Moda & Beleza

SPFW N41 #Day4: enquanto a Água de Coco busca os tesouros da Amazônia, Helo Rocha baixa a Maria Bonita e encarna a cangaceira romântica

Ainda teve João Pimenta pedido uma moda com ordem, disciplina e infração; Murilo Lomas entregando looks ideais para dias e noites em balneários hypes na Ásia e Europa e Amir Slama colocando fogo na Babilônia com seu desfile de moda praia masculina

Publicado em 29/04/2016 | Por Lucas Rezende

*com a colaboração de Marcos Eduardo Altoé

Patrícia Vieira
A rainha do couro abriu as portas da casa de Maria Solimene, na Vila Nova Conceição, em meio à árvores, plantas naturais, objetos vintage e muitas flores em tons de amarelo, vermelho e branco – bem ao estilo cubano, que, aliás, é a grande inspiração de sua coleção. Mas não a única: Patrícia também bebeu da fonte russa e incluiu elementos como rendas, pinturas, ladrilhos, mosaicos, transparências e muitas flores. Sua mulher é sensual, com decotes profundos, silhuetas ajustadas ao corpo e tecidos sensuais, como o tule com linha de seda. Em sua primeira coleção mais voltada para o comercial, as carioca buscou referências do seu próprio trabalho: “É legal descobrir, dentro das minhas limitações, as ilimitações. Descobri um mundo incrível e isso combinou muito com Cuba, de estar aberta (referindo-se ao fim do embargo econômico), mas fechada”, explicou. E de fato isso transparece nas peças, que começam rígidas e tem acabamentos mais fluidos e leves. As flores – representação da liberdade, como já cantou Geraldo Vandré, apareceram ora pintadas no couro, ora recortadas no tecido. “Pensei no comercial, fiz um trabalho embasado por preço, nunca tinha trabalhado assim antes. Eu estava mais perto de uma realidade antes da criatividade, olhando para o que a indústria precisava. A minha cliente não é boba, cada pesponto está no custo e tem que vender”, explicou ela, que encarou a crise de frente, mas com glamour, claro. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

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Glória Coelho
A estilista levou os fashionistas para a faculdade, mais precisamente para Belas Artes, onde apresentou sua coleção que trouxe como tema “o jardim no mar assimétrico”. Nesse caso, o tema é o que menos importa – e isso não é ruim. Os cortes, cores e tecidos suprimiram qualquer justificativa. Focando na assimetria, desproporção, desconformidade, irregularidades e ilusão de ótica, Glória reafirmou, mais uma vez, seu flerte com o estilo rebelde. Apesar disso, sua mulher sabe combinar a moda, entende a importância da silhueta e, acima de tudo, gosta de arte e design. “Ela pensa nos prazeres da vida. É a menina que está no barco, desce em Saint Tropez ou qualquer ilha do mediterrâneo e se veste daquele jeito, de maiô com uma roupa em cima. Como Europa é fresquinho, podemos incluir peso em certas peças, então usamos calças de tecido tecnológico – antibacteriano, que tira 3% da celulite, seca rápido e respira – fizemos um maiô escandinavo desse tecido. O biquíni é bem brasileiro”, explicou. Alfaiataria desproporcional, malha prene, náilons e conjuntos monocromáticos – DNA da marca – foram combinados com crepe acetato, couro e organza de seda. Já na questão cores, Gloria Coelho transitou entre verde, marinho, nude, off-white, vermelho e marrom. Os tricôs chamaram atenção pela representação de uma explosão de estrelas no céu e os sapatos são baixos – exceto, claro, nos nove looks de festa -. Falando em glamour, a estilista apostou na alta joalheria e as peças Fiszman brilharam na catwalk. “São diamantes grandes que vamos começar a vender nas lojas”, adiantou. Precisa mais?

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Água de Coco por Liana Thomaz

Foi viajando pela trinca Brasil, Peru e Colômbia – países com fartas porções da Amazônia -, que a Água de Coco, sob o olhar de Liana Thomaz, entregou um beachwear deluxe, que serve para ser usado a qualquer posição do ponteiro do relógio. Ao mesmo tempo em que a inspiração vem dos rincões do continente, em ambientes onde o naturale predomina, os looks resultantes têm tons dourados, bordados de vidrilho e são arrematados com metais banhados em ouro. É aí que a grife acerta: o que, na teoria, seria oposto, se complementa perfeitamente. Até no cenário, por exemplo, onde uma reprodução de oca ocupa o portal do início do desfile, e a passarela, por sua vez, é laqueada. O luxo e o natural deram as mãos. O resultado? Um handmade precioso – como o bordados de canutilhos -, mix de franjas de seda, e texturas mil – a tapeçaria em shapes volumos funcionou muito bem em alguns looks – em maiôs  e biquínis supertrabalhados. Os tops e bodies que surgiram vez ou outra na passarela eram de de tamanha riqueza de detalhes – com mix de materiais, shapes mais retos e estruturados e babados de seda pura, por exemplo -, que facilmente podem assumir as vezes de look cotidiano, não necessariamente embarcando apenas na onda praiana da moda da grife. Isso sem contar com a cereja do bolo: para arrematar tudo, longos de seda, fluidos até dizer chega, ajudam a conferir essa dualidade entre o sofisticado com a inspiração amazônica, porque recebem – assim como grande parte da coleção – aplicações de brilho. Não à toa, Liana Thomaz havia nos dito, antes de começar o desfile, que iria mostrar, em forma de beachwear, “um dos grandes tesouros naturais da América do Sul”. E mais: “Estou satisfeitíssima”. Também pudera.

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João Pimenta

Ordem, disciplina e infração. Foram essas as três palavras que serviram de ponto de partida para a coleção desenvolvida por João Pimenta para a próxima estação. A estética militar foi a bola da vez, presente em peças com clara inspiração nos uniformes, vestimenta universal símbolo da ordem. Paletós e jaquetas foram apresentados em conjunto com saias, em um mix masculino-feminino, ou como o estilista prefere chamar, agender (sem gênero, em tradução literal). Modelos que emulavam uma atitude neo-punk pisavam firme em seus coturnos da West Coast, marca de calçados masculinos cuja direção criativa é também assinada pelo estilista. Nas cabeças, uma sucessão de cortes marcava a evolução da temática na passarela, com cortes definidos como orgânicos – uma referência ao algodão utilizado para confecção da coleção -, e desconstruídos de forma agressiva, mas sem serem feios de se admirar. As listras ocuparam lugar cativo em peças selecionadas, imprimindo novo fôlego à estampa. Aplicações e bordados complementaram a verve apresentada por Pimenta, mantendo a tradição firme do estilista de encantar com sua moda bem-feita.

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Salinas

Em uma parceria inédita com a agência Visit Florida, a Salinas foi até a Flórida buscar sua inspiração. Nova Meca do “cool”, a cidade norte-americana reúne o melhor de dois mundos, o vintage, com sua arquitetura decorativa, e o artsy, com o Miami Art Basel e o street art do distrito de Winwood. Foi justamente este caldeirão de referências que delineou o verão da marca, traduzido em estampas únicas para cada peça apresentada para deixá-las singulares, justamente como um trabalho artístico. “A Salinas é uma marca que traz as estampas como essência”, confessa Jacqueline de Biase, diretora criativa da marca. “Pegamos os momentos de Miami para criar algo novo, exclusivo”. E não parou por aí. A cartela de cores privilegiou um mix vibrante de tons pastel e cores fluo muito bem feito. E ainda, os tecidos, esses tradicionalmente usados no esporte e que foram escolhidos para dar um novo fôlego ao querido beach-chic assinado pela marca carioca.

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Murilo Lomas

Confortável, mas sem perder a elegância. Assim são as roupas da coleção Verão 2017 de Murilo Lomas em sua (aguardada e incensada) estreia em solo, na São Paulo Fashion Week. O furor que se formou nos minutos pré-desfile na sala fez jus ao encontrado minutos depois: looks ideais para dias e noites em balneários hypes na Ásia e Europa, destino ideal daquela turma super cool e descolada, que segura qualquer peça. E assim foi. Murilo revisitou suas memórias de viagem exatamente por esses destinos e conseguiu imprimir um tropicalismo chic (com estampas étnicas, shorts de alfaitaria curtíssimos e alpargatas nos pés) em determinado bloco, e ainda entregar um ar soturno – e ótimo caimento – em tricô, linho, lã, seda viscose e por aí foi. Destaque para calça jogging e a as calças de alfaitaria. O desfile foi assim: perfeito para sair à noite, ideal para o pós-praia e, ah, antes que a gente esqueça: com sugestões para seu mergulho, já que Murilo – que teve um casting formado por Marlon Teixeira, Pablo Morais, Miro Moreira e Mateus Verdelho – entrega uma sunga off-white…de couro. É interessante a mala de viagem de Lomas – desde que com  shape em dia para determinadas peças.

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Amir Slama

Duas coleções foram apresentadas neste desfile que marca o retorno de Amir Slama às passarelas. A primeira, feminina, buscou na mulher francesa sua inspiração. “Misturei uma Brigite Bardot carioca, o carnaval de rua dos anos 30 e 40, o espírito do teatro de revista e uma dose de anos 70 para a coleção”, contou o estilista. O que se viu como resultado foram peças com perfume “dolce far niente”, no qual a preocupação com corpo feminino se traduziu em uma profusão de recortes. O xadrez vichy marcou presença, um ícone da moda que ensaia retorno. A modelagem primorosa, assinatura de Amir desde os tempos de Rosa Chá, foi muito bem recebida pelo público presente. A coleção masculina, por sua vez, trouxe um time afiado de adeptos do Mahamudra para desfilar as peças inspiradas no personal trainer Rodrigo Sangion. Sungas, bermudas e calças, com recortes, provocaram furor. Em um jogo de transparências, peças apresentavam recortes em tecido que mostrava a pele, algo incomum para os homens, mas com grandes chances de vingar. Tudo pensado para promover a valorização do corpo masculino. A estamparia trouxe motivos gráficos e geométricos que lembram as do universo fitness, algo muito bem sacado pelo designer para aproximar a praia das esteiras.

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Helo Rocha

A crítica é suspeita para falar de Helo Rocha – vide seus últimos trabalhos. Mas chegamos ao desfile – como manda o bom jornalismo – despidos de qualquer pré-avaliação. E, logo de cara…”Under Pressure”, clássica de David Bowie, estava tocando em uma sanfona. E daí foi ladeira acima: Helo baixou a Maria Bonita que tem dentro dela e entregou um cangaço contemporâneo. “É uma busca espiritual e é uma busca das minhas raízes”, nos explicou a nordestina antes do desfile. Helo – e sua expertise em moda festa – continua vestindo uma mulher sexy, desta vez com vestidos baby-doll de organza, muitos babados e couro – porque aí não seria Helo Rocha – muito fino e bem recortado, formando muito mais que um patchowrk e imprimindo, bom citar, um ar romântico. Os vestidos lânguidos – de ótima fluidez – receberam novos recortes e comprimento mais curto. O cangaço esteve bem presente nas tachas metalizadas de estrelas, meia-luas e com uma pegada à la os looks exuberantes dos cangaçeiros. Nem dá para lembrar da morte e vida severina daquela terra. E ainda há quem diga que só há lugar inigualável no sertão. Só a gente viu estrelas na SPFW?

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