Teatro & Pensata

Agenda Cultural: Ópera tcheca “Jenůfa” abre a temporada de 2017 do Theatro Municipal falando sobre a violência da sociedade contra a mulher.

A peça escrita há mais de 100 anos ainda retrata um quadro da sociedade atual e tem no elenco Eliane Coelho, um dos maiores nomes da ópera brasileira. E mais festas, show de Wesley Safadão e Anitta e feiras gastronômicas.

Publicado em 30/03/2017 | Por Rodrigo Cohen

Mais um ano cultural começa em um dos espaços icônicos do Rio de Janeiro, o Theatro Municipal. Para começar com o pé direito, o espetáculo escolhido foi a ópera tcheca “Jenůfa” do compositor Leoš Janáček e baseado na peça Gabriela Preissová. Falando sobre os desafios e violências impostos pela sociedade contra a mulher, o texto se mantém atual mesmo depois de 109 anos depois da montagem original. A Cia. Ópera Livre – responsável pela encenação – mostra um acerto na escolha do texto e que estão antenados no quadro político social do momento.

“A Jenůfa é quase uma síntese de todas as formas de violência que a mulher pode sofrer: a psicológica, a física e a opressão dentro do ambiente familiar ou da comunidade. É importantíssimo falar dessa violência, além de atual. Eu acho que esse é um dos grandes motivos da escolha desse título pela Cia. Opera Livre. Além, é claro, da beleza da música, do texto incrivelmente descritivo da Gabriela Preissova. Não há como não ficar tocado pela Jenůfa. Como mulher feminista eu apenas posso dizer: precisamos falar disso”, comentou Gabriella Pacce, protagonista da ópera.

Gabriella Pace e Eric Herrero Foto: Júlia Rónai

No enredo, uma mulher religiosa e de índole intocável decide assassinar o filho de sua enteada para que ela não sofra os percalços de ser vista como mãe solteira. “A madrasta decide matar o bebê de sua enteada, Jenůfa, por amor a ela, para que não enfrentasse o preconceito de ser mãe solteira. Talvez nós não consigamos entender o tamanho do amor que ela tem por Jenůfa a ponto de matar seu filho. Mas precisamos nos transportar para uma sociedade em que a mulher mãe-solteira seria apedrejada, teria seu nome jogado na `lama’ e estaria condenada a um futuro de isolamento e desprezo. Ainda hoje quantas vezes não ouvimos falar disso? Mulheres apedrejadas por adultério no Afeganistão ou meninas indianas que são assassinadas no nascimento por constituírem um problema para suas famílias. O tema de “Jenůfa” é realmente muito atual”, explicou a atriz.

A Cia. Ópera Livre formou-se ano passado depois de uma troca de ideias e experiências de um grupo com um interesse em comum: “Nos conhecemos há muito anos, ou dos palcos trabalhando juntos, ou assistindo a produções dos colegas. Mas foi em 2013, depois da montagem de “Sonhos de Uma Noite de Verão”, de Britten, no Parque Lage, produção que foi indicada ao International Ópera Awards e que teve público recorde de 3.000 pessoas, que chegamos ao entendimento de que poderíamos unir forças para criar uma companhia de ópera na qual produziríamos títulos que nos fossem instigantes e que pudessem ser ofertados às casas de ópera de maneira a somá-los as temporadas existentes nessas casas. Nos tempos de crise, dividir custos e formar parcerias é fundamental para a sobrevivência da classe artística de forma geral. Uma única produção operística pode chegar a envolver mais de 300 profissionais que dependem desse trabalho para sua subsistência”, contou o Eric Herrero, tenor do grupo.

Gabriella Pace e Eric Herrero Foto: Júlia Rónai

O cantor contou que embora o gênero ópera esteja distante da realidade do brasileiro, tem muito a ver com o perfil artísticos pelo qual a população costuma se interessar. ”A ópera tem tudo que o brasileiro gosta como forma de arte: além da música, o drama que se costuma ver nas telenovelas. O que falta é oferecer esse gênero a todos. As outras expressões musicais e artísticas nos são oferecidas desde criança de forma massiva. Nossa missão como profissionais da área é levar o máximo possível a ópera às pessoas para que tenham um primeiro contato, para que se habituem. Veja, a televisão também é um hábito. Quantas vezes uma determinada emissora já perdeu audiência por trocar um programa de horário ou o dia de exibição? Precisamos melhorar o acesso a ela. Muitas pessoas não sabem, mas a ópera tem legendas para que todos possam acompanhar cada instante, cada situação, além de um programa de sala com o enredo da história. Seja ela cantada na língua que for, todos poderão acompanhar e entender toda a trama”, explicou.

“Quando o país tiver a consciência de que apenas através de cultura e educação uma nação se torna robusta e sadia, nós teremos melhores condições de enfrentar esse tipo de crise pela qual estamos passando. Há uma tendência geral no país de se deixar em segundo plano a cultura por falta de dinheiro. Mas a falta de dinheiro é causada justamente por todo o período pelo qual a cultura foi esquecida ou deixada de lado. Não há nação forte e próspera que não tenha primeiro instituído a cultura como pilar central de sua construção” completou Eric e relembrou que os ingressos para muitos eventos culturais são mais em conta do que as entradas nos estádios de futebol.

Gabriella Pacce e Eliane Coelho Foto: Leo Aversa

Com direção de André Heller-Lopes, “Jenůfa” estará em cartaz nos dias 02 e 09 de abril às 17h e 04 e 07 de abril às 20h no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Os ingressos custam a partir de R$36,00. Para além dos obstáculos impostos pela mulher, Gabriella fala que o espetáculo é sobre a superação e a força retirada pelas mesmas das situações difíceis: “Jenůfa somente em sua cena final tem sua voz ouvida, se liberta e escolhe o seu destino. Até então, ninguém havia perguntado a ela o que gostaria de fazer, tudo havia sido imposto a ela. A mensagem final é de liberdade, de escolha. Li outro dia uma frase que me marcou muito: ‘Quebre o silêncio, cure a dor’”.

Cinema

GALERIA F – Theodomiro Romeiro dos Santos, militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, iniciou seu combate à ditadura brasileira aos 14 anos de idade, e chegou a ser preso aos 18, matando um dos agentes ao resistir à prisão. Agora, ele refaz toda a sua trajetória, contando de quando foi preso e torturado durante nove anos.

A Glória e a Graça –  O filme conta a história de Glória (Carolina Ferraz), travesti bem sucedida e feliz com suas conquistas mas que vive distante de Graça (Sandra Corveloni), sua irmã. Quando Graça descobre uma doença terminal, as duas vão tentar aproximar as famílias para reestabelecer as relações entre os primos.

Veja Mais:  Carolin Ferraz faz o papel de uma mulher transexual em novo filme de Flávio Tambellini que demorou nove anos para ficar pronto

Os Belos Dias de Aranjuez –  No norte da França, um escritor alemão (Jens Harzer) começa a escrever os esboços para o seu próximo livro e desenvolve, como ponto de partida, um diálogo entre um homem (Reda Kateb) e uma mulher (Sophie Semin), que se encontram em um jardim suspenso para discutir, entre outras coisas, questões como sexualidade, amor, infância e também suas memórias e a vida em si. A direção é de Win Wenders.

Teatro

Tãotão –  O Teatro O Tablado recebe a nova temporada de Tãotão, de Pedro Kosovski. O infantil conta a história de um menino solitário que passa o tempo todo brincando em seu quarto e imaginando um mundo mágico onde ele conversa e interage com os seus amigos imaginários. A direção é de Cacá Mourthé e o espetáculo venceu 4 prêmios CBTIJ em 2016. Sábados e domingos às 17h.

Polacas, as Prostitutas Judias –  Dramatização a partir da história de prostitutas que viveram no Rio de Janeiro no século XX. Cinco prostitutas estão num prostibulo a espera de clientes, quando são assediadas por um Caften (cafetão) e resolvem fugir para um lugar melhor. A peça está em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim às quintas, sextas e sábado, 21h, e domingos, 20h.

Shows & Eventos

A Balaia –  Em edição especial comemorativa de aniversário, a festa acontece no Cine Joia nesse sábado, dia 01 de abril. Além dos amados DJ’s residentes, a cantora Karol Karolla fará um pocket show e elevará o evento para um outro nível.

Gemal e a Máquina –  Conhecida pelo clima intimista, a Audio Rebel recebe todas as semanas shows imperdíveis em Botafogo, Zona Sul carioca. No dia 02 de abril (domingo), às 20h, será a vez de Gemal e a Máquina trazer um concerto recheado de canções da mais autêntica música popular brasileira. Como convidado especial, Carlos Pontual marca presença. Os ingressos custam apenas R$ 20 e a classificação é de 16 anos.

Wesley Safadão e Anitta –  Dois ícones capazes de arrastar multidões se juntam para transformar a Jeunesse Arena em uma das maiores festas que o Rio de Janeiro já viu. O encontro vai ser no sábado, 01 de abril, às 22h.

Baby do Brasil – Mais uma noite inesquecível para o Circo Voador. A encantadora Baby do Brasil chega a um dos palcos mais boêmios da cidade do Rio de Janeiro para lembrar a todos que a menina ainda dança. Esse sábado, 01 de abril, às 22h.

Elton John & James Taylor – Uma dupla incrível de deixar todos boquiabertos. O giro de shows começou em Curitiba (Pedreira Paulo Leminski, 3/3) e passa pelo Rio de Janeiro (Praça da Apoteose, 1/4) e Porto Alegre (Anfiteatro Beira-Rio, 4/4), encerrando-se em São Paulo (Allianz Parque, 6/4).

Gastronomia

Junta Local Uai –  A feira de produtores independentes chega a Comuna, Botafogo, nesse domingo com a temática principal da comida mineira para ajudar os produtores que sofreram algumas adversidades no início do ano. O evento dura de 10h às 17h e comida boa não vai faltar.

De Safadão a Ópera Tcheca, as águas de março vão embora e trazem uma programação agitada e diversa logo no início desse mês de abril que já promete grandes novidades no meio cultural.

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