Moda & Beleza

Pertencimento, Movimento, Cotidiano, Apropriação, Adaptação e Humor: palavras de ordem que vão guiar o Inverno 2017 e o Verão 2018, de acordo com o Inspiramais

A 14ª edição do evento reuniu diversos projetos (são mais 15), uma centena de expositores, troca de conhecimento e o lançamento e apresentação de mais de 600 materiais desenvolvidos pelas empresas participantes do Salão de Design e Inovação, em São Paulo, na segunda e terça-feiras

Publicado em 29/06/2016 | Por Junior de Paula

Se fosse para fazer uma analogia, o Inspiramais,  Salão de Design e Inovação de Materiais organizado pela Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), a Footwear Components by Brasil e o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), Brazilian Leather, seria uma grande fogueira que surge como resultado de várias fagulhas acesas por diversos cantos do país. Não entendeu a figura de linguagem? A gente tenta explicar melhor para quem não pôde comparecer à 14ª edição do evento em São Paulo, na segunda e terça-feiras, que reuniu diversos projetos (são mais 15), uma centena de expositores, troca de conhecimento e o lançamento e apresentação de mais de 600 materiais desenvolvidos pelas empresas participantes do Fórum de Inspirações. A ideia, como o próprio nome já diz, é inspirar toda a cadeia produtiva da moda brasileira e internacional e os cerca de 5 mil visitantes que vão desde empresários dos segmentos calçadista, confecção e moveleiro, estilistas, designers e formadores de opinião. “Nestes tempos conturbados, a melhor escolha é a união de todos os elos da cadeia produtiva, fortalecendo e encorajando os empresários a atravessarem seguros esta fase de turbulência”, sentenciou Walter.

Leia mais: Na abertura do Inspiramais Inverno 2017, conversamos com os executivos que fazem a roda da moda girar: “É hora de sustentabilidade e otimismo”

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Pra entender a história toda é preciso começar, de fato, pelo começo. E tudo tem o start a partir do Fórum de Inspirações, um evento organizado pelo Núcleo de Design da Assintecal, comandado por Walter Rodrigues, que leva uma grande pesquisa de tendências para as próximas estações para ser apresentada em mais de 30 pólos fabricantes do setor de calçados, bolsas, vestuário e móveis para que, a partir dessa exposição, os produtores possam trabalhar, em parceria com os consultores da Assintecal, no desenvolvimento de componentes para a indústria. Para nos guiar por esse universo de materiais que vão invadir o mercado no Inverno de 2017 – fruto do Fórum – e estava exposto pelas paredes da entrada do evento, a gente teve o auxílio do próprio Walter. “Estabelecemos um diálogo com as empresas para que elas entendam a ideia de um projeto com início, meio e fim, para que compreendam que a inovação é essencial a cada nova coleção e que essa inovação não é apenas uma vitrine e, sim, a prova da evolução do pensamento, do conhecimento de mercado da empresa e da tecnologia”, explicou Walter, antes de começar a detalhar os conceitos dentro da pirâmide de inspirações.

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Na base da tal pirâmide, que Walter chama de Conceito 1, e que tem a palavra Pertencimento como mote, é onde se encontra 60% da cadeia produtiva e, portanto, das inspirações. É ali que a gente vai encontrar os produtos aptos para serem compreendidos e desejados pelos consumidores que são influenciados pelas mídias de massa, como as novelas, por exemplo. “Muita coisa do que a gente trabalha, o consumidor final vai querer em dois anos, mas, aqui, nestes 60% estão os desejos de todo mundo”, explicou. E quais a tendências deste segmento? “Tons de marrom e bege, a explosão do dourado, tressé (que aqui, por conta da massificação dos produtos aparece como uma estampa e não como tramado original e mais exclusivo), o matelassê, nos naturais misturados com brilho, estamparia e cores misturada ao dourado. Turquesa que vinha devagar e se estabelece com força nesta temporada de Inverno 2017, se misturando ao rosa e ao vermelho, o capitonê, o aspecto de airbrush, a dualidade da simplicidade das formas com a ostentação dos brilhos, o xadrez e mais um tanto de outras referências”, enumerou Walter.

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Dali, a gente partiu para o Conceito 2, o meio da pirâmide, que representa 30% em termos de superfície. Aqui, sob o tema Cotidiano, temos, comercialmente, o planejamento de uma narrativa que explore a tendência de moda do momento, mas que ainda não foi massificada, como no Conceito 1. Alguns exemplos de inspirações para o Inverno 2017? “O estranho, fruto do interesse da exposição de Alexander McQueen e Björk fazendo turnê mundial, a luminescência dos materiais, as ideias de como retrabalhar os produtos, o aspecto celular no sentido de ser orgânico, de células emaranhadas, a tecnologia que nos colocou perto da doença, a memória arquivada, a pela de peixe, o militante, o seja herói seja marginal, os camuflados, o pop, com destaque para uma estampa de vários rostos de David Bowie, por exemplo, quadrados de acordo com a cidade, corrida, velocidade, a arte gráfica das urbes, e, para finalizar, num claro contraponto, o minimalismo”, listou Walter.

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E, enfim, mas não perto do fim, muito pelo contrário, chegando aonde tudo começa, temos o Conceito 3, que é o topo da pirâmide, e onde está compreendida a etapa de experimentação, uma espécie de plataforma de inovação, a criação autoral e busca pelo novo. “Aquilo que começa aqui só vai terminar dois anos depois, quando chegar na base da pirâmide”, explicou Walter, completando de onde saíram as inspirações para o Inverno 2017 dos 10% que vão atingir os consumidores trendsetters, que vão na frente segurando a lanterna e abrindo o caminho para o resto da cadeia consumidora. “Aqui fomos atrás do primitivo, do ancestral, das variações do marrom, do aspecto plastificado, do espontâneo, já que tudo que é criado empiricamente não tem uma regra. Fomos às empresas em busca do feito à mão. Outra palavra que rege o Conceito 3 é provocante, com foco no réptil, em novos toques, outras texturas. E quando se fala em ancestralidade em um país majoritariamente negro, a gente lembra de ritmo, música, batuque, estampas que lembram a cadência. Materiais que remetem à flexibilidade e possibilidade de encaixe, o labirinto, o encurralado, a questão de como sair desse momento brasileiro também vai para os materiais”, definiu Walter.

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Tudo, como nos adiantou, pensado a partir de um ponto em comum: as obras da Adriana Varejão, principalmente a série mais recente na qual ela se utiliza dos nomes das cores das peles dada pelos brasileiros em pesquisas do IBGE antigas, a paleta vibrante do pintor Albert Eckhout, levado por Maurício de Nassau ao Pernambuco no século XVII, e outros pintores, como Luís Zerbini, com foco na brasilidade e esse sentimento de Ubuntu – Eu sou porque nós somos. Um verdadeiro mergulho em nossas origens dissecadas em forma de tendências que vão guiar 100% da cadeia produtiva e do mercado de moda. “O impacto da leitura do livro Brasil uma Biografia de Lilia Moritz Schwarcz e Heloísa Starling – Editora Companhia das Letras de 2015, nos proporcionou uma experiência única ao tomarmos conhecimento das profundas marcas estabelecidas na formatação de nossa história com a chegada dos portugueses, dos africanos e de sua relação com os habitantes originais do continente: os índios”, finalizou Walter Rodrigues.

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Se era hora de dar descanso para o nosso guia deluxe, o carrossel de emoções da moda estava só começando. Depois de ficarmos craques no Inverno 2017, demos um pulo para o futuro e desembarcamos no Preview do Couro Verão 2018. Por lá, Marnei Carminatti e Ramon Oliveira Soares nos orientaram em meio às propostas de cores – rosa, turquesa, vermelho, verde, azul e beges, entre outras – expostas em grandes tiras de couro de python certificado, além de peles de peixe, principalmente tilápia, que ganharam recortes e montagens com formas que se repetem, como armaduras protetoras. Efeitos excêntricos, como pintura iridescente sobre pele de mestiço ou perolados metálicos sobre pele de jacaré, compõem o mix de opções para o Verão 2018.

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“A gente tem três meses para desenvolver o que vemos no Preview. É uma pesquisa antecipada, não tão completa quanto a do Fórum de Inspirações, já que a ideia é, mesmo, de um aperitivo do que vamos encontrar na próxima edição do Inspiramais Verão 2018 de fato, que ocorre em janeiro de 2017″, contou Marnei. Já Ramon explicou com detalhes o seu dia a dia, pois cabe a ele o papel de acompanhar os cerca de 16 curtumes participantes do Preview do Couro no desenvolvimento das peles que a gente podia ver, tocar e sentir nos salões do Inspiramais.

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“Apropriação é a palavra chave do Preview, então a nossa proposta era de que os couros que eles faziam normalmente fossem refabricados e se transformassem em outros produtos. Um couro pintado, por exemplo, ganhava uma estampa em parceria com os estudios do +Estampa, ou um mestiço era bordado, um patchwork de pele de rã com tilápia e assim por diante”, enumerou Ramon, que ainda nos contou que dentro desse guarda-chuva da Apropriação, três outras palavras definiam os caminhos das inspirações para o Verão 2018: Humor, Adaptação e Subversão. “Chegávamos aos curtumes com nossas cartelas de cores e cadernos de tendências e pensávamos juntos: o que você já faz, que podemos, juntos, refazer de uma forma inusitada?”, questionou. Tudo com o objetivo de estimular esses grandes, pequenos e médios produtores de couro a criar um produto único, exclusivo e não só reproduzir o que já foi feito.

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Logo ali ao lado do Preview do Couro 2018, era a casa do Referência Brasileira, projeto comandado por Jefferson de Assis. Como já contamos por aqui, o projeto – um dos 15 encontrados nesta 14ª edição do Inspiramais – tem como objetivo promover a cultura do Brasil por meio da pesquisa iconográfica decodificada em materiais e produtos acabados. Ou seja, Jefferson pega as inspirações do Preview do Couro e cria protótipos que ficam expostos no Salão para mostrar aos visitantes de que forma os couros podem ser retrabalhado e ressignificados para pensar além.

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“Tenho a sorte e a responsabilidade de dar vida aos primeiros materiais e produtos acabados para o Verão de 2018 através do Projeto Referências Brasileiras. Nesta 10ª edição, contei com a ajuda da boneca Emília, que me guiou pela flora, realeza, pelas estrelas e suas reformas e retalhos”, declarou Jefferson, que não pensou duas vezes antes de escolher a obra de Monteiro Lobato“O Sítio do Pica Pau Amarelo”, como referência brasileira da tríade do Verão 2018 Subversão-Adaptação-Humor.

“Tem a subversão do uso do material, por exemplo, com estrelas de cristal aplicadas ao couro com gaze ainda na prensagem, já que em uma das histórias ela vai ao céu e volta cheia estrelas. Além disso, ela tinha fetiche pela realeza, usava frases de Dom Pedro II, e, por isso, fomos atrás de ícones do Museu Imperial, como as estrelas do Cruzeiro do Sul. E ainda tem os florais, já que a boneca é recheada de pétalas de macela”, listou Jefferson.

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E pensa que acabou por aí? Nada disso, ainda conversamos com Jefferson sobre o Mix By Brasil, que, tem  como objetivo inserir a mão de obra artesanal brasileira na engrenagem da alta moda, selecionando comunidades brasileiras de artesanato para promover não apenas a nossa identidade cultural como agregar um valor quase inestimável ao produto final, e com Isabela Capeto, o nome por trás do projeto  EcoDesign.

“O objetivo é desenvolver couros de menor impacto ambiental destinados aos setores coureiro e calçadista, onde entra a utilização dos taninos vegetais, solventes à base d’água e produtos livres de cromo.O Ecodesign promove a utilização de couros exóticos e de vacum apresentados em protótipos de calçados e acessórios, com base no conceito de menor impacto ambiental e maior aproveitamento das matérias-primas disponíveis”, contou Isabela, que é uma expert no assunto, já que suas criações sempre usam produtos reaproveitados e de pouco impacto ambiental.

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Mais do que um espaço para pensar o futuro, o Inspiramais se consolida, cada vez mais, como um espaço, de fato, inspiracional, onde a gente pode conversar com as mais diversas peças da engrenagem da indústria calçadista brasileira e internacional – já que muito do que se vê ali é exportado – e levar para casa não só cadernos de tendência, mas também iniciativas que fazem a diferença, seja pensando no aspecto macro quanto na revolução que eles fazem em pequenas, comunidades de artesãos apresentando a eles, literalmente, o mundo. E esses novos mundos que levamos na bagagem depois de mais esta edição são fascinantes.

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