Teatro & Pensata

A história de Malala em cartaz no Rio: “é necessário porque também travamos uma guerra contra a opressão”, conta a idealizadora Tatiana Quadros

O Teatro Oi Casa Grande recebe a adaptação teatral do livro-reportagem da jornalista Adriana Carranca, que conta sua viagem até o Paquistão e a história da jovem Malala, que lutou pelo direito de ir à escola. Com as próximas apresentações em dezembro, o espetáculo promete emocionar

Publicado em 14/12/2018 | Por Anna Castro

Malala Yousafzai tinha apenas 15 anos quando, em 2012, sofreu um atentado a tiro, em retaliação a sua luta pelo direito feminino à educação. A paquistanesa, em seu blog, contava o impacto diário do Talibã no Vale do Swat, onde sempre viveu. A história da corajosa e política jovem, publicada no livro-reportagem “Malala, a menina que queria ir a escola” de Adriana Carranca, que viajou até o Paquistão e narrou sua viagem, transformou-se  no espetáculo em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro. A peça foi idealizada pela atriz Tatiana Quadros e a temporada de estreia fez tanto sucesso que a peça infanto-juvenil voltou em cartaz e conta com as apresentações nos dias 15 e 16 de dezembro, às 15h. A menina não poderia prever os acontecimentos de sua trajetória, nem seu alcance pelo mundo todo, que começou com apenas um lápis e um desejo.

A peça infanto-juvenil traz a viagem da jornalista Adriana Carranca e a história da jovem Malala (Foto: Ricardo Borges)

A jovem nasceu em Mingora, a maior cidade do Vale do Swat, na província de Khyber-Pakhtunkhwa do Paquistão, uma região de extraordinária beleza, cobiçada no passado por conquistadores e protegida pelos bravos guerreiros pashtuns – os povos das montanhas. Uma região habitada por reis e rainhas, príncipes e princesas. Malala cresceu entre os corredores da escola de seu pai, Ziauddin Yousafzai, e era uma das primeiras alunas da classe. Quando tinha dez anos viu sua cidade ser controlada por um grupo Talibã, que impôs muitas regras. Proibiram a música e a dança, baniram as mulheres das ruas e determinaram que somente os meninos poderiam estudar. Usando um pseudônimo, Malala tornou-se correspondente da BBC, através de um blog denunciava o regime de opressão, em choque com os mais elementares princípios dos direitos humanos. A ousadia de Malala, que acabou por selar seu destino, foi declarar publicamente, um ano antes do atentado, que queria ser política para ajudar seu povo. Em 9 de outubro de 2012, aos 15 anos, quando voltava de ônibus da escola, sofreu o atentado. “É uma história extremamente pesada, mas que nós não queríamos pesar ainda mais no espetáculo. Então, fomos sinceros com todos os acontecimentos, até porque as crianças e adolescentes precisam saber o que acontece no mundo, mas fomos delicados em trazer músicas suaves e humor”, conta a atriz e idealizadora da peça, Tatiana Quadros.

O ambiente e a trilha sonora assinada por Adriana Calcanhotto criou a esfera de emoção da história real (Foto: Ricardo Borges)

No discurso que Malala leu na ONU – primeira aparição publica após o atentado – Malala prometeu que não seria silenciada e afirmou: “A caneta é mais poderosa do que a espada”. Avançou firme em direção ao seu propósito e travou uma luta global contra o analfabetismo, a pobreza e o terrorismo, convocando todos os governos a assegurar a educação obrigatória livre e a elaborar um acordo de paz com intuito de proteger os direitos de meninas à educação. Em 2014 tornou-se a mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz. A história começa com a saga de uma jornalista, curiosa, desbravadora e inquieta, que atravessou o mundo para descobrir o que aconteceu com Malala e porque ela estava sendo perseguida. Era uma missão perigosa, pois a terra natal da jovem havia se tornado um território proibido para jornalistas. Vestida como as mulheres do Vale, a jornalista circulou pelas ruas da cidade, se hospedou com moradores locais, conheceu as amigas de Malala, sua escola e até mesmo a casa onde morava. A autora foi vencedora do Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, FNLIJ, nas categorias Escritora Revelação e Livro Informativo. A obra também é recomendada pela Fundação para adoção nas escolas. Lançado em Portugal e em todos os países da América Latina, o livro ganhará, em breve, uma tradução para o alemão, turco e urdu.

A idealização da peça foi feita pela atriz Tatiana Quadros, que conheceu o livro em 2015, no lançamento (Foto: Ricardo Borges)

A partir do livro, publicado em 2015, Tatiana sentiu a potência da história e começou sua saga para o espetáculo. “Eu sempre fui uma grande admiradora do trabalho da Adriana Carranca e foi durante o lançamento do livro que eu basicamente o engoli e, nesse processo, já conseguia imaginar fragmentos da peça nas cenas. Claro que foi trabalhoso, porque a linguagem mais jornalística do livro-reportagem, principalmente com a Adriana narrando na primeira pessoa, queríamos transformar em mais personagens. Enfrentamos muitos problemas para conseguir financiamento. Fiquei 3 anos lutando por isso e só esse ano que pudemos concretizar o projeto”, contou. A peça, em sua temporada de estreia, atraiu mais de 6 mil espectadores em apenas uma semana, então voltou aos palcos para emocionar mais uma vez. “Nós esperávamos que houvesse alguma emoção envolvida, principalmente por ser a história da Malala, já muito conhecida. Só que não imaginávamos a real repercussão. Lotamos todas as salas e fizemos questão de unir crianças das escolas particulares  e públicas, tentando inclusive arrumar algum transporte para eles, já que a Secretaria de Educação não tinha verba. Queríamos colocar ainda mais a educação como prioridade de forma que as crianças pudessem aprender com a Malala”, disse a atriz.

Ainda, segundo Tatiana, a identificação e a empatia que a história gera também estão ligadas com o momento que vivemos no Brasil. “As crianças, muitas delas moradoras de favelas e periferias, conseguiam se relacionar e se identificar diretamente com a história de Malala, principalmente por viverem em lugares de violência extrema e de confronto. Nós, como sociedade, vivemos um momento de extrema violência, intolerância, guerra e de uma história agressiva que começou com a colonização e que ainda temos dívidas históricas com os índios e os negros por isso. E hoje todos vivemos com medo, com receio de perder direitos, com temendo pela própria vida”, revelou. Com canções originais de Adriana Calcanhotto, direção de Renato Carrera, adaptação de Rafael Souza-Ribeiro, a produção traz a reflexão da história traz força para o momento social vivido no Brasil, segundo Tatiana. “Malala nos inspira a lutar contra a opressão exatamente do jeito que ela fez: sem violência. Eu acredito que podemos lutar contra o medo e a favor dos direitos das mulheres, das crianças, dos idosos e tantos outros do jeito certo. Malala acreditava no poder da educação e das palavras e por causa disso ela conseguiu chegar onde chegou na luta em seu país”, frisou.

A história de Malala, aclamada no mundo todo, traz a visão juvenil do retrato opressivo do Talibã e a luta pela educação das mulheres (Foto: Ricardo Borges)

“Fiquei muito feliz por ter sido lembrada para escrever canções para a peça porque acompanho a trajetória de Malala desde sempre, com muita admiração por sua coragem e inteligência. Vejo a influência que ela exerce em Oxford e no mundo todo e acho linda a relação com seu pai, que fortalece aos dois e à luta de ambos por um mundo melhor. Gostei de compor pensando em Malala porque, no fundo, quando crescer quero ser igual a ela”, se diverte Adriana Calcanhotto. Em um trabalho composto de mãos talentosas, Adriana Carranca viu a importância social de uma narrativa. “Ficou claro para mim que esta era uma história inspiradora para os pequenos, por Malala ser apenas uma menina, uma jovem de uma zona tribal que acreditou nos seus sonhos. Por ser uma história de amor a escola, aos professores e aos livros”, comentou Carranca. “Eu queria muito que as crianças brasileiras também acreditassem que é possível mudar o mundo”.

“Malala, a menina que queria ir para a escola”, de Adriana Carranca

Elenco: Adassa Martins, Dulce Penna, Fernanda Sal, Hugo Germano, Ivson Rainero, José Karini, Marcelo Valentim, Patrícia Garcia e Tatiana Quadros & o músico Adriano Sampaio com percussão original

Local: Teatro Oi Casa Grande, Avenida Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon, Rio de Janeiro

Dias:15 e 16 de dezembro, às 15h

Ingresso: R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia)

Funcionamento da bilheteria: terça a domingo das 15h às 20h

Vendas online: www.tudus.com.br

Classificação: Livre

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