O carnaval se aproxima e, com ele, como se fosse parte do enredo, a descoberta, nesta semana, no Arquivo-Geral do Rio de Janeiro de um registro fotográfico raro: o da casa onde morou Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata (1854-1924) – na região conhecida como Pequena África, no Rio de Janeiro -, a mulher símbolo da resistência do povo preto e que abrigou o samba quando ele ainda era tratado como caso de polícia. A imagem, que agora circula como relíquia recém-desenterrada, funciona quase como metáfora. Tal como Ciata d’Oxum, matriarca e mãe de santo, a história negra brasileira permaneceu por anos à margem, soterrada e silenciada. A estética negra, também relegada a um plano secundário, foi aos poucos conquistando centralidade. Cores, grafismos geométricos, miçangas, rendas e brancos ritualísticos passaram a integrar uma diversidade cultural e visual. O Brasil, país ainda em constante processo de compreensão de sua própria identidade, vem mudando paradigmas e injustiças sociais olhando e dando protagonismo ad aeternum para suas raízes negras, o espaço que lhe pertenceu na formação do país, incluindo histórias que por tanto tempo foram silenciadas.

Foto na casa de Tia Ciata, na Rua Visconde de Itaúna, 117 (Foto: Arquivo Geral do Rio/Divulgação
Agora, para 2026, a novela “A Nobreza do Amor”, ainda por estrear, promete sublinhar essa ponte entre Brasil e África, revisitando heranças culturais que durante muito tempo não tiveram protagonismo. Diante desse contexto, me pareceu oportuno mergulhar em uma palestra realizada na Faculdade SENAI CETIQT, dentro do projeto Africanidades. No centro da roda? Cultura, diversidade, ancestralidade na moda e a importância do designer negro — temas que passaram a integrar discussões importantíssimas do setor moda. Participaram os designers Charllene Santos, consultora do SENAI CETIQT, pós-graduada em gestão e planejamento em modelagem e com inúmeros prêmios internacionais; Mônica Sampaio, criadora da marca Santa Resistência e integrante do line up da SPWF; e Ítalo William, da grife O Tal do Bonequinho; além da cientista social e mestranda em antropologia Lidyane Souza.
A moda afro é mais do que uma tendência: trata-se de um movimento global que valoriza raízes africanas e reafirma identidades históricas. Designers e empreendedores negros transformam tecidos, estampas e símbolos em instrumentos de representatividade e geração de renda. No Pelourinho, em Salvador (BA), é realizado o Afro Fashion Day, maior evento de moda negra do país, que celebra a estética e a criatividade afro-brasileira com desfiles, música e oficinas. A Africa Fashion Week, é realizada em Joanesburgo, na África do Sul; no Reino Unido e no Brasil, além de outros países; e a Lagos Fashion Week, na Nigéria.

Mônica Sampaio, criadora da Santa Resistência e integrante do line up da SPFW, destaca que “quando os designers negros começaram a surgir, trouxeram consigo essa africanidade que é parte da nossa ancestralidade. Antes, não tínhamos referências, não falávamos sobre o tema, não havia disciplinas nas faculdades nem eventos como o Africanidades. Essa possibilidade simplesmente não existia. Quando esses profissionais apareceram, as pessoas puderam olhar e dizer: ‘Eu posso fazer isso. Eu pertenço. Eu me reconheço.’ O brasileiro é miscigenado e, na moda, herdou o legado africano. A moda é política, é pertencimento; é a primeira forma de projeção pessoal. É a maneira como nos colocamos, como somos vistos e como queremos ser reconhecidos no mundo. A importância do designer negro está justamente nisso: em estarmos aqui, cada um com sua vivência e sua história, afirmando ao mundo que sim, é possível”, destacou. Sua fala explicita o que por muito tempo foi intuído: vestir-se é também reivindicar território simbólico.

Santa Resistência (Foto: Instagram)

Santa Resistência (Foto: Instagram)
Mencionou ainda o branco ritualístico — e, de fato, não se pode falar africanidade sem abordar a religiosidade. Nas tradições afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda, o branco simboliza pureza espiritual, equilíbrio, paz e ligação com o sagrado. Na moda afro, a cor foi ressignificada por estilistas como expressão de identidade, resistência e pertencimento. No Brasil, é comum ver pessoas vestidas de branco às sextas-feiras, dia dedicado a Oxalá, orixá da criação e da paz.
Cabe a esses artistas crescer na moda atravessando todas as etapas da criação — da concepção à modelagem, da costura à gestão — e, sobretudo, exercitando a persistência. É o que diz Charllene Santos: “Eu venho do chão de fábrica. Venho da costura, da modelagem. A minha trajetória é atravessada por momentos de altos e baixos. Minha história como designer pernambucana morando no Rio não foi linear, foi feita de altos e baixos. Eu ouvi uma vez alguém dizendo que eu era muito mala, no sentido de que eu encho muito o saco quando quero alguma coisa. Sempre gosto de contar isso. Eu sou muito insistente. E agradeço a mim mesma porque vou atrás, corro atrás”.

Em Singapura, Charllene Santos (Foto: Reprodução/Instagram)
Hoje tem muitas facilidades na área da moda. A internet está aí para ajudar, contribuir, o ensino está mais facilitado. Faz um mês que eu voltei de um concurso internacional em Cingapura. Muita gente perguntou como cheguei em Singapura, quais foram os caminhos. Eu respondo que é preciso não se acomodar. Eu tenho um emprego, CLT, sou consultora do SENAI CETIQT, e posso contribuir para o mercado, posso inspirar outras pessoas e compartilhar conhecimento – Charllene Santos
Charllene segue apontando que a versatilidade é o que faz diferença em uma peça de roupa. Não se trata apenas de estética, mas de função social — quase de reparação simbólica. “Aquela peça rosa, o conjunto, foi para um concurso de sportwear, de peças exclusivas para mulheres que têm a vida atravessada por momentos únicos (menopausa, gravidez, ganho de peso) e devolver a autoestima. Você tenta comprar uma roupa e é tudo muito do mesmo, é o preto, o branco e o cinza porque é o que oferecem para mim e é o que vai apagar o meu corpo. Nessa coleção eu quis mostrar que posso ter um corpo gordo, ou magro, ou de uma mulher que acabou de ter um filho: não importa, tenho o direito de escolher o tipo de roupa que quero usar, colorida, com recortes, que mostre mais o meu corpo. Meu trabalho aqui no SENAI vem muito disso, como posso contribuir para que cada indivíduo, na moda ou não, possa mostrar sua vivência, sua realidade, o orgulho de pertencer”.
São conhecimentos passados de mulheres para mulheres que, até hoje, são o arrimo da casa, são quem traz o dinheiro, o alimento para a família. Muitas vezes essa renda não é complementar, é a principal da casa, da comunidade. Esse lado da moda é, muitas vezes, apagado aqui no Brasil. Ficamos sempre no eixo Rio-São Paulo, enquanto tem muita coisa bonita acontecendo – sempre aconteceu, na verdade, no Nordeste, no Norte ou no Sul – Charllene Santos
Também é essencial abordar a questão da apropriação cultural, entendida como o uso de elementos de uma cultura por pessoas de outra, sem o devido respeito, compreensão ou reconhecimento de sua origem e significado. A moda afro suscita discussões sobre o assunto. “Muitas pessoas utilizam símbolos e estampas por achá-los bonitos, mas com respeito. Há uma grande diferença entre apropriação cultural e apreciação cultural — e é preciso agir sempre com muito cuidado. Existe um público adepto das religiões afro-brasileiras, mas isso não significa que outras pessoas não possam se interessar. O pessoal do samba, por exemplo, costuma se identificar com esses símbolos, mesmo sem pertencer à religião. Importante quando há entendimento e respeito”, observa Mônica Sampaio.
Ainda nesse campo do pertencimento, da territorialidade e da propriedade simbólica, Ítalo William – ator e empreendedor à frente da marca carioca O Tal do Bonequinho – reposiciona a discussão a partir da linhagem. No caso dele, moda não é ruptura, é continuidade. A biografia antecede o CNPJ. “Eu venho de uma família em que meu bisavô era alfaiate, minha avó era costureira e a minha mãe era modelista. Eles vieram de Salvador para cá. Eu vi a oportunidade de ter esse trabalho de chão de fábrica dentro de casa, e dar uma continuidade ao trabalho da família. Mas a marca veio bem depois, porque fui atleta – joguei futebol profissional, caí numa companhia de teatro e virei ator e, aí, veio a marca”.

O Tal do Bonequinho (Foto: Instagram)

O Tal do Bonequinho (Foto: Instagram)
É muito mais do que vender — é sobre o que você transmite. Na minha estampa, por exemplo, está o Seu Zé Pelintra, que me acompanha sempre. É essa energia que a gente passa. Há clientes que compram comigo independentemente do desenho em si, porque percebem que as peças carregam muito axé. Existe mercado para isso. Conheço várias pessoas do candomblé e da umbanda que estão fazendo esse mesmo movimento. Quando você expressa a fé com verdade, pode criar estampas inspiradas no candomblé, na umbanda, no catolicismo ou no evangelismo — o que vale é mostrar a espiritualidade do jeito que ela é – Italo William
O fato é que o universo da moda negra passou por uma transformação significativa nos últimos anos. A expansão das redes sociais, o fortalecimento da moda sustentável e o surgimento de semanas de moda afro mudaram o cenário global. Grandes marcas passaram a reconhecer a força e a influência da estética africana, enquanto o debate sobre diversidade e inclusão abriu espaço para modelos, estilistas e fotógrafos negros nas passarelas e campanhas internacionais. “Logo no início, tive a oportunidade de entrar para o Coletivo de Afrocriadores e compreender o que é ser empreendedor. Criei minha primeira estampa exclusiva. Sou de Rocha Miranda e senti a necessidade de construir a identidade da minha marca”, conta Italo. “Nessa estampa, narrei a história da minha adolescência: tem o jogo do bicho, que eu jogava para a minha avó; máscara de bate-bola, porque fui dono de turma (a Uranos); São Sebastião, meu santo de devoção; o ano em que nasci, 1983; fachadas das casas suburbanas; os caquinhos; espada-de-São-Jorge — e muito mais”, revela Italo.
Já Lidyane Souza, cientista social e pesquisadora nas áreas de relações étnico-raciais e corporalidades, complementa a discussão focando nas inter-relações entre moda, negritude e academia. A conversa atravessa a biblioteca e o campo etnográfico. “Na minha pesquisa de mestrado, uma das defesas é a moda como tecnologia ancestral. Quando falo em tecnologia ancestral, refiro-me a um saber-fazer tradicional transmitido por mães e avós. Trato da moda como expressão artística e comunicativa, mas também como um fazer tecnológico herdado”, explica.

Lidyane Souza (Reprodução/Instagram)
Na adolescência, eu era fascinada pelo assunto. Tive dois blogs sobre o tema, gostava de escrever, acompanhar as novidades, entender o que estava acontecendo. Sempre me interessei mais pelo processo criativo — como as pessoas pensavam, o que as inspirava, quais experiências de vida alimentavam suas ideias – Lidyane Souza
As trajetórias dos debatedores são distintas, mas todas revelam a importância da persistência e da resiliência para alcançar o sucesso. Mônica Sampaio, por exemplo, construiu duas carreiras antes de se aventurar no universo afro fashion: “Sou engenheira eletricista, comecei na área de exatas. Trabalhei na extinta Varig, em um ambiente onde quase não havia mulheres, muito menos negras. Depois, entrei para o Exército e fui militar por anos. Mudei de carreira aos 45. Quando eu era jovem, mesmo amando moda e querendo seguir esse caminho, não via nenhum designer negro. Faltavam referências — e nós somos formados pelas referências que observamos e desejamos seguir. Hoje entendo o meu lugar. Levar a ancestralidade para a moda, especialmente para a maior semana de moda da América Latina, é uma maneira de mostrar a quem está começando que eles podem chegar lá. Atualmente, temos várias referências (não podemos esquecer de Goya Lopes, que nos anos 1970 abriu caminho com suas estampas e conquistou o mundo)”.
A moda é política, é pertencimento, é a primeira forma como você se projeta. A forma como você se veste, se coloca, é como as pessoas te reconhecem e como você quer ser reconhecido no mundo. Então a importância do designer negro é isso, é estarmos aqui, cada um com a sua vivência, cada um vindo do seu lugar e falando para vocês que sim, é possível – Mônica Sampaio
Ante ao debate sobre etnia e territorialidade, uma das espectadoras presentes na plateia perguntou quais seriam as dicas para quem está começando no ofício. Para Charllene Souza, o essencial é manter o olhar curioso: “Não apenas para observar o que acontece no mundo, mas também para olhar para a indústria brasileira, que vem enfrentando um déficit de mão de obra. É raro ver estilistas e criadores que compreendam o processo desde o início, do desenvolvimento e da modelagem à costura. Esse olhar é fundamental para respeitar cada etapa e realmente entender o valor de uma peça”.
Já Italo William sinalizou que “é preciso, primeiramente, acreditar no seu produto, ver para onde você quer entregar, para quem quer falar, entender todas essas partes. Digo isso porque a minha avó era costureira e hoje eu vejo todos os momentos de dores que ela tinha mas se mantinha presente sorrindo. Então não posso de maneira alguma tentar barganhar preços menores, porque se eu cresço a costureira também tem de crescer. Você tem que entender toda essa parte e resgatar a valorização da mão de obra. Isso é muito importante”.
Mônica Sampaio aconselha os jovens a aproveitarem ao máximo o aprendizado acadêmico: “Na faculdade de Moda, você vai descobrir se quer abrir uma marca, trabalhar com estamparia etc. O mercado é competitivo; quem não entende que a moda precisa ser sustentável fica para trás. Absorvam tudo o que os professores têm a oferecer para chegar lá fora preparados. Você tem que acreditar no que faz e buscar conhecimento”.
Lidyane Souza reforça a importância do estudo contínuo: “É fundamental pensar a moda não só como tendência, mas também como processo social. Só assim se constrói repertório e se criam novas bases para o desenvolvimento criativo. É entender que a faculdade nos dá muitos recursos de base para a gente pesquisar, fazer modelagens, os designs etc. Não é possível parar de estudar quando se faz moda com histórico, repertório e impactos”.
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