Crítica Teatral: Rodrigo Monteiro analisa “Depois do Amor”. “Um espetáculo surpreendente”


É possível que o título “Depois do amor” faça alguma relação com “Depois da queda”, peça escrita pelo famoso dramaturgo Arthur Miller (1915-2015), terceiro marido de Marilyn Monroe, dois anos depois da morte da estrela. Lá como cá, as crises dão lugar a uma relação mais sólida, a uma reflexão mais duradoura. Eis aqui um espetáculo surpreendente!

* Por Rodrigo Monteiro

Danielle Winits surpreende em sua interpretação de Marilyn Monroe na peça “Depois do amor”. O espetáculo escrito por Fernando Duarte foi a última produção dirigida por Marília Pêra (1943-2015), que faleceu no mesmo dia em que a peça estreou no Teatro Amazonas, em Manaus. Além de Winits, Maria Eduarda De Carvalho está no elenco nessa temporada do Teatro Vanucci, no Shopping da Gávea, na zona sul do Rio de Janeiro. Na história, a personagem fictícia Margot Taylor é uma assistente de figurino do filme “Something’s got to give” que vem para tirar as novas medidas da diva do cinema americano. Dez anos antes, Marilyn havia roubado o namorado de Margot, Joe DiMaggio, casando-se com ele. E agora as duas precisam resolver essa questão. A peça fica em cartaz até 6 de março e vale a pena ser vista.

Maria Eduarda Carvalho e Danielle Winits (Foto: Guga Melgar/Divulgação)

Maria Eduarda Carvalho e Danielle Winits (Foto: Guga Melgar/Divulgação)

Os melhores momentos de “Depois do amor” são aqueles em que a peça se afasta da aparência do documental. É quando as duas personagens em cena – Marilyn e Margot – estão equânimes, prontas para um combate de igual para igual. São nas cenas finais em que mais vezes isso acontece.

O texto parte de um contexto nebuloso, dividido entre fatos reais e outros ficcionais ou conspiratórios. No início de 1962, Marilyn Monroe (1926-1962) encabeçava a produção de “Something’s got to give”, filme que salvaria a Fox das dívidas que “Cleópatra” cada vez mais terrivelmente aumentava. Nos primeiros dezessete dias de filmagem, porém, ela apareceu apenas uma vez no estúdio, alegando sempre problemas de saúde. Quando isso aconteceu, ela estava dez quilos mais magra, o que exigiu a remodelagem de todos os seus figurinos.

Maria Eduarda Carvalho e Danielle Winits (Foto: AgNews)

Maria Eduarda Carvalho e Danielle Winits (Foto: AgNews)

Também é real que, dez anos antes, em 1952, através de um amigo, o jogador de baseball Joe DiMaggio (1914-1999) conseguiu um encontro com Marilyn. Ambos, mundialmente famosos por suas carreiras no esporte e no cinema, haviam se divorciado e estavam oficialmente solteiros. O casamento entre eles aconteceu em janeiro de 1954 e terminou em outubro. Católico conservador, DiMaggio queria de sua segunda esposa o mesmo que almejava da primeira, a atriz Dorothy Arnald (1917-1984): que ela abandonasse a carreira e se tornasse apenas uma dona de casa. Marilyn não topou.

No início dos anos 60, Monroe e DiMaggio voltaram a se encontrar. Sabe-se que, nesse período, ela estava apaixonada pelo então presidente John F. Kennedy (1917-1963), em cujo aniversário ela sensualmente cantou “Happy Birthday”. Os direitos autorais da canção pertenceram até fevereiro de 2016 à Warner, concorrente da Fox, onde Marilyn deveria estar filmando “Something’s got to give” naquele maio de 1962. O filme permaneceu inacabado. Marilyn Monroe foi encontrada morta em sua casa em 5 de agosto de 1962 e, apesar de diversas teorias conspiratórias, a informação oficial ainda é a de que ela cometera suicídio a partir da ingestão de barbitúricos.

De modo prejudicial, o espetáculo “Depois do amor” faz força em se apresentar como um documentário, talvez confiando pouco em sua capacidade de ser uma boa ficção. Na gravação final, a dramaturgia afirma que a estrela foi assassinada, mas essa é apenas uma hipótese defendida pelo livro “O assassinado de Marilyn Monroe: caso concluído”, dos jornalistas Jay Margolis e Richard Buskin. Não há também relatos da existência real de Margot Taylor. Esses desvios, no entanto, não tiram o mérito do todo. O aspecto humano por trás das duas mulheres cuja amizade se rompeu por causa de um homem é o que prende a atenção na história mesmo daqueles que só vieram assisti-la por conta do ícone cinematográfico.

Em outras palavras, quanto mais nítido fica o duelo entre as duas mulheres, melhor para as personagens (que ficam mais fortes), para a narrativa (que fica mais interessante) e para o público (que se desprende da tarefa de checar fatos e se solta na fruição de uma boa história). Nesse sentido, enquanto sobram diálogos informativos, valorizam-se os criativos. E é por eles que a dramaturgia de Fernando Duarte merece aqui parabéns.

Maria Eduarda Carvalho e Danielle Winits (Foto: Guga Melgar/Divulgação)

Maria Eduarda Carvalho e Danielle Winits (Foto: Guga Melgar/Divulgação)

Danielle Winits (Marilyn Monroe) e Maria Eduarda De Carvalho (Margot Taylor) têm um começo difícil, mas conseguem sair dele bem. De um lado, Winits têm a árdua tarefa de interpretar uma das maiores estrelas do cinema internacional em um dos seus momentos mais complexos, mais explorados, mais revisitados. Nossa intérprete assim, em evidente coragem, lida inicialmente com altas cobranças que dizem respeito à sua aparência, à relação entre realidade e ficção e à situação que a narrativa de “Depois do amor” lhe impõe. É bonito ver como Winits, pouco a pouco, desliza pelas barreiras e, talvez tocada, também toca o público com sua versão original, humana e elogiosa.

De outro, Maria Eduarda De Carvalho precisa, no início da peça, apresentar sua personagem e defendê-la no âmbito de seu contexto e de seu conflito para, em seguida, disputar lugar com a de Winits. Consciente de que só uma luta de igual para igual poderá dar à narrativa algum valor, Carvalho tem interpretação meritosa sobretudo quando sua personagem “amolece”. É aí que se veem as nuances alternadas em exploração potente. Por ter desenhado, essa dança entre Winits e Carvalho, a direção de Marília Pêra, assistida por Fernando Philbert, teve aqui ótimo resultado.

São elogiáveis as colaborações do cenário de Natália Lana, aqui em seu melhor trabalho, e dos figurinos de Sônia Soares. Mais discretas, com menos requisições do texto, a trilha sonora de Paula Leal e a iluminação de Vilmar Olos também cumprem bem seu papel.

É possível que o título “Depois do amor” faça alguma relação com “Depois da queda”, peça escrita pelo famoso dramaturgo Arthur Miller (1915-2015), terceiro marido de Marilyn Monroe, dois anos depois da morte da estrela. Lá como cá, as crises dão lugar a uma relação mais sólida, a uma reflexão mais duradoura. Eis aqui um espetáculo surpreendente!

Ficha Técnica:
Autor: Fernando Duarte
Direção: Marília Pêra
Atores: Danielle Winits e Maria Eduarda De Carvalho
Trilha Sonora: Paula Leal
Cenário: Natália Lana
Figurinos: Sônia Soares
Iluminação: Vilmar Olos
Design: Ronaldo Alves
Fotógrafa: Lúcio Luna
Visagista: Max Weber
Ass. Figurinos: Juliana Barja
Confecção e cenotecnia cenário: André Salles e Equipe
Assessoria de Imprensa: Rafael Barcellos / Stratosfera
Operador de Luz: Walace Furtado
Operador de Som: Thiago Pinto
Contrarregra: Ricardo da Silva
Dir. de Produção: Cássia Vilasbôas e Fernando Duarte
Assistente Produção: Mayara Maia
Adm. Financeira: Karime Kawaja
Assessoria Jurídica: Jonas Vilasbôas
Produção: NOVE Produções
Produtora Associada: Winits Produções
Realização: NOVE Produções

Serviço:

Onde: Teatro Vanucci- Shopping da Gávea
Quando: Quinta a sábado 21h30, Domingo 20h. Até 6 de março.
Quanto: R$80

* Rodrigo Monteiro é dono do blog “Crítica Teatral” (clique aqui pra ler) , licenciado em Letras – Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, bacharel em Comunicação Social – Habilitação Realização Audiovisual, com Especialização em Roteiro e em Direção de Arte pela mesma universidade, e Mestre em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor no Curso de Bacharelado em Design da Faculdade SENAI/Cetiqt. Jurado do Prêmio de Teatro da APTR (Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro) desde 2012.