Rabanne produz campanha que exalta comunidade e funk no Rio de Janeiro e provoca reações polêmicas entre internautas


Passando por um rebranding, a grife Rabanne está causando uma série de críticas nas redes sociais pela campanha de verão “Sunset to Sunrise”, fotografada no Rio de Janeiro, e com ênfase à comunidades e no ritmo do funk. O vídeo, que mostra pessoas pretas dançando ao som de “Popotão Grandão”, de MC Neguinho, gerou controvérsia apesar do histórico da marca de valorizar a cultura negra. Internautas apontam, por exemplo, a ausência de diversidade na ficha técnica. A campanha acumula milhões de visualizações, mas também comentários questionando a representatividade por trás da estética. Para o diretor, ator, filósofo e escritor Rodrigo França, referência em assuntos relacionados à cultura e representatividade negra no Brasil, “o problema não é quando um indivíduo utiliza um símbolo de outra cultura, mas quando a indústria se apropria — estética, afetiva e financeiramente — de signos nascidos em territórios de exclusão, sem garantir que as pessoas que criaram esses códigos estejam participando, decidindo, lucrando. A apropriação não é uma trança ou um batidão, é a ausência de justiça na cadeia criativa e financeira”

Clipe da campanha nova de verão da Rabanne, que destaca o Rio de Janeiro, o funk e a favela, despertou sentimentos mistos nos internautas (Reprodução/Instagram)

A label Rabanne está recebendo diversos comentários polêmicos nas redes sociais. Antes do rebranding, que visa reforçar a identidade da marca e a expansão internacional, ela era batizada com o nome do seu criador, Paco Rabanne (1934-2023). Agora, a Rabanne escolheu o Rio de Janeiro, o funk e a comunidades da Rocinha como inspiração para a nova campanha High Summer 2025, “Sunset to Sunrise”. O vídeo de apresentação mostra cenários de comunidades da cidade e pessoas dançando ao som de “Popotão Grandão“, MC Neguinho“A soma do quadrado” de MC Marlon“Rapidamente treme o bumbum” de MC Hollywood e “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá. O clipe surpreendeu centenas de internautas, já que a marca tem um histórico de valorização da cultura negra. Vanguardista, Paco Rabanne foi um dos primeiros a colocar modelos negras nas passarelas. Na década de 1960, empregá-las era praticamente um ato político na França – ao usar um vestido de noiva de plástico, a primeira profissional preta escandalizou a imprensa norte-americana em 1964.

O estilista Paco Rabanne, espanhol radicado na França, tornou-se um ícone da moda pela abordagem ousada e inovadora, ao incorporar materiais pouco convencionais como plástico e metal em suas criações. Inspiradas na Era Espacial e na tecnologia, as coleções romperam com os padrões tradicionais e marcaram uma nova estética, influenciando toda uma geração de designers.

A legenda que acompanha o clipe no Instagram exalta a cultura musical do Brasil. “Do anoitecer ao Amanhecer: uma homenagem ao funk do Rio, ao seu povo e ao poder do baile. Entre em um mundo construído a partir do ritmo, da resiliência e da reinvenção constante. Honrando a paixão de Monsieur Rabanne por incentivar a música afro-caribenha e a arte do funk, La Maison volta seu olhar — e seus ouvidos — para o coração da vibrante cultura do funk carioca”.

Há mais de 20 anos trabalhando com moda, a especialista criativa Maria Claudia Pompeo reconhece que a Rabanne “é uma marca de vanguarda, sempre à frente de seu tempo”. No entanto, a profissional destaca o “cartão de visita cultural” do carioca na atualidade: “Temos que tomar cuidado para não romantizar, mas existe a visão que o mundo tem sobre o Brasil e sobre a favela. É o ´soft power’ do Rio de Janeiro, como essas culturas e subculturas do Rio são percebidas globalmente. É muito interessante uma marca de luxo vanguardista buscar [esse destaque] no Rio, mas sair do lugar da bossa-nova, de ‘Garota de Ipanema‘ e do calçadão de Copacabana para as comunidades. É uma percepção que a cultura carioca transcendeu: não é mais [apenas] da orla e das novelas de Manoel Carlos”.

Se há uma romantização da favela e da cultura preta carioca é porque estamos sendo percebidos dessa forma. Mas existe a responsabilidade social ao divulgar, sobretudo tratando de uma marca de luxo com produtos inacessíveis justamente para a camada social retratada na campanha, e não dar um retorno substancial à comunidade. Gostaria muito de ver uma continuidade – Maria Claudia Pompeo

Campanha de verão da Rabanne desperta reações mistas dos seguidores (Reprodução/Instagram)

Campanha de verão da Rabanne desperta reações mistas dos seguidores (Reprodução/Instagram)

Um aspecto comentado pelos internautas foi a ficha técnica, “que só tem branco”, conforme destacou um usuário. Envolvidos na produção e marcados pela casa de moda no Instagram, Julien Dossena (diretor criativo da Rabanne), Alexia Niedzielski (criadora do conceito da campanha e diretora), ​​Mari Stockler (diretora criativa e única brasileira taggeada) e Emmanuel Cossu (diretor de vídeo) são brancos. Há muitos outros nomes no final do vídeo, que já acumula dois milhões de visualizações e quase cinco mil comentários. Procurada pelo site, a Rabanne não se pronunciou sobre a produção do vídeo e a reação do público até a publicação dessa matéria. 

O diretor, ator, filósofo e escritor Rodrigo França, referência em assuntos relacionados à área da cultura afro-brasileira e por sua defesa da representatividade negra, avalia que “muito já se falou sobre apropriação cultural, mas talvez ainda estejamos olhando com a lente equivocada”.

O problema não é quando um indivíduo utiliza um símbolo de outra cultura, mas quando a indústria se apropria — estética, afetiva e financeiramente — de signos nascidos em territórios de exclusão, sem garantir que as pessoas que criaram esses códigos estejam participando, decidindo, lucrando. A apropriação não é uma trança ou um batidão, é a ausência de justiça na cadeia criativa e financeira — Rodrigo França

Muitos internautas pontuaram que “o funk carioca, a estética da favela, o gingado, o cabelo, o neon, o batidão… tudo isso vira conceito quando convém. Mas quando é pra remunerar, contratar, dar crédito ou investir de verdade na comunidade, aí some o glamour””. Outra foi no embalo: “Fetichização da favela. Será que é um trabalho para a marca feito por moradores da comunidade? Nem pensar? Ajudar a comunidade? Nem pensar?”.

Destaque ainda para este comentário: “Vejo esta campanha como um exemplo claro de “poverty porn” – a romantização da pobreza transformada em estética para o olhar estrangeiro, consumida como exotismo cultural. É profundamente problemático quando territórios marcados por desigualdade viram cenário para o fetiche publicitário de marcas globais, sem qualquer retorno positivo real para as comunidades envolvidas”.

E mais: “É importante criar vínculos verdadeiros e dividir os $ de vendas, por exemplo. Não basta mais apenas contratar a comunidade e tchau. Precisa melhorar a vida de quem está lá aumentando empregos e renda para a comunidade. A moda precisa pensar na redução das desigualdades”.

Campanha de verão da Rabanne desperta reações mistas dos seguidores (Reprodução/Instagram)

Campanha de verão da Rabanne desperta reações mistas dos seguidores (Reprodução/Instagram)

É fundamental ir além da estética e observar o backstage. Quem pensou essa campanha? Quem são os criadores? Foram pagos de maneira justa? Há algum retorno para a comunidade que inspira e sustenta essa estética? Ou seguimos perpetuando o ciclo em que a favela serve de cenário, mas nunca de crédito? A estética é celebrada, mas a ética é ignorada. Marcadas no Instagram, como crédito, só pessoas brancas que não fazem parte daquele universo. Se eu olho, o consumidor também tem este hábito — Rodrigo França

Quem compartilha uma opinião similar é o pesquisador sobre funk e professor universitário Micael Herschmann, que acredita ser “um vídeo muito bonito, até respeitoso em relação ao universo do funk”. Todavia, identifica um “problema que envolve o lugar de fala”, define.

“Houve uma reação dos atores do universo do funk carioca. Eles ficaram incomodados, então acho que é uma apropriação. É importante que tenha presença, mas seria interessante dar um passo adiante nesse debate, estabelecer um diálogo com esse universo. Talvez, propor algo do ponto de vista de apoios. A empresa tem uma bela oportunidade de construir uma parceria com esse universo”, reconhece o docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 Evento de lançamento

A Rabanne promoveu uma festa no Hotel Nacional, em São Conrado, na noite de quinta-feira (dia 22). O evento foi realizado com o intuito de divulgar a campanha de verão e exibiu dezenas de frascos da linha de fragrâncias “Million Gold” por celebridades como Grazi Massafera, Isis Valverde e Alice Wegmann.

Xamã, Isis Valverde e Alice Wegman posam com perfumes da Rabanne, na festa promovida pela grife no Rio de Janeiro (Reprodução/Instagram)

(Reprodução/Instagram)

“Se apropriar da estética brasileira e, principalmente, de uma parte da população que não é, nunca vai ser e nem se quiser ser, terá oportunidade de comprar coisas da marca. Piada pronta”, comentou uma internauta. Em consonância, de acordo com o site Rabanne Brasil, o menor tamanho do perfume “Million Gold For Her”, de 30 ml, é vendido a R$ 549. As versões maiores custam quase R$ 1.000. Até mesmo as maquiagens são consideradas produtos premium: como exemplo, o hidratante labial “Lovebalm”, um item básico de beleza, é vendido a partir de R$ 219,00.

A responsabilidade social deve ser inserida dentro dessa campanha. Não é possível simplesmente glamourizar uma parcela da população que já sofre diariamente racismo, falta e escassez e isso ser vendido como produto de luxo – Maria Claudia Pompeo

Em consonância, Rodrigo França analisa a narrativa do consumo: “É importante frisar: precisamos fugir da armadilha neoliberal que vende a ilusão de que, quando um vence, todos vencem. A favela não venceu porque um ou outro rosto apareceu em um clipe de luxo. A favela vai vencer quando houver saneamento básico, educação de qualidade, segurança que respeite a dignidade humana e um sistema de saúde acessível e eficaz. Representatividade importa, mas não substitui proporcionalidade. A verdadeira vitória será coletiva — quando a estrutura deixar de ser precária para se tornar justa”, atesta.

Cleo, Grazi Massafera e Humberto Carrão posam com perfumes da Rabanne, na festa promovida pela grife no Rio de Janeiro (Reprodução/Instagram)

(Reprodução/Instagram)

Legado de Paco Rabanne

Durante décadas, Paco Rabanne vestiu corpos e ideias. Suas criações desafiaram os limites entre arte e moda e funcionalidade e fantasia. Até hoje, a marca é vista como símbolo de ruptura, invenção e vanguarda. Em meados de 1960, um momento de revolução para a moda feminina, a marca Rabanne – na época, Paco Rabanne – surgiu como uma força disruptiva. Fundada pelo estilista espanhol Paco Rabanne em 1966, a grife conquistou espaço rapidamente ao romper com as convenções da alta-costura. Ela propôs uma estética ousada, futurista e provocadora que mudou os rumos da indústria.

Em meio a nomes influentes, como Pierre Cardin (1922-2020) e André Courrèges, (1923-2016), Paco Rabanne se destacou pelo uso inédito de materiais inovadores. Enquanto a seda e o algodão ainda dominavam as passarelas, o estilista ousou com metais, plásticos e vinis, criando roupas que mais pareciam esculturas futuristas. A primeira coleção, “12 Vestidos Inutilizáveis Feitos com Materiais Contemporâneos”, marcou sua estreia com um manifesto estético: a moda não precisava ser confortável para ser relevante, mas provocadora.