Teatro & Pensata

Adaptação de Romeu e Julieta transforma a tragédia de Shakespeare em um musical com direito à poesia contemporânea de Marisa Monte: “Pude ver as minhas composições por outra perspectiva”, afirmou

Devido esta mescla de modernidade com um roteiro clássico, o espetáculo ganhou um linguagem menos rebuscada e mais jovem, visando facilitar o entendimento do público. Além disso, a montagem traz novos nomes para os palcos e ainda aposta na diversidade

Publicado em 14/03/2018 | Por Ana Clara Xavier

Nesta terça-feira, rolou a estreia para convidados do espetáculo Romeu + Julieta, no teatro Riachuelo, no centro do Rio de Janeiro. O evento contou com a presença de vários artistas de peso como Reynaldo Gianecchini, a dupla Anavitória, Thiago Martins, Vera Holtz, Paula Burlamaqui e muitas outras celebridades. Toda esta turma veio prestigiar um projeto inovador que conseguiu transformar a literatura clássica de Shakespeare em um musical e, ainda por cima, com o repertório conhecido de Marisa Monte. “O convite para participar indiretamente desta peça veio através do Gustavo Gasparani, o meu amigo e adaptador do texto, que fez a escolha das canções. Nunca imaginaria ver as minhas composições em Romeu e Julieta, mas alguém teve esta ideia e acho que combina. Fiquei muito feliz com a proposta e estou muito realizada pela emoção que vivi neste dia, onde pude ver as minhas composições por outra perspectiva. Gosto de musical, de Shakespeare e de música, então é uma união de tudo o que amo”, afirmou Marisa Monte, que assistiu pela primeira vez o resultado final ontem. Gustavo foi o principal responsável por esta mescla de assuntos. A iniciativa saiu a partir de um convite para adaptar o roteiro que veio do diretor Guilherme Leme Garcia e, na ocasião, o adaptador achou que seria interessante trazer as canções de Marisa por serem amorosas e delicadas, tal qual o enredo.

Gustavo Gasparani, Marisa Monte e Vera Holtz na noite de estreia para convidados (Fotos: Felipe Panfili/Divulgação)

A união inusitada acabou dando certo, já que aplausos não faltaram na noite de ontem, fossem eles durante do espetáculo ou ao final. A percepção que a experiência deixou foi como se a cantora tivesse escrito todas as canções baseada na história de Romeu e Julieta, de acordo com a opinião da produtora da montagem, Aniela Jordan. “Eu achava bem difícil esta união, porque parece que a tragédia do espetáculo não combina com um musical. Mas os adaptadores tiveram um dom maravilhoso de costurar a história com as canções, de forma que possuam função narrativa. Combina muito bem”, completou Thiago Machado, que faz o protagonista.

Além de transformar a tragédia shakespeariana em um festival de música, pitadas de humor e cores, a união do texto com as letras de Marisa Monte acabou resultando na mudança de um outro elemento presente nesta montagem: a palavra. “O diferente desta peça é juntar estes dois opostos e, por causa disso, precisei trazer um pouco da contemporaneidade das músicas de Marisa Monte para este espetáculo. Inclusive, há trechos dela nas falas dos personagens. Tudo o que Shakespeare fala é atual, o que precisávamos era ligar a linguagem das canções com o roteiro. Sendo assim, fica mais fácil de as pessoas entenderem, em especial os jovens. O nosso objetivo era trazer mais adolescentes para o teatro”, comentou o profissional. De acordo com ele, além desta alteração, a única coisa que fez foi pontuar ainda mais a comédia presente no texto, que geralmente brinca com elementos de cunho sexual.

Bárbara Sut e Thiago Machado na cena final do espetáculo (Fotos: Felipe Panfili/Divulgação)

Apesar de Romeu e Julieta ser voltado para uma narrativa romântica que se passa há muitos anos em Verona, na Itália, o elenco consegue traçar um paralelo com os dias atuais. Obviamente, nesta montagem existem alguns elementos extras de contemporaneidade, mas a turma conseguiu ir além do óbvio. “Estou muito feliz de poder contar esta história que, além do amor, fala de intolerância. Este tema é importantíssimo, porque precisamos muito ter compaixão e tolerância no Brasil. Consigo ver esta necessidade no público a partir da sua reação a determinadas atitudes em cena”, analisou Thiago Machado, o Romeu da trama. Nesta tentativa de atualizar a linguagem, ainda há um momento no qual a Ama de Julieta profere uma fala muito atual: ‘Quando uma mulher diz não é não’.

Marisa Monte agradecendo ao carinho do público (Fotos: Felipe Panfili/Divulgação)

Uma grande preocupação da equipe no momento de selecionar o elenco era empregar a brasilidade. Dessa forma, podemos ver a diversidade no palco fluindo através dos atores. A protagonista, por exemplo, é uma atriz negra, contrariando diversas adaptações desta tragédia que sempre exibem uma mulher branca. “Espero que o fato de eu ser negra não seja uma questão para as pessoas que vierem assistir. Vários atores ficaram muito felizes por uma peça do eixo Rio e São Paulo trazer uma Julieta que é negra, muita gente não achava que era possível. É legal esta representatividade, para que os artistas possam se ver com destaque em cena. Além disso, fico feliz que esta montagem não tenha isto como questão, não perdemos tempo explicando porque determinado papel é negro. São apenas pessoas. Muita gente rebate dizendo que ela era européia, mas este espetáculo fosse feito no Japão com certeza os atores teriam olhos puxados, sendo assim porque no Brasil todos têm que ser brancos?”,  questionou a artista Bárbara Sut. Fazem parte da trama o ator Ícaro Silva, Pedro Caetano, Max Grácio, Luci Salutes, Laura Carolinah, Gabriel Vicente e muitos outros.

Fernando Torquatto foi o responsável pelo visual do espetáculo (Fotos: Felipe Panfili/Divulgação)

Outra grande particularidade desta montagem é apostar em caras novas do teatro, sendo a grande maioria jovens atores. “Está sendo um misto de emoções pessoais poder interpretar um personagem tão famoso do Shakespeare. Está sendo o papel da minha vida, irá ficar para sempre na minha memória. Nunca tinha feito ele antes. Além disso, juntar este universo clássico com as músicas de Marisa, que é uma grande diva da MPB, é um presente para mim”, completou Thiago Machado. Para ajudar na preparação deste elenco, a atriz Vera Holtz foi a responsável ajudá-los a encontrar o personagem ideal dentro de si mesmo. “Nunca tinha participado de uma produção tão grande como esta. Em cinco dias de espetáculos tivemos cerca de quatro mil pessoas e este era um número que eu não poderia nem mesmo imaginar. A Julieta é, com certeza, o maior papel que tive até agora, não por ser uma protagonista, mas por ser o que mais me desafiou. Precisei fazer uma imersão para conhecer”, afirmou a protagonista.

O fato de não serem atores conhecidos não significa que não tenham talento, até porque isto esta equipe tem de sobra. É perceptível, por exemplo, o amadurecimento e crescimento da personagem de Julieta ao longo do espetáculo. “Eu já conhecia o espetáculo e precisei tirar preconceitos. Inicialmente a achava muito doce e frágil, mas agora descobri que é uma heroína trágica, com uma grande densidade teatral. Precisei achar uma Julieta que rompe com a sociedade e com a família. O papel que faço hoje é muito diferente do que eu imaginava há dois meses vocalmente e fisicamente”, afirmou Bárbara Sut. Esta representação mais empoderada do papel foi uma sugestão dada por alguns companheiros da equipe. “O olhar masculino do diretor Guilherme Leme Garcia me fez perceber a força desta mulher, porque ele falava que a Julieta era a heroína desta peça. Quando o Romeu é exilado, ela é quem tenta resolver esta separação e, no primeiro ato, fala para ele casar com elas. As decisões são tomadas por esta personagem”, completou.

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Exatamente por esta dramaturgia já fazer parte do imaginário da sociedade acaba sendo difícil de fugir do lugar comum. “Queríamos fazer algo que remetesse a uma época, mas que a pessoa não conseguisse precisar o momento. Foi muito lúdico”, afirmou Fernando Torquato. O profissional foi o responsável pelo visagismo do espetáculo, criando novidades para transpor a barreira do que já foi visto. “Para diferenciar as famílias, fiz um paralelo entre o sol e a lua, sendo Julieta e Romeu, respectivamente. Os Capuletos estão sempre de bege, dourado e vermelho e, enquanto isso, os Montecchio tem o cinza e o prateado. Também trabalhei com texturas. A Julieta e grande parte de seus familiares tem dreads e os outros possuem tranças. Fui brincando com estes efeitos para pontuar muito bem qual era a gangue”, completou.

 

SERVIÇO – ROMEU & JULIETA

 

Local: Teatro Riachuelo Rio – Rua do Passeio, 40 – Cinelândia – Rio de Janeiro/RJ

Temporada: 9 de março a 27 de maio

Horários: sextas (20h), sábados (20h) e domingos (18h)

Vendas: www.ingressorapido.com.br

 

Preços (valores de entrada inteira):

 

SEXTA 20h

Plateia VIP – R$ 140,00

Plateia – R$ 120,00

Balcão Nobre – R$ 100,00

Balcão – R$ 50,00

 

SÁBADO 20h e DOMINGO 18h

Plateia VIP – R$ 160,00

Plateia – R$ 140,00

Balcão Nobre – R$ 120,00

Balcão – R$ 50,00

 

Capacidade: 1000

Duração: 2h

Classificação etária: Livre

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