Adultização infantil: denúncia de Felca também faz refletir como a TV empurrava crianças para mundo adulto cedo demais


A denúncia recente do youtuber Felca sobre adultização infantil em perfis de influenciadores também reacendeu o debate sobre a exposição precoce de crianças na TV e na publicidade que manteve viva uma engrenagem que transformava a infância em espetáculo, trazendo à tona um problema histórico, normalizado e que muita vezes até passa despercebido. O site ouviu a psicanalista Luiza Scarpa, que alerta: “A adultização de crianças é uma forma grave de violência que atinge diretamente o núcleo de constituição psíquica desse sujeito em formação, comprometendo o direito de viver plenamente a própria temporalidade e substituindo o brincar pela performance para satisfazer o olhar do outro”

*Por Brunna Condini

O vídeo publicado por Felipe Bressanim Pereira, mais conhecido como  Felca, denunciando a exposição precoce e sexualizada de crianças nas redes sociais – que levou a prisão de Hytalo Santos, colocou de volta aos holofotes um problema antigo, que atravessa gerações e formatos: a adultização infantil. Se hoje ela se dissemina via TikTok, Instagram e campanhas publicitárias digitais, no passado ela se instalava na TV aberta, em concursos de beleza, programas de auditório e novelas. O fenômeno, como alerta a psicanalista Luiza Scarpa, não é mero exagero cultural: “A adultização de crianças é uma forma grave de violência que atinge diretamente o núcleo de constituição psíquica desse sujeito em formação”.

Arrancada da possibilidade de viver plenamente a infância, a criança internaliza que desejar é sempre desejar o que o Outro quer – Luiza Scarpa

“Essa dinâmica coloca a criança no lugar de objeto do Outro. Ela não é vista como um sujeito de desejo, mas como meio para satisfação alheia, seja a do público, a dos responsáveis ou a das plataformas que monetizam sua imagem. É aqui que encontramos a covardia: o adulto, que deveria funcionar como barreira protetora entre a criança e o olhar invasivo do mundo, abdica dessa função. No lugar de interditar, expõe, no lugar de mediar, entrega”, acrescenta Scarpa.

O youtuber Felca, publicou um vídeo na última quarta-feira (6), em que faz denúncias sobre a exploração de menores de idade na criação de conteúdo na internet (Reprodução YouTube)

O youtuber Felca publicou vídeo no qual faz denúncias sobre a exploração de menores de idade na criação de conteúdo na internet (Reprodução YouTube)

Na dramaturgia, novelas como ‘Top Model’ (1989) e ‘Pátria Minha’ (1994) apresentavam tramas em que crianças participavam de diálogos sofisticados, romances precoces ou tramas em universos complexos para sua idade. Não à toa, o ex-ator Eduardo Caldas postou há dois anos em seu Instagram:

“Ser ator mirim é ser uma criança no mundo dos adultos e ‘Pátria Minha‘ é das minhas novelas mais ‘adultas’. Não só pelo tom e tema dela – novelas de Gilberto Braga não são das mais gracinhas ou românticas – mas também em relação ao que acontecia comigo fora da ficção. Profissionalmente, depois de 3 novelas, essa, a minha segunda “das oito”, era a primeira que eu fazia sozinho; sem uma preparadora de elenco (…). Novela das oito já costuma ser um outro animal, essa, de um dos maiores dramaturgos brasileiros de todos os tempos, trazia uma carga pesada e densa pro meu personagem infantil; um brasileiro que cresce americanizado, volta para uma realidade crua desconhecida, encontra a beleza de uma identidade que tinha mas não (re)conhecia, e de 15 em 15 capítulos perdia algum parente ou pessoa próxima (o elenco brincava que o nome da novela era “Enterro”)… Ah, ainda tinha que falar inglês!”, revelou.

Em maio deste ano, Eduardo declarou, em entrevista ao O Globo, que abandonou a carreira aos 14 anos como uma espécie de ‘fuga’ e para se proteger, ele chegou a adotar outro sobrenome (Albuquerque) ao assinar seus trabalhos como roteirista, mantendo o perfil nas redes sociais fechado e evitando qualquer associação com o passado na TV. Após a pandemia e uma temporada nos Estados Unidos, ele voltou ao Brasil decidido a revisitar essa história, e está entrevistando mais de 65 ex-atores mirins para um projeto que começa como podcast, mas deve se desdobrar em outros formatos:

(…) Existe uma crise de identidade quando se é ator mirim, pois fica difícil distinguir entre o que é parte de nós e o que pertence ao personagem. Aspectos da vida pessoal se misturam com o ‘faz de conta’ e vice-versa. Além disso, crianças normalmente têm acesso ao mundo adulto de forma homeopática, por meio dos pais. Já os atores mirins são lançados nesse ambiente adulto de modo intenso e diário. Após a escola, são levados para trabalhar, convivendo com adultos e assumindo responsabilidades que não são da sua idade – Eduardo Caldas (ex-ator mirim e roteirista)

Eduardo Caldas na infância e hoje, aos 40 anos (Reprodução)

Eduardo Caldas na infância e hoje, aos 40 anos (Reprodução)

O que parece ‘fofo’ pode ter impactos profundos

No passado, além das novelas, programas como o Cassino do Chacrinha (nele, um dos concursos mais lembrados foi o ‘A Criança Mais Bonita do Brasil’, que consagrou Angélica como vencedora); o Clube do Bolinha, o Programa Raul Gil (que até dezembro de 2024, quando chegou ao fim, ainda fazia concursos de calouros com crianças) promoviam competições infantis, enquanto humorísticos como A Praça É Nossa já colocaram crianças em cena com falas de duplo sentido. A roupagem era mais ingênua? Talvez. Mas ainda assim, vemos rastros do que ocorre quando crianças e adolescentes passam a vivenciar experiências, assumir responsabilidades ou adotar comportamentos e padrões estéticos próprios da vida adulta antes do tempo adequado.

Esse processo, que pode parecer inofensivo ou até ‘fofo’ aos olhos de quem assiste, carrega impactos profundos sobre o desenvolvimento emocional, social e psicológico. “A infância é um tempo curtíssimo e precioso na vida dos seres humanos. Por que pular essa etapa?”, questiona Luiza Scarpa, alertando que a lógica do engajamento e do lucro, alimentada por plataformas, emissoras e marcas, reforça um ciclo de exposição que pode transformar a infância em espetáculo e mercadoria.

 Angélica em concurso de beleza no Chacrinha (Foto: TV Globo)

Angélica em concurso de beleza no Chacrinha (Foto: TV Globo)

Atualmente, se a roupagem mudou, a essência se mantém. Nos anos 2000, programas como Ídolos Kids, e mais recentemente, o The Voice Kids, até 2023, levaram ao palco apresentações infantis com repertório adulto, e, na última década, o palco se transferiu para as telas do celular. No TikTok e Instagram, meninas de 8 a 12 anos reproduzem coreografias que não são para sua faixa etária e imitam maquiagens de influenciadoras. Marcas de moda infantil, por sua vez, muitas vezes apostam em campanhas com poses típicas de editoriais adultos. Para Luiza Scarpa, a questão vai além da estética e toca o cerne da formação subjetiva:

“O capitalismo atua enquanto motor dessa violência, estruturando incentivos econômicos que transformam a infância em mercadoria. As redes sociais e outras modalidades publicitárias lucram diretamente com a exploração da imagem infantil, premiando a performance sexualizada ou adulta. O resultado é que a proteção da infância é secundária frente ao lucro e ao consumo midiático”, pontua a psicanalista.

Cenas de concursos, programas e redes sociais mostram que a adultização infantil atravessa décadas: mudou o palco, mas não a lógica da exposição (Imagem: Pixabay)

Cenas de concursos, programas e redes sociais mostram que a adultização infantil atravessa décadas: mudou o palco, mas não a lógica da exposição (Imagem: Pixabay)

Scarpa reforça que a adultização não é um fenômeno isolado, mas uma prática socialmente legitimada e economicamente sustentada. “Não se trata de um desvio individual, mas de uma dinâmica que combina a omissão da função protetora dos adultos próximos com a exploração sistemática de um mercado que transforma a infância em espetáculo”, afirma.

Análise: romper o ciclo exige mais do que indignação pontual

Para Luiza Scarpa, a vulnerabilidade da criança nesse contexto é estrutural e exige responsabilidade de toda a sociedade. “É algo covarde, porque ela depende do Outro para existir. É o Outro que a nomeia, que lhe diz quem é, que lhe apresenta o mundo e a inscreve no laço social. Arrancada da possibilidade de viver plenamente a infância, a criança internaliza que desejar é sempre desejar o que o Outro quer. Não se trata apenas de reproduzir gestos ou vestir roupas, mas de uma submissão profunda ao olhar e ao desejo alheio, o que compromete o desenvolvimento da capacidade de desejar de forma autônoma”, elucida.

“Clinicamente, vemos as consequências: fragilidade narcísica – quando a autoestima se constrói a partir da validação externa -, confusão identificatória, dificuldades na elaboração simbólica da sexualidade, empobrecimento do capital cultural, dependência emocional e índices de angústia e depressão na adolescência acima da média. A lógica da performance constante, presente em programas televisivos e agora exacerbada pelas redes sociais, alimenta a ideia de que o valor do sujeito está no quanto ele agrada ao olhar do Outro, não no que ele é ou deseja para si”.

“A covardia é gritante, uma vez que a vulnerabilidade da criança, nesse contexto, é estrutural" (Imagem: Pixabay)

“A covardia é gritante, uma vez que a vulnerabilidade da criança, nesse contexto, é estrutural” (Imagem: Pixabay)

Para ela, romper esse ciclo exige mais do que indignação pontual. “É preciso também nomear a dimensão social dessa violência. Não são apenas pais e responsáveis que a produzem. Plataformas digitais, emissoras e marcas lucram diretamente com a exploração e/ou exibição sexualizada de crianças. O sistema de monetização e engajamento recompensa conteúdos que prendem o olhar, e o corpo infantil, colocado de forma erotizada, infelizmente se tornou um produto altamente rentável. Neste ponto, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) deveria exercer a função de barreira simbólica e protetora que, no campo psíquico, cabe ao adulto. Ele já garante o direito ao respeito, à dignidade e à preservação da imagem (art. 17) e proíbe qualquer forma de exploração (art. 5), mas a aplicação prática precisa ser ampliada e adaptada ao cenário digital”.

Por fim, Scarpa enfatiza que a adultização não é um desvio individual, mas uma prática socialmente legitimada e economicamente sustentada. “Ela combina a omissão da função protetora dos adultos próximos com a exploração sistemática de um mercado que transforma a infância em espetáculo. A violência está tanto no que se vê, através das performances, quanto no que não se vê: a perda irreversível de um tempo que deveria ser dedicado a tornar-se sujeito. Romper esse ciclo exige mais do que indignação pontual. É preciso regulamentar com rigor a participação de crianças em conteúdos de teor sexualizante, aplicar de forma atualizada e contundente os dispositivos do ECA e, sobretudo, resgatar o reconhecimento de que infância não é palco para o desejo do Outro, mas o espaço insubstituível onde se forma o desejo próprio”, finaliza.