A prática do upcycling se configura como um importante agente de transformação ao conectar criatividade, inovação e responsabilidade socioambiental. Como tenho frisado sempre nos meus textos sobre o tema, ele é reconhecido como um verdadeiro “(re)design inteligente”, que estabelece interrelações entre a liberdade da expressão criativa, a sustentabilidade, a autoralidade do designer e o compromisso socioambiental. Ao conferir novos significados ao reaproveitamento de peças têxteis descartadas, esta prática torna-se uma fonte contínua de propostas de intervenções manuais únicas e exclusivas, promovendo simultaneamente a valorização do handmade, a construção de narrativas e o estímulo a memórias afetivas.
A Faculdade SENAI CETIQT divulgou que “as ações de conscientização sobre o movimento Fashion Revolution 2025 continuam garantindo resultados concretos. A instituição foi reconhecida no relatório de resultados oficial do movimento como uma das 10 instituições de ensino superior do Brasil que implementaram alguma mudança curricular inspiradas na campanha”. Diante do compromisso de formar profissionais alinhados com as práticas sustentáveis dentro do universo da moda, o SENAI CETIQT realiza, desde 2020, as atividades em alusão ao movimento com a produção e a execução realizadas por alunas e alunos do curso de Design de Moda, que recebem a orientação de professores.
O evento global realizado anualmente em mais de 100 países, continua ecoando na Faculdade SENAI CETIQT, promovendo ações que destacam a importância do upcycling como prática de moda consciente e de impacto em prol do socioambiental. O tema “Pense Global, Aja Local: Quem é o Brasil na Revolução da Moda?” pautou rodas de conversa presenciais sobre clima, moda, carnaval, sustentabilidade e upcycling. Analiso aqui o que foi falado sobre “a representação cultural na moda por meio do upcycling”, alinhada ao propósito central da Semana deste ano, que se propõe a questionar práticas da indústria da moda e incentivar transformações rumo a um modelo mais justo, seguro e ambientalmente responsável.
A indústria da moda configura-se como a segunda maior geradora de impactos ambientais no cenário global, sendo superada apenas pela indústria petrolífera em termos de poluição. De acordo com levantamento divulgado pela Global Fashion Agenda, organização internacional sem fins lucrativos, estima-se que mais de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis tenham sido descartados em âmbito mundial nos últimos anos, evidenciando a urgência da adoção de práticas sustentáveis e de modelos produtivos alinhados à economia circula.
De acordo com um levantamento da consultoria internacional S2F Partners, cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartados por ano no Brasil. Ainda segundo o estudo, somente em 2023, cada domicílio brasileiro descartou aproximadamente 44 quilos de roupas e calçados. Já uma outra pesquisa, apresentada pela Fundação Ellen MacArthur, em 2024, evidenciou que 80% das peças descartadas no país são destinadas para queima, aterros sanitários ou são abandonadas no meio ambiente, sem uma possível reutilização desses itens.
O encontro na Faculdade SENAI CETIQT reuniu quatro criadores. Entre eles, o designer Ricardo Pinto, veterano com quase 30 anos de carreira. Formado pela Escola de Moda Candido Mendes, Ricardo passou por grifes cariocas e paulistas, mas foi com sua própria marca, inteiramente dedicada ao upcycling (que prefere chamar de desconstrutivismo), que encontrou uma forma autoral de criar. Quem também trouxe uma proposta inovadora foi a estilista franco-brasileira Luana Bouquerel. Em novembro de 2024, ela lançou a Luana B, em que trabalha exclusivamente com sobras de tecidos sustentáveis brasileiros em parceria com costureiras em situação de vulnerabilidade. Apesar de a grife ser franco-brasileira, a produção é 100% nacional. Outra profissional presente foi Andreza Ferreira, fundadora da Caiz Store. Criada em 2014, a marca aposta no slow fashion e na produção artesanal como caminhos para uma moda mais consciente. Andreza também fundou a escola Neit, voltada para a valorização da história negra e da moda afro-brasileira. Fechando o time, o designer Raphael Brunet apresentou sua visão mais voltada para o lado social do upcycling. Sob o pseudônimo Cansado da Internet, ele envolve sua comunidade no processo produtivo. E também está à frente da marca El Fuego Studio.
O desperdício é um tópico que incomoda muito Ricardo Pinto. O designer observa que há pouquíssima preocupação com as sobras da produção de roupas no Brasil: “Em todas as empresas nas quais trabalhei, eu achava muito louco ver os estoques de tecidos de coleções passadas. Numa dessas companhias havia um quarto secreto de tecidos guardados, o que me deixava muito incomodado, pois eram panos, não importava se tinham cinco, 10, 15 anos. Decidi fazer uma coleção com aqueles tecidos. Resolveu bem a questão da venda, pois as pessoas gostaram muito das estampas atemporais. Hoje, quando faço o meu upcycling, meu desconstrutivismo, a minha arte, procuro desenvolver uma peça que tenha o máximo de aproveitamento. Uma calça jeans, por exemplo, transformo em quimono, que é a minha peça carro-chefe”.

Ricardo Pinto criou o Jardim da Babilônia com um mix quimonos florais pintados à mão
Eu prefiro ir além do estilo, da moda em si. Gosto de brincar com arte, com a memória de uma peça, com todo tipo de proposta que faça mexer o meu imaginário e mexer o imaginário das pessoas, transformando isso de uma forma lúdica, porém com muita consciência de que a gente só tem um planeta – Ricardo Pinto
Ricardo Pinto acredita que o upcycling ainda enfrenta resistência no Brasil, especialmente quando se trata de ser reconhecido como um produto de alto valor. “Infelizmente, ainda não é muito respeitado como item de luxo, de marca, como algo realmente elaborado”, comenta. “As pessoas têm um olhar limitado sobre o reaproveitamento”. Apesar disso, ele mantém sua proposta e reforça a importância do trabalho manual na construção de suas peças: “Procuro me impor. Trabalho intensamente com processos manuais, e isso agrega valor aos produtos”. Dentro do universo criativo da sua marca, Ricardo revela que cerca de 95% das peças são feitas a partir de upcycling. Os 5% restantes são uma espécie de licença poética. “Sou estilista, isso está em mim. Às vezes, me permito comprar um tecido ou uma malha e transformar em T-shirt, calça ou vestido só para complementar um look. É uma brincadeira estética. Esses cinco por cento são um pequeno desvio, não passo disso”, diz, divertido, com a leveza de quem conhece bem o próprio caminho.

Kimono Artsy em jeans vintage com pintura à mão by Ricardo Pinto
Quando começamos a fazer um trabalho de tentativa de sustentabilidade, somos muito pequenininhos. Mas esse pequenininho vai juntando com o que você faz, com o que ela faz, com o que ela faz, com o que ele faz, com ela, com todo mundo. Isso gera uma energia muito grande. A energia é muito potente, a vontade de querer. As grandes marcas pouco se importam. Nós, pequenininhos, temos muito mais força e vontade e vamos à luta – Ricardo Pinto
Para Luana Bouquerel, a compra de tecidos novos está fora de cogitação. Seu trabalho é inteiramente baseado no upcycling: cem por cento das peças da Luana B são criadas a partir de sobras de tecidos sustentáveis brasileiros. A designer é firme ao defender essa escolha. “Tudo é pensado para evitar ao máximo qualquer desperdício. A sustentabilidade precisa ser constantemente aprimorada dentro da nossa marca. Tem que estar no DNA da grife”, afirma. “Hoje, não dá mais para lançar uma coleção sem considerar a sustentabilidade e o impacto social como pilares. Eles precisam ser a base de tudo”. No entanto, trabalhar apenas com excedentes de tecido traz desafios, especialmente quando se trata de paleta de cores e continuidade de produção. “Tem uma cor que eu amo, mas sei que não vou mais encontrar aquele tecido. Então, será uma cor limitada. Vou conseguir, no máximo, produzir dez peças com ela”, explica a empresária.

Luana Bouquerel: o terno Okê carrega no DNA a essência de Oxóssi
Ela conta que pretende vender suas peças sob encomenda, decisão alinhada ao propósito da marca, que é inclusiva e oferece tamanhos do 34 ao 58. E também busca otimizar suas criações, fazendo, por exemplo, um blazer com zíper que se transforma num cropped ou uma calça feminina com fenda frontal. A ideia é estimular o uso prolongado das roupas e reduzir o apelo por peças de fast fashion. “Minha marca nasceu sustentável”, garante. “Desde o início, tivemos muita dificuldade para encontrar os tecidos certos. Garimpar materiais foi um grande desafio. Eu só trabalharia com um fornecedor de resíduos sustentáveis — e que fosse nacional. Não abri mão disso. Eu me preocupo muito com o que vamos fazer com a roupa quando ela não prestar mais”. Essa busca demorou bastante, atrasando o lançamento da marca. Hoje Luana celebra a parceria com a G. Vallone, empresa que fornece resíduos têxteis sustentáveis.

Luana Bouquerel: vestido Odoyá celebra Yemanjá
O objetivo da minha marca também é levar a brasilidade para o exterior. O upcycling faz parte da brasilidade. Todo mundo tinha uma avó que fazia crochê e a gente fazia um upcycling adicionando um crochê num tecido. Eu acho que é uma coisa bem brasileira. Mesmo que a gente tenha outra realidade, podemos, justamente, usar essa memória afetiva para ir muito mais à frente com muito mais garra – Luana Bouquerel
“Durante a pandemia, eu me questionei, como você, sobre o descarte das roupas. Embora já trabalhasse com upcycling há anos, não podia comercializar por estar vinculado a empresas. Quando pude empreender, foquei em materiais sustentáveis, como algodão e fibras naturais. Mas havia um problema: o uso massivo do jeans com stretch, que contém fibras sintéticas e cuja decomposição é extremamente lenta. A maioria das peças de marcas como Zara, Riachuelo, Zadig & Voltaire e Diesel tem stretch. De 70 a 90 por cento das coleções usam esse tipo de tecido”, observa Ricardo Pinto. “A verdade é que o upcycling precisa considerar os têxteis em geral, não só os de algodão puro”.
O designer destaca experiências criativas e surpreendentes em torno do reaproveitamento: “Em São Paulo, tem uma galera que faz jaquetas com o tecido impermeável dos guarda-chuvas (Tama Afetiva). Também tem gente fazendo upcycling com tênis, material super difícil de se degradar. Em Amsterdã, há uma exposição de tênis Adidas com solas feitas de chicletes recolhidos das calçadas. Isso é um upcycling moderno, inovador. Precisamos abrir os horizontes e parar de pensar que só o cem por cento algodão serve para esse processo”.
Seja como for, o fato é que os brasileiros estão cada vez mais conscientes em relação ao consumo ambientalmente sustentável. Uma pesquisa divulgada no ano passado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou um avanço significativo no engajamento com práticas sustentáveis: o número de pessoas que afirmam adotar hábitos sustentáveis sempre ou na maior parte do tempo subiu de 74% para 81% de 2022 para 2023 no Brasil. Em uma entrevista para o site Heloisa Tolipan há pouco menos de dois anos, a diretora executiva do Instituto Fashion Revolution Brasil, Fernanda Simon, comentou essa mudança de mentalidade: “Durante a última década foram visíveis diversos avanços no setor, principalmente no caminho da sustentabilidade e da diversidade. A crise climática está impulsionando uma crescente conscientização ambiental, que consequentemente leva a um aumento na demanda por moda mais sustentável. As marcas brasileiras estão buscando práticas mais ecologicamente corretas, assim como impactar positivamente a sociedade”.
Certos hábitos ecologicamente responsáveis estão profundamente enraizados na sociedade brasileira, especialmente entre pessoas de baixa renda. Um exemplo dessas práticas, que são bastante antigas, é a troca de roupas entre mulheres que não têm condições financeiras para adquirir peças novas. Da mesma forma, é comum que crianças e adolescentes herdem roupas dos irmãos mais velhos. “Quando crescemos, desejamos comprar roupas novas em lojas. O dinheiro confere poder de consumo. Falta consciência social”, destaca Andreza Ferreira.

Caiz Store e a ênfase ao slow fashion em peças como blusa Wanja e calça Nala
Andreza compartilha uma história interessante de “sustentabilidade involuntária” dos períodos colonial e imperial do Brasil. Ela menciona especificamente mulheres escravizadas que conseguiram conquistar sua liberdade e prosperar. Para arrecadar o dinheiro necessário para sua alforria, essas mulheres africanas solicitavam permissão ao senhor para sair às ruas, onde vendiam pentes, peixes, alimentos e outros itens. “Eram chamadas por diversos nomes: quituteiras, ganhadeiras, vendedoras. Enriqueceram porque vendiam para homens que trabalhavam em minas e eram pagas, muitas vezes, em diamantes, ouro e pedras preciosas”, conta.

Caiz Store by Andreza Ferreira
Escravas que compraram a sua alforria, deixaram heranças que continham lençóis, fronhas, roupas. Essas mulheres tinham tino comercial, conheciam tecnologias ancestrais de costura, produziam suas próprias roupas, compravam os melhores tecidos. Quando falo sobre resgatar, é sobre o resgate do tino comercial, da negociação. Sustentabilidade é uma prática muito antiga. Nossos ancestrais sempre foram sustentáveis. E não estamos falando de reciclar lixo, mas de produzir para não acabar – Andreza Ferreira
Na entrevista para o nosso site, a diretora executiva do Instituto Fashion Revolution Brasil falou sobre esse resgate do passado pela moda: “A moda autoral está cada vez mais conectada com a História do Brasil, nossos povos originários e afrodescendentes, trazendo elementos que, de fato foram resgatados depois de tanto tempo de um processo de colonização tão difícil, com tantos apagamentos. A partir dessa identidade, também está considerando processos mais sustentáveis, olhando para um modelo produtivo mais slow. Há um caminho muito bonito sendo construído na moda autoral”.
Durante a roda de conversa, um aluno da Faculdade SENAI CETIQT pergunta aos participantes se eles acreditam que o upcycling vai seguir como tendência ou sumir. Ricardo Pinto responde: “Nada disso é novo. No Egito Antigo já se reciclavam joias, roupas. No início do século passado, quando alguém falecia, o que todo mundo queria eram roupas e joias. As famílias, mesmo da elite, não tinham como consumir roupas em quantidade. O upcycling veio para ficar, não tem volta. A Dolce&Gabbana banca alunos de universidades que trabalham com upcycling. Eles compram muita matéria-prima e precisam descartar as sobras de alguma forma”.
Está rolando um movimento na Europa. Agora, para participar da Fashion Week de Londres, as marcas têm que ser sustentáveis. Tínha que ser assim em todos os países para acabar com isso de fazer upcycling só para uma coleção ou apenas por marketing – Luana Bouquerel
Viralizar na internet pode ser negativo ou positivo. Pode ser um bom começo para se criar marketing de qualidade para uma marca. Para Raphael Brunet, o começo do hype de seu trabalho na internet veio junto com a decisão de se tornar sempre transparente. O consumidor quer saber de onde vem aquela peça, quem trabalhou naquela peça. “Já tentei moldar algumas coisas para poder alcançar público, mas me sinto muito fake, uma mentira. Não sei ser o que não sou. É um privilégio conseguir entrar em certas bolhas fazendo o que eu faço. Decidi sempre ser transparente sobre o que eu sou e o que faço, fincar a bandeira do social, da comunidade, da periferia, da Zona Norte. É isso, eu sou assim, batalho isso, luto pelos meus, estamos juntos”, desabafa Raphael, acrescentando que sente prazer em usar o “pouquinho de visibilidade” que tem para levantar e abrir portas para quem está com ele.

El Fuego Studio por Raphael Brunet

El Fuego Studio por Raphael Brunet
A gente está dando voz para quem precisa ter voz, estamos dando espaço para temas que precisam chamar atenção do sistema. Para mim, o upcycling tem muito a ver com a questão social. Trazemos quem é da comunidade em todas as oportunidades que temos – Raphael Brunet
Há um tempo, Andreza Ferreira fez um post dizendo que a marca Kenner, de sandálias, não era para os crias, mas para surfistas, embora quem comprasse fosse o pessoal das favelas. “Era uma sandália cara e durável. Meu texto viralizou porque falava que as pessoas estavam gastando uma boa grana”. comenta Andreza. “Hoje eles trazem a favela para dentro da marca. É importante ver o hype acontecendo de uma forma que não é mais só para consumo, mas para incluir pessoas”.
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