Moda & Beleza

SPFW #4: com coleção incrível, Patrícia Viera tira o couro da equipe, GIG faz boa estreia, Juliana Jabour retorna e Lino se manifesta

O dia de moda diversificada e em época de corte de excessos, estilistas mantém a primazia do requinte em mix de texturas e aplicações, com a Osklen indo na contramão, mais minimal do que nunca

Publicado em 07/11/2014 | Por Alexandre Schnabl

O  quarto dia da 38ª edição da São Paulo Fashion Week apresentou boa diversidade daquilo que a moda brasileira é capaz fazer. O público pode conferir desde o estilo futurista de Gloria Coelho aos devaneios criativos de Lino Villaventura, passando por uma viagem de um casal globetrotter na Osklen e a feminilidade da Têca. Teve a ótima estreia da mineira GIG Couture – que desfilou no mesmo dia que a carioca Patrícia Viera, master designer do couro –, o amadurecimento de Fernanda Yamamoto e o retorno de Juliana Jabour, comemorando 10 anos de grife. Mas o que chamou mais atenção foi o burburinho em volta de uma loja de departamentos, com o desfile da linha que a Versace criou especialmente para a fast fashion Riachuelo, com direito à presença de Donatella Versace.

Logo cedo, Patrícia Viera apresentou coleção inspirada pela criatividade arquitetônica de Frank Lloyd Wright, apresentada de forma intimista, quase tipo palestra, na Faculdade de Belas Artes. Tudo a ver, quando se constata que sua moda em couro é minuciosamente elaborada na forma, materiais e cores e, assim como um projeto de arquitetura, o resultado merece ser investigado bem de pertinho. Apaixonada pelos processos industriais, ela pinta e borda, alucina e enlouquece seu pessoal de produção, transformando a paixão por sua matéria-prima favorita em algo que transcende o mero uso fetichista ou tribal, mas impregnado de experimentalismo digno de um cientista louco de filme expressionista alemão. A designer amacia, pigmenta, texturiza, subverte, decodifica, reinventa e atribui novos significados à arte de confeccionar em couro, sempre causando espanto na hora em que mostra suas criações. Quase um Dr. Victor Frankenstein que corta a laser, costura pedacinhos, emenda, cobre com filme vinílico, mistura materiais, coisa de doido mesmo.

Dessa vez, a coisa não foi diferente, ao invocar como metáfora a imagem de uma casinha de linhas funcionais perdida em meio a um campo, numa paisagem nórdica. Está tudo aí. A simplicidade da obra, altamente elaborada no processo, mas que, pensada arquitetonicamente, flui que é uma beleza, levando o produto final a uma aparência orgânica simplificada, mas extremamente sofisticada. Chega a dar pena pensar em Rachel Welch embalada em modelitos sumários em couro, tipo Pedrita, em “Mil séculos antes de Cristo” (One Million Years B.C. de Don Chaffey, Hammer Film Productions, 1966), sem poder desfrutar das benesses do material processadas por Patrícia. Bom, tudo que se fazia no material antes da estilista se tornou mesmo pré-histórico.

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Fotos: Agência Fotosite | Divulgação

No outro extremo de Patrícia, já na tenda armada no Parque Cândido Portinari, Gloria Coelho abusa assumidamente de materiais tecnológicos, misturados ao couro – que ela também sabe usar muito bem – em mais um exercício estilístico digno de “Blade Runner” ou “Matrix”. Não é surpresa nenhuma o fascínio que a designer tem pelo universo contemporâneo pop, dentro de linhas limpas, assépticas e urbanas. Agora, ela propõe metamorfosear estruturas, misturando o corolário das décadas de 1960, 1970 e 1980, inserindo no seu tubo de teletransporte rumo ao futuro o movimento hippie, patchworks, geometria e esporte. Como assim? Bem, não é de hoje que a imaginação da estilista é pródiga, lhe permitindo enxergar, a nível subatômico, coisas que passariam despercebidas aos olhos de mortais menos privilegiados. A moça consegue ver graça em Pokémons, Picachus e Speed Racers, transformando parafernálias da cultura popular em mote para interessantíssimas intervenções fashion. Agora, formas reestruturadas por tiras horizontais e presas entre si por artifícios variados são a base da proposta para este futuro próximo, quando o mundo, se depender de Gloria, vai ficar muito mais bonito. Assim, ela se diverte com as texturas do preto, entre o fosco do couro e o brilho do vinil, às vezes inserindo um off white, marrom ou bordô aqui e acolá. E ainda adiciona em alguns looks um pouco de tule bordado e guipure, acrescentando um toque romântico a essa epifania espaço-sideral. Lindo.

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Fotos: Agência Fotosite (Divulgação)

Desde quando saiu do Rio Moda Hype para desfilar na SPFW, Fernanda Yamamoto vem apresentando trabalho irregular, sempre conceitual, mas nem sempre plasticamente bem resolvido. De uns tempos para cá, amadureceu e vem se mantendo linear em seu olhar nipônico-cool, mas abrindo espaço para novas experimentações que resultam em bom desempenho estético. Houve época em que muito do seu talento se resumia ao bom gosto na estamparia e na arte de fazer origamis. Agora, ela dá mais um passo adiante e, mesmo parecendo lacônica, oferece um bom amuse bouche na passarela. Dá até vontade de ver como será a coleção comercial, se houver. Sua renovação se dá “de fora para dentro”, como ela mesmo afirma, e, por isso, as roupas apresentam costuras desfiadas para fora, com jeito de inacabadas, ao avesso e com rasgos. Boa justificativa, claro, para inserir seu estilo dentro da releitura dos estilistas belgas noventistas que a moda atual faz. Algo como se Anne Demeulemeester houvesse pego o trem-bala para Tóquio. Mas permanecem os volumes e os relevos que tanto marcam a moda de Fernanda. A parte dos looks que misturam texturas e prints em tons de cinza e preto é disparada a melhor.

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Fotos: Agência Fotosite (Divulgação)

Com de anos de estrada e estreando no line up da SPFW, a GIG Couture é mais uma representante da boa moda mineira em tricô, como Coven e Faven. Gina Guerra e Patricia Schettino, a dupla à frente da brand, viaja no estilo mochilando em lugares exóticos como o Uzbequistão, uma daquelas repúblicas asiáticas remotas que se desprenderam da antiga União Soviética e que tudo que a gente sabe é que são povoadas por pastores nômades que amam dança folclórica, ficam perto do Mar de Aral e seus habitantes têm cara de mongol. Bom, não é só isso e as meninas puderam constatar tudo in loco, se deparando em um tête-à-tête esperto com os locais em acampamentos pelo interior, onde puderam conferir na palma da mão a riqueza do artesanato, tapeçaria e cerâmica. O capítulo final está aí, no desfile: belos vestidos – maioria midi, mas temos alguns longos e curtos – e alguns separates em padronagens étnicas e formas que ficam entre o seco e o amplo. Mas, apesar da exuberância dos desenhos, várias vezes o resultado fica um pouco sério demais. A solução é exagerar um pouco nos decotes em V pronunciados que ajudam a quebrar a sisudez, coisa que a marca fez em uma ou outra peça e poderia ter investido mais.

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Fotos: Agência Fotosite (Divulgação)

Se a GiG foi para a Ásia, Helô Rocha volta no tempo e aterrissa em uma floresta medieval que é a cara da riqueza. No final, essa ida para trás foi benéfica para a estilista, que oferece fino cardápio ao público fashionista, ainda que, no fundo, ela tenha se utilizados do brilho e suntuosidade da nobreza medieval para apresentar coleção que tem aroma 1960/1970, sua zona de conforto ultimamente. O excesso de prints e ouro não prejudica as montagens e até ajuda a valorizar os jacquards e os devorês de seda ou veludo, com vários looks arrematados por jaquetas esportivas com ricos acabamentos, como paetês. No mais, permanece a colaboração de designers que lhe são fieis escudeiros – Caio Vinicius nas clutches e Eleonora Hsiung nas joais e fivelas –, o que deixa mais amarradinho ainda o conjunto.

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Fotos: Agência Fotosite (Divulgação)

Depois de pular uma temporada, Juliana Jabour volta ao calendário de lançamentos comemorando 10 anos de marca. É o que ela conta para HT, logo após o desfile, no camarim: “Defino esta coleção como uma celebração de aniversário em que a tônica é o esporte chique, com pegada anos setenta e o meu olhar. São dez anos e o momento é especial”. De qualquer forma, os tempos eram outros e, agora, quando o minimalismo noventista impera, é preciso patinar de roller blade para se manter fiel ao seu espírito, sem ficar para trás. Esse desejo fica claro no desfile, no qual a estilista procura rever sua trajetória, desde quando conquistou o público com a pegada descolada do esporte de luxo, mas tentando se inserir nos novos tempos. Ela mantém o pique do esporte e do uso do moletom e neoprene, mas valoriza as formas pelo uso de técnicas de bordado e corte a laser, fios condutores. Com cartela enxuta de preto, branco, cinza e vermelho, a marca destaca estampas e efeitos como o bordados vazados em forma de ilhós. E, mesmo com a maioria dos desfiles versando pelos shapes mais secos e vestidos coluna, ela não abre mão do seu DNA e aposta no oversized.

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Fotos: Agência Fotosite (Divulgação)

Nesta temporada, Lino Villaventura aproxima sua couture de uma proposta mais comercial, abrindo mão do show na passarela, sem abdicar do espetáculo na roupa. De início, com os looks mais secos, até se tem a falsa impressão de que ele se rendeu às necessidades impostas pela aridez econômica que o Brasil passa, que traz como um dos sintomas o mau desempenho do varejo e a submissão de nomes consagrados do estilo às coleções-cápsula criadas para lojas de departamento populares. Mas, nada disso. É pura impressão, e à medida que o desfile se desenrola na passarela, as peças vão se sofisticando mais e mais, mantendo seu cerne intacto, como em épocas mais abonadas. Permanecem as nervuras, os volumes e os bordados estonteantes, que sobrevivem tanto em um show performático com modelos com lentes de contato brancas quanto em bate-voltas mais austeros, como manda o figurino atual. É, não está mesmo dando para fazer desfiles com roupas de papel e perucas de Playmobil, e Jum Nakao talvez seja um privilegiado de ter puxado o barco antes do período atual. Também não é hora de beijo lésbico no catwalk, tudo está mais enxuto. Mas Lino não larga o osso, e a verve da coleção pode ser resumida pelo manifesto que o designer fez questão de incluir no release, onde afirma que o que faz é pura coragem: “Coleção saiu do nada, tomou forma e se impôs cheia de personalidade. O momento não é para termos dúvidas do que ser, mas sim, para pensar que a aparência é um estímulo de coragem para se enfrentar o que vier!” Sim, é importante não titubear em relação à própria identidade, mesmo com o contexto atual puxando o tapete.

Se Ronaldo Fraga faz política conceituando seus desfiles ao extremo da teatralidade, Lino é pura política na indumentária, sem uso de recursos externos. Incertezas são muitas e, se são realidade nua e crua para marcas comerciais, o que seriam para um designer autoral quanto ele, que depende tanto quanto as primeiras de uma conjuntura favorável no Brasil atual. A coisa fica mais clara ainda quando se é amigo do estilista e acompanha seus posts nas mídias sociais, sobretudo quando o Governo Dilma foi reeleito.

Em tempo: delicioso ver Sheila Baum, hoje sumida das passarelas, em um dos looks finais, com aquela cara forte de fofa com jeito maldito.

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Fotos: Agência Fotosite (Divulgação)

Quase fechando a noite (já que a maratona ainda pela frente teria o desfile da Versace para Riachuelo no Pavilhão das Culturas Brasileiras, bem longe dali), a Osklen manteve o pique habitual com desfile cujo tema é um casal globetrotter que corre o mundo. Os destinos? Cidades, estradas, desertos, geleiras, florestas. A partir da suposta mala que eles teriam levada nessa jornada, Oskar Metsavaht e equipe desconstroem o guardarroupa de ambos, com peças com trench coats, itens militares, denim e até smokings (sim, são mochileiros chiques). Com isso, fecundam ideias de sobreposições de recortes a laser que fazem um estudo quase equivalente àqueles da teoria da comunicação, do tipo que fala de significante e significado. É que, ao desconstruir esses clássicos do vestuário, resguarda-se a essência daquilo que lhe permite sua identificação, algo como se fossem os radicais das palavras. Esta é a parte mais interessante da coleção. Por exemplo, a pala ou a parte superior de um trench coat permanece em uma peça que vira um casaco ou uma pelerine. Conceitual? Sem dúvida. Mas lindo de ver e usar! Somente um porém, ainda mais se levarmos em conta que o tema é essa tal viagem: cadê aquelas bolsas, mochilas e utilitários incríveis que a grife costuma oferecer ao público em cada coleção?

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Fotos: Agência Fotosite (Divulgação)

Nota do editor: confira tudo sobre o desfile da Versace para Riachuelo na seção Gente

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