por um mundo melhor para todos, não apenas para eles.”

Essa “autoestima delirante masculina” revela, na verdade, uma enorme dificuldade de assumir a própria vulnerabilidade. “Desde crianças, os meninos aprendem que não podem chorar, não podem fraquejar, não podem ‘tomar porrada na rua’. Na minha pesquisa, um dos entrevistados contou que o pai dizia que, se ele apanhasse na rua e chegasse em casa chorando, apanharia de novo. Existe esse lugar do masculino que tento observar com cuidado, ainda que através do humor. O homem hétero, poderoso, que não chora e não se afeta, é profundamente negativo para a sociedade como um todo, inclusive — e principalmente — para eles próprios”, analisa.

Amanda Mirásci em “A Autoestima do Homem Hétero” (Foto: Reprodução/Instagram)

Amanda, inclusive, leva histórias pessoais ao roteiro e usa a própria vivência para compor o espetáculo. “Uma das cenas foi vivida por mim e foi o início do projeto. Eu estava saindo com um cara, bonitinho, mas já meio chato. Às vezes, quando a mulher está carente, querendo amar e encontrar um parceiro, finge que não vê algumas coisas, embora veja. Eu já tinha tido alguns encontros com ele e ele sempre pegava o violão. Sempre as mesmas músicas: Legião Urbana, Wonderwall do Oasis, Nando Reis… Sempre as mesmas. Até que um dia ele disse: ‘Pô, gata, queria muito te mostrar uma música que eu compus’. Ele tocou uma música que rimava Brothers com Mothers com Fathers. Quando terminou, olhou no fundo do meu olho e perguntou: ‘Genial, né?’. Pronto. Era uma cena pronta para o teatro. Acho que toda mulher já passou por isso: o cara que pega o violão achando que está arrasando.”

É muito curioso perceber a discrepância de autoconfiança entre um homem que toca mal, canta mal, escreve mal e mostra uma música perguntando se é genial, e eu, que passei meses até assumir o lugar de escrever e assinar uma dramaturgia. Nós, mulheres, temos tendência a achar que está faltando, que não está suficiente, e vivemos buscando melhorar. O homem se comporta muito bem no papel de quem sempre sabe o que está fazendo, que sempre arrasa, que não precisa de críticas e que é ele quem pode criticar – Amanda Mirásci

A atriz prossegue em sua análise. Segundo ela, ao fim de uma das apresentações, uma mulher compartilhou uma experiência que também dialogava com essa autoestima masculina tão frágil quanto inflada. “Uma das histórias  foi de uma engenheira que estava saindo com um personal trainer. Caiu uma passarela no Rio de Janeiro, o assunto veio à tona no encontro e ela começou a explicar tecnicamente o que havia acontecido. Ele respondeu: ‘Não, acho que não foi isso’. Ela perguntou: ‘O que você acha que foi?’. Ele disse: ‘Meu pai já trabalhou com obra, acho que foi isso, isso e isso. Acho que você está errada’. Ou seja, mesmo sem autoridade no assunto, ele se achou no direito de diminui-la”.

Amanda Mirasci: “Nós, mulheres, temos tendência a achar que está faltando, que não está suficiente, e vivemos buscando melhorar” (Foto: Julia Lego)

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