Alexandre Mortágua parece ter encontrado na arte não um lugar de chegada, mas um modo de atravessar o tempo. Aqui, agora, todo mundo se impõe menos como resposta do que como gesto — um corpo em cena tentando, outra vez, religar fios rompidos, transformar dúvida em matéria viva e exposição em linguagem.
*por Vítor Antunes
“Há que, na alma me tem posto, / Um não sei quê, que nasce não sei onde; / Vem não sei como; e dói não sei porquê.” O soneto de Luís de Camões (1524–1580) poderia, sem grande esforço, servir como retrato afetivo de Alexandre Mortágua. Multiartista, escritor, diretor e ator, Mortágua está em cena com o espetáculo “Aqui, agora, todo mundo”. A peça nasce do livro homônimo e emerge de um período em que existir era, ao mesmo tempo, impulso e exaustão — uma disputa silenciosa entre o desejo de permanecer e a dificuldade de se manter conectado ao mundo. A montagem é um monólogo e conta com Felipe Barros no elenco, e está em cartaz no teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
Alexandre Mortágua sempre viveu sob o signo da exposição — ainda que por vias indiretas. Filho da modelo Cristina Mortágua e do ex-jogador de futebol Edmundo, figuras que, cada uma à sua maneira, monopolizaram olhares e narrativas públicas, ele cresceu negociando silenciosamente seu lugar nesse campo de atenção excessiva. “Acho que teve um momento em que, sem entender muito bem as minhas possibilidades profissionais, eu quis atuar, quis ser ator, estudei, fiz teatro por muitos anos. Quis me colocar o meu corpo à disposição, uma disposição que é bem profunda”. O desejo de presença, no entanto, encontrou outras formas. “Logo chegou uma outra possibilidade, que era dirigir filmes, escrever documentários, e poder fazer isso não me deixou sentir-me apequenado”.
Na adolescência, ele deixou o Rio de Janeiro e se afastou do núcleo de pessoas conhecidas. O movimento não foi apenas geográfico. “Tenho a certeza de que a Cristina que as pessoas conhecem não é a que eu conheço. A pessoa que o Edmundo era para quem o adorava não era a pessoa que eu conhecia”. Há uma insistência quase ética em separar imagem e humanidade. “Essa foi a maior dificuldade: ver meus pais como seres humanos. A fama deles traz dois fatores que desumanizam muito as pessoas: minha mãe ser um símbolo sexual e meu pai ser um atleta, um homem rústico. Eu me afastar deles foi uma forma de me afastar da imagem criada e vê-los como seres humanos. Isso não me permitiu ter ressentimento”.
“A minha peça é um exercício de criar, de recriar os seus laços com o mundo, e às vezes a gente não está em condições de conseguir. O livro surge nesse contexto, quando não havia muitas condições de religar os meus laços com o mundo. A literatura meio que se encarregou disso”. Mortágua fala com a cadência de quem organiza o pensamento enquanto o compartilha. “Sei que artista está sempre em dúvida. Na única apresentação que a gente fez completa, lá pela terceira cena, no fundo do teatro, me dei conta de ter escrito uma cena inteira sozinho no meu quarto, despedaçado, triste, e aí agora a gente está aqui. Essa é uma forma do que me conectou com o mundo de novo”.

Alexandre Mortágua: Livro do autor deu origem a uma peça de teatro (Foto: Victor Mossa)
Ser um homem gay, desde sempre, dentro de um universo atravessado pela heteronormatividade do futebol e por códigos rígidos de masculinidade, tampouco surge como um ponto isolado em sua narrativa. “Eu acho que isso começou a ser uma questão quando envolveu a minha sexualidade, lá pelos 16 anos. As coisas aconteceram cedo demais para eu assimilar.” Ainda assim, Mortágua destaca que os conflitos não se instalaram de forma linear dentro da família. “Nunca recebi do meu pai uma coisa direta, mas isso acabava reverberando no núcleo familiar. Quando cai na criança, reverbera na mãe, reverbera na família toda.”
O deslocamento veio como estratégia de sobrevivência. “Virou um conflito quando eu cresci um pouco. Fui morar com a minha avó, fui realmente em busca da minha turma” .Logo depois, a mudança para São Paulo funcionou como outro rito de passagem: “Nessa época não foi tão pesado assim. Esses atravessamentos que poderiam existir foram suavizados por uma criação lúdica de possibilidades”.
No campo político, Mortágua defende que o debate sobre questões LGBT e políticas públicas — especialmente em anos eleitorais — não pode prescindir de autocrítica, inclusive à esquerda. “Eu acho que é assim que a gente tem que pensar as nossas políticas públicas e a forma de fazer política. Esses espaços, de 2018 a 2022, deixaram bem claro que direito conquistado não é direito mantido. A gente tem que se manter atento ao que está acontecendo.” Para ele, transformar frustração em ação é uma saída possível. “Uma forma de não transformar tudo em ressentimento é transformar em revolta.”
Desde que o Lula assumiu a presidência, os únicos movimentos que colocaram pessoas na rua foram movimentos identitários: mulheres contra o aborto, mulheres contra a PEC, movimento LGBT. Quero deixar bem claro: não sou de direita, voto na esquerda. Mas a autocrítica tem que ser feita – Alexandre Mortágua

Alexandre Mortágua acredita que deva haver mais debate sobre questões LGBT, especialmente neste ano, de eleições (Foto: Victor Mossa)
Esse deslocamento aparece também na forma como Mortágua organiza sua produção atual. Além do livro que deu origem ao espetáculo “Aqui, agora, todo mundo”, ele já trabalha em novos projetos, em diferentes frentes, como se a multiplicidade fosse menos um plano de carreira do que uma maneira de existir. “Estou escrevendo o próximo livro. Agora estou procurando financiamento, porque o primeiro foi mais uma parceria, uma organização com a Editora Fósforo. A gente percebeu que existe interesse na minha literatura, algo que não existia antes.” O reconhecimento, ainda que recente, parece ter aberto espaço para um gesto mais consciente de estilo. “Acho que experimentei uma forma de escrever durante Aqui, agora, todo mundo. Para Anuário, que é o nome do livro que estou escrevendo, estou em busca de financiamento”.
O movimento é contínuo e não se limita à literatura. “No final desse semestre, vou lançar a segunda temporada do meu podcast, que é uma pesquisa sobre a cena de música eletrônica LGBT de São Paulo. Deve sair em maio. Em junho tem outro projeto, mas esse eu ainda não posso contar.” Há, no entanto, um fio conceitual que costura essas iniciativas. “Anuário”, explica, dialoga diretamente com o livro anterior, ainda que em outro registro. “Esse livro trouxe uma vulnerabilidade que eu não sei se estou a fim de encarar de novo. “Anuário” é uma continuação de Aqui, agora, todo mundo, só que em terceira pessoa. Tem um personagem, tem um narrador que sabe de tudo. É um livro mais otimista”.
A passagem do livro para o teatro também produziu deslocamentos importantes. Mortágua descreve a adaptação não como uma tradução literal, mas como uma mudança radical de regime sensível. “No livro você fica completamente entregue à palavra. No teatro, a vida está acontecendo ali, em tempo real.” A encenação, segundo ele, rompeu com o lastro autobiográfico mais evidente para se abrir a uma experiência coletiva. “Quando surgiu a proposta de tirar o lastro real da história e trazer isso para uma experiência mais coletiva, LGBTQIA+, fiquei muito surpreso com o que aconteceu. Com o texto que saiu, com a montagem que saiu”.

Alexandre Mortágua aponta para novos projetos neste ano (Foto: Victor Mossa)
O resultado, diz, opera num limite delicado. “A peça fica o tempo inteiro numa espécie de autoironia, mas também aponta saídas. Não sei se isso soa como autoajuda, mas fico com essa sensação depois de terminar a sessão. O livro também termina num lugar meio platô”. Não há conclusão definitiva, apenas uma suspensão — como se a narrativa se recusasse a oferecer catarse fácil ou redenção organizada.
Esse mesmo gesto de experimentação aparece no desejo de voltar a atuar, agora a partir de um texto próprio. “Estou adaptando, escrevendo um curta que eu achei que fosse abandonar. Nesse curta, escrevi um papel para mim.” O projeto marca uma inflexão importante em sua trajetória audiovisual. “Estou contornando minha carreira para sair do documentário e ir para a ficção. Acho interessante entrar na ficção com um pé na autoficção, fazer essa ponte com a realidade.” Ainda em processo de desenvolvimento, o filme permanece em aberto. “Estou tratando o roteiro. Não fechei ainda se vou fazer, mas é uma possibilidade que quero começar a tentar, de uma forma em que eu possa controlar mais o processo.”
O teatro, curiosamente, surge como uma descoberta tardia. “Para mim, o teatro já é uma super novidade.” Mortágua admite que sempre manteve certa distância dessa linguagem, menos por medo do que por respeito. “O teatro é a vida acontecendo ali, em tempo real. Não tem edição.” A ausência de mediação técnica — tão presente no cinema e no audiovisual — sempre o intimidou. “Isso sempre me intimidou um pouco, mas agora tenho gostado dessa ideia”.
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