Teatro & Pensata

“A arte opera no sensível e isso é muito forte. A gente precisa parar, olhar e escutar”, diz Bruna Trindade

"A mulher que virou planta" é inspirado na obra de Emanuele Coccia e propõe reflexão sobre novas formas de ação no mundo. O espetáculo está em cartaz até 22 de setembro no Rampa – Lugar de Criação, em Copacabana

Publicado em 30/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

Bruna Trindade propõe uma reflexão sobre a velocidade da vida, em “A mulher que virou planta’ (Foto: Vitor Medeiros)

*Por Rafael Moura

Até 22 de setembro, a atriz Bruna Trindade propõe uma reflexão sobre a velocidade da vida, com “A mulher que virou planta‘, em cartaz no Rampa – Lugar de Criação, em Copacabana, e inspirado no livro “A vida das plantas: uma metafísica da mistura”, do filósofo italiano Emanuele Coccia. O espetáculo propõe uma experiência de imersão em estar no mundo com direção artística de Tatiana Motta Lima. Para entender esse processo, o site Heloisa Tolipan conversou com a protagonista e com o encenador Vitor Medeiros. “O meu primeiro contato com essa ideia de transformar-se em planta foi no início de 2017, com o livro ‘A Vegetariana‘, da escritora sul-coreana Han Kang. Fique encantada pela publicação até que Tatiana Motta Lima trouxe o livro do Coccia para pensarmos o trabalho a partir dos conceitos filosóficos que continham ali. Coccia repensa o que é estar no mundo através da plantas, e me interessa esse lugar, em que o pensar sobre o que é estar em cena é pensar sobre o que é estar no mundo. Afinal de contas, como diz a Tatiana, não existe um “corpo de ator”, nosso corpo é o mesmo que vive, o mesmo que se relaciona, o mesmo que protesta. É esse mesmo corpo que está em cena”, conta Bruna.

Vitor corrobora com Trindade explicando que “outras referências atravessaram a construção da peça desde o início – histórias mitológicas, como a da ninfa Dafne, que se transformou num loureiro para fugir do assédio do Deus Apolo; personagens de obras literárias como K, que vira um inseto monstruoso em ‘A Metamorfose‘, de Kafka; Bartleby, que se recusa a fazer pequenas tarefas no conto de Herman Melville, e Yeong-hye, que inicia uma trágica reação em cadeia ao parar de comer carne em ‘A Vegetariana‘. A dupla também mergulhou no universo de reportagens sobre pessoas que pararam de se alimentar e passaram a viver só de luz solar e água. Além de canções dos povos indígenas hoasqueiros Huni Kuin e de tradições populares nordestinas, como ‘Grande Poder‘, de Mestre Verdelinho, ‘A terra deu, a terra dá, a terra cria/ (…) Tudo que vive nesta terra pra esta terra é alimento’. “Pensamos sobre textos teóricos, ensaísticos e filosóficos, como ‘A política sexual da carne: uma teoria feminista vegetariana‘, de Carol Adams, ‘A vida secreta das árvores‘, de Peter Wohlleben, e ‘A Sociedade do Cansaço‘, de Buyng-Chul Han. Todas essas referências contribuem para o embasamento conceitual do projeto e são como ramos, brotando do nosso tronco central que é o trabalho de Coccia”, explica Medeiros.

A peça ‘A Mulher que virou planta’ oscila entre a realidade e a fantasia (Foto: Vitor Medeiros)

Em um tom onírico, a filosofia e a poesia desenvolvem-se por meio de partituras corporais que pretendem dilatar o tempo e aguçar a sensibilidade do espectador. Para construção de cada minucioso movimento foi realizado um trabalho de preparação corporal com Renata Asato, buscando na técnica milenar do teatro Nô, e mais especificamente na “kata” – formas específicas de andar, sentar a manusear objetos – o apreço pelo detalhe com o máximo de expressão. “Quando eu digo pensar, não estou dizendo só sobre o ato de raciocinar. Pensar também enquanto prática de corpo, de experimentação concreta. Se as plantas transformam o clima, assim como, o clima transforma as plantas. A mulher que vira planta, que se percebe planta, então poderia transformar, minimamente, seu entorno, ambiente, família, atmosfera, casa. Se tudo está misturado com tudo, então pequenas atitudes pacíficas, não-violentas, que vão contra a lógica consumista e de produtividade, poderiam agir como uma semente de algo mais livre, menos ansioso”, ressalta Bruna.

Existe uma reflexão na peça sobre a concretude dos corpos e das coisas, de formas que atravessam o tempo, como aquelas árvores centenárias, milenares. Cada objeto que está em cena tem uma história e isso está, de alguma forma, inscrito na sua forma. “Quando a gente olha para um objeto antigo, geralmente conseguimos perceber isso e até adivinhar de qual época ele veio. A nossa ideia é reunir essas diferentes temporalidades e jogar com elas”, conta Vitor. Bruna acredita que “nossa função enquanto artistas não deveria ser apenas criar obras de arte, mas também criar outras formas de estar no mundo, criar pequenos impasses, para nós mesmos e para os outros que nos provoquem, que nos acordem desse estado de sono gerado pelo cansaço. E nessa “sociedade do desempenho”, como chama o filósofo Byung-Chul Han, em que estamos constantemente precisando produzir, ter, fazer, agir, gerar, elaborar, executar, ócio, tédio e preguiça são vistos de forma negativa já que são contraproducentes tendo em vista um ideal de produtividade exaustivo. O cansaço gera automatismo e ao invés de liberdade. Todo mundo quer ser livre… mas como?”, enfatiza.

Bruna Trindade no solo performático decide ‘parar’ como uma forma de protesto (Foto: Vitor Medeiros)

Em estreito diálogo com a estética minimalista desenvolvida na pesquisa, a trilha sonora original criada por Bianca Godoi se utiliza de sintetizadores para mesclar sons e ritmos atemporais. Para marcar a escolha pela artesania, a música criada originalmente para o espetáculo foi prensada em um vinil exclusivo, que é manipulado em cena pela atriz. O figurino e os adereços, garimpados em feiras de antiguidades e nos armários de família, complementam essa imagem sutil. Ao longo de toda a experiência, o público é convidado a partilhar da mesma sensação de suspensão em que se encontra a performer, sensação que se torna bastante concreta a medida em que o solo avança, convocando as pessoas ao redor a sintonizarem o mesmo estado de atenção, que oscila entre a calma meditativa e um frisson provocado pelo risco assumido por Bruna. “Penso que existem pequenos protestos cotidianos que plantam sementes quase imperceptíveis, mas que para mim só tem sido possível lutar assim. Não acho que o que está acontecendo no Brasil é um ‘problema do outro’, é um problema nosso. É um reflexo de todas as pequenas coisas que acontecem entre nós”, dispara a atriz.

Bruna Trindade propõe uma reflexão sobre a vida na peça ‘A Mulher que virou planta’ (Foto: Vitor Medeiro)

No fim do nosso papo, o encenador rende muitos elogios à atriz: “A Bruna entra num estado de percepção e sensibilidade muito específico e a gente quer propor ao público tentar acessar um pouco esse estado, que o público viva uma experiência ali dentro da sala e saia com perguntas, reflexões”. Como na vida, cada sopro, cada respiração pode afetar os acontecimentos. “Queremos convidar o espectador para uma autopercepção, a aguçar um pouco a sensibilidade dessa pele que está em carne viva, que parece não sentir mais nada. Porque nós estamos cansados de reafirmar modos de viver e operar que são brutos, que são injustos… no sentido de justeza, não de justiça. De justiça também… Enfim. E a realidade é que a gente nem tem muitas ferramentas para sair dessa lógica mecânica, não é algo que se possa identificar, tudo está contaminado por isso. Então, o que fazer? Não sei, mas parar talvez possa ser um início”, finaliza Bruna.

SERVIÇO:

A mulher que virou planta

Com Bruna Trindade

Temporada: todos os domingos, às 20h, até 22/09

Classificação: 16 anos

Ingressos: A partir de 25 reais (colaboração consciente)

Local: Rampa – Lugar de Criação

Endereço: Rua Sá Ferreira, 202 – Copacabana (ao lado da saída do metrô)

*o espaço é acessado por meio de uma rampa íngreme, sem elevador. pessoas com mobilidade reduzida podem ter dificuldade.

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