*Por Brunna Condini
Fernanda Montenegro viveu um momento terrível na segunda-feira. A atriz de 96 anos se deparou com um vídeo em que sua voz e seu rosto foram clonados e recomendavam um remédio ‘milagroso’ para idosos, um produto que promete até curar Alzheimer e que não tem registro na Anvisa. Ela foi às redes denunciar a farsa, chamando o episódio de crime. E, ao fazer isso, colocou luz sobre um problema que já não é mais exceção: Dráuzio Varella, Ana Maria Braga e Glória Pires, entre outras personalidades, já tiveram suas imagens e vozes manipuladas por deepfakes para promover produtos, serviços e investimentos fraudulentos, sem qualquer autorização. Se nem o rosto nem a voz de alguém são suficientes para atestar a autenticidade de um conteúdo, em que ainda podemos confiar?
E o Brasil não é espectador distante dessa história: o país concentra 39% de todos os casos de deepfake detectados na América Latina em 2025, com um crescimento de 126% em relação ao ano anterior, segundo o Identity Fraud Report da Sumsub.

Fernanda Montenegro denuncia golpe com uso ilegal de sua imagem em anúncio (Reprodução/Instagram)
Indústria do ‘rosto roubado’
O golpe que atingiu a veterana segue uma receita repetida à exaustão: surrupiar a credibilidade que alguém construiu ao longo de uma vida inteira para o que for mais lucrativo no momento. Antes, isso exigia photoshop grosseiro e dublagem tosca, fácil de identificar. Hoje, a inteligência artificial reproduz timbre de voz, cadência de fala e micro-expressão facial com uma naturalidade que engana até quem convive bem com a pessoa em questão. Bancos, fintechs e plataformas de apostas são os alvos mais visados, mas como o caso de Fernanda mostra, a fama também virou matéria-prima da modalidade.
A resposta de Fernanda: ocupar o próprio espaço antes que outros ocupem por ela
Na mesma segunda-feira em que denunciou o golpe, Fernanda Montenegro anunciou a estreia de perfis oficiais no TikTok e no YouTube, plataformas que passarão a reunir vídeos, reflexões e registros de sua trajetória. No primeiro vídeo publicado no TikTok, reuniu imagens de diferentes fases da carreira e resumiu quase um século de ofício com simplicidade: “Vida vivida. É uma vocação, praticamente já está indo para 100 anos”. Já no YouTube, a estreia trouxe uma entrevista de 2017, concedida ao jornalista Eric Nepomuceno, com reflexões sobre os desafios e os medos da vida artística. A coincidência de datas dificilmente é acaso: no mesmo dia em que uma versão fabricada de sua voz vendia remédio falso, a versão real da artista reivindicava, oficialmente, o direito de ser ouvida por ela mesma. Em um momento em que qualquer imagem pode ser clonada, talvez a defesa mais eficaz não seja só denunciar o falso, mas multiplicar os canais onde o que é verdadeiro pode ser checado na fonte.

Se nem a voz nem o rosto de alguém bastam mais como prova de que aquilo é real, no que ainda podemos confiar?(Foto: Pixabay)
Quando nem o especialista consegue mais confiar no que vê
Se existe alguém que deveria estar imune a esse tipo de engano, é Hany Farid, professor de Berkeley considerado referência mundial em detecção de deepfakes. Pois nem ele escapa. Depois de golpistas clonarem o número de telefone de um contato próximo e usarem IA para replicar a própria voz, Farid e a esposa passaram a usar uma palavra-código no início de cada ligação, só pra confirmar que estavam falando um com o outro de verdade. Questionado sobre o estado atual da tecnologia, resumiu o momento em poucas palavras: “estamos ferrados”. Vindo de quem passou a carreira ensinando o mundo a reconhecer o que é falso, a frase pesa diferente. E nós, ‘simples mortais’, como faremos para identificar o que não é legítimo então?
A confiança como alvo, não como consequência
O golpe com a imagem de Fernanda Montenegro tem uma crueldade específica: mira em quem tem menos ferramentas para desconfiar. É um remédio vendido a idosos, endossado pela voz de uma atriz que gerações inteiras aprenderam a respeitar. A confiança que ela construiu ao longo de uma carreira virou, nas mãos de golpistas, isca. E o problema não se limita a golpes de saúde: em ano de eleição presidencial no Brasil, especialistas já apontam risco real de deepfakes contaminando o debate público antes mesmo que a imprensa ou as autoridades consigam verificar o que é real, o que levou o Tribunal Superior Eleitoral a aprovar regras específicas contra conteúdo manipulado por IA durante o período.
Em março, por exemplo, em um painel batizado de “Deepfake, IA generativa e o colapso da confiança digital”, especialistas do Serpro e do Banco do Brasil debateram como a sofisticação das fraudes já supera a capacidade de resposta isolada da tecnologia, exigindo também curadoria humana.

O desafio de identificar deepfakes (vídeos e áudios gerados por Inteligência Artificial (IA) para simular pessoas reais); tornou-se um dos maiores problemas de cibersegurança e integridade da informação (Foto: Pixabay)
O que ainda podemos fazer com os próprios olhos
A gente cresceu com uma lógica simples: ver para crer. Se tinha imagem, tinha prova. Se tinha vídeo, tinha realidade. Foi um século inteiro construindo esse instinto, e a inteligência artificial generativa levou poucos anos pra desmontá-lo. Hoje qualquer pessoa com um aplicativo consegue fabricar, em minutos, uma ‘prova’ que nunca existiu, algo que décadas atrás exigiria um estúdio inteiro de efeitos especiais. Isso devolve a discussão para o lugar que interessa: educação digital não é mais assunto de curso de tecnologia, agora é reflexo de sobrevivência cotidiana. Antes de acreditar, questionar. Antes de compartilhar, verificar a fonte. Antes de confiar só porque reconheceu um rosto, lembrar que reconhecer já não é garantia de nada.
Tem um paradoxo incômodo nisso tudo: a tecnologia que prometia aproximar a gente da verdade, com mais câmeras, mais registros de tudo, é a mesma que agora torna qualquer imagem questionável. Vivemos cercados de ‘evidências’, e ao mesmo tempo, mais desconfiados do que nunca em relação a elas. Fernanda Montenegro teve a plateia e a voz pra denunciar o que fizeram com sua imagem. Nem todo mundo vai ter esse alcance quando for a vítima. Talvez o alerta dela sirva menos para nos ensinar a reconhecer um golpe específico e mais para nos lembrar que a confiança, esse crédito que uma vida inteira levava para se construir, agora pode ser clonada e revendida em segundos. E a gente ainda não aprendeu a viver com isso. Aprenderemos?

Deepfakes: O que ainda podemos fazer com os próprios olhos? (Foto: Pixabay)
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