Moda & Beleza

No Fashion Talks, Alexandre Herchcovitch comenta modelo de negócios baseado em parcerias com outras marcas e questão da moda agênero nos dias de hoje: “Há diferenças reais na anatomia do corpo da mulher e do homem”

Além do estilista e responsável pela grife À La Garçonne, Alexandre Manetti, nome por trás da Two Denim, e Ana Isabel, dos sites Shop2gether e OQVESTIR, também foram os escalados para comentar o painel Moda para todos/The next fast-fashion no Senai Cetiqt do Rio de Janeiro

Publicado em 31/10/2017 | Por Julia Pimentel

É para hoje e agora. O desejo pelo imediatismo que, nos tempos modernos, já ganhou status de necessidade, é algo quase unânime em diferentes segmentos. Seja na comunicação, nas relações ou na moda, o tempo e a espera se tornaram quase elementos de luxo no comportamento contemporâneo. Quando o assunto é o cenário fashion, por exemplo, o see now buy now e o consumo virtual são exemplos deste desejo imediato atual. E este foi o assunto do painel “Moda para todos/The next fast-fashion” na tarde de conhecimento promovida pelo Senai Cetiqt, na semana passada, no Rio de Janeiro. No Fashion Talks, o estilista Alexandre Herchcovitch, que hoje cria as coleções da À La Garçonne ao lado de Fábio Souza, Alexandre Manetti, nome por trás da Two Denim, e Ana Isabel, dos sites Shop2gether e OQVESTIR, foram os escalados para comentar esta realidade na moda mundial.

Seja na passarela ou nas lojas, o imediatismo é uma realidade mesmo nas grifes de slow fashion. Apesar de defender uma moda mais personalizada e individual, a À La Garçonne de Alexandre Herchcovitch é um bom exemplo de marca que também passeia pelo consumo imediato e instantâneo. Além das criações que traduzem o conceito de uma coleção e as verdades de sua dupla de designers, a grife não abre mão de levar a ideia para mais pessoas. “Existe uma expressão em inglês que é “buying in dreams” que fala justamente dessa ideia de estar comprando sonhos. É como no caso de um consumidor comprar uma peça da À La Garçonne para a Hering que tem toda a identidade e o estilo da marca, mas possui um preço menor no mercado. Nesse caso, é diferente de você estar pagando por uma peça exclusiva toda bordada à mão. E aí, com isso, é possível aproximar a marca de um público maior”, apontou Camila Yahn, moderadora do painel ao lado de Jackson Araújo.

Ana Isabel, Alexandre Manetti e Alexandre Herchcovitch no painel Moda para Todos no Fashion Talks (Foto: Divulgação SENAI/Camila Mira)

Neste exemplo, a À La Garçonne se apropriou do consumo em massa da Hering e firmou parceria com o intuito de levar a proposta da marca para mais consumidores. “Eu sempre acreditei na potência de unir forças com grandes empresas. Agora que eu estou trabalhando com a À La Garçonne este é o nosso principal modelo de negócios. Porém, desde sempre eu busquei essas parcerias porque acredito no trabalho em conjunto”, disse Alexandre que, destas dobradinhas, vai desde a criação de novos produtos à ressignificação de outros esquecidos no estoque. “A ideia é ter os produtos da grife em todos os níveis. No mais alto deles estamos falando daquele manual que vai resultar nesta cadeia de versões. A partir deste, podemos ir ressignificando uma proposta até chegar em uma parceria mais popular como essa que fizemos com a Hering, por exemplo”, explicou.

Deste trabalho em conjunto, hoje, a À La Garçonne acumula experiências de licenciamento com marcas de calçados, óculos etc. Em todos esses casos, a ideia é levar o conceito da grife de Fábio e Alexandre para outras interpretações. Assim como o modelo de parceria é uma forma de explorar a nova forma de consumir da moda contemporânea, os sites de venda virtual também são personagens desta mudança. Antes, comprar uma roupa era sinônimo de ir ao shopping, experimentar, pagar e carregar até em casa. Hoje, com alguns cliques, o produto chega embalado na porta do cliente.

O Fashion Talks reuniu diversos nomes de peso no Senai Cetiqt do Rio ontem à tarde (Foto: Divulgação SENAI/Camila Mira)

À frente de dois dos maiores sites de e-commerce, Ana Isabel comentou o espaço que  este consumo virtual tem conquistado nos últimos anos no mundo. “O Brasil é um mercado muito promissor para o e-commerce e está dentro dos dez maiores do mundo. Anualmente, nós crescemos 20% e, desse montante, só 3% representam o consumo digital. Então, para o e-commerce é uma realidade muito promissora. No caso de vestuário, o que vemos é muita gente entrando e também bastante marcas saindo. Até porque, não é fácil. Como qualquer prestação de serviço, nós também precisamos ser excelentes”, disse.

Para isso, Ana Isabel tem cerca de 250 funcionários alimentando as páginas Shop2gether e OQVESTIR na internet. Para se ter uma ideia, enquanto a empresária do negócio virtual possui pouco mais de duas centenas de colaboradores, Alexandre Manetti contou que a Two Denim tem apenas oito empregados diretos com ele e Herchcovitch calculou menos de 20 para a À La Garçonne. Sobre o negócio, Ana Isabel destacou a pluralidade de opções de compra que os sites oferecem. “Hoje nós temos mais de 250 marcas que variam de grifes como À La Garçonne aos exemplos de fast-fashion. Nessa variedade, temos aquelas mais acessíveis e outras nem tanto, até pelo preço também. Mas, no cenário do e-commerce, eu acredito que existe mercado para qualquer produto, desde que ele tenha um intuito claro e definido”, destacou.

Jackson Araújo e Camila Yahn foram os mediadores do encontro (Foto: Divulgação SENAI/Camila Mira)

Por outro lado, Alexandre Manetti apontou a complexidade do negócio virtual. Embora seja um mercado em crescimento e com espaço na economia nacional, o e-commerce ainda é um caminho escuro para muitos empresários. Inclusive para o diretor da Two Denim. “Não é um trabalho fácil. Cada vez que eu leio mais ou estudo sobre esse consumo, sinto que fico mais confuso”, disse o empresário que, apesar de ter sua loja virtual, se garante nos 127 pontos de venda que possui espalhados pelo Brasil.

Dentro ou fora da internet, o assunto sobre o consumo de moda para todos no cenário do século XXI aborda temas que vão além da compra e venda. Cada vez mais, conceitos como roupas agêneros têm ganhado força e clientes nas marcas. Representante de grife atenta a este consumo livre, a À La Garçonne salta à frente quando o assunto é a liberdade de escolha. Mas, apesar de prova desta mudança, Alexandre Herchcovitch destacou a complexidade de criar modelos agêneros. “O consumidor está cada vez mais livre para achar o que quer, mesmo que isso seja fora do gênero que motivou aquela roupa. Porém, existe uma questão que eu sempre destaco: é que há diferenças reais na anatomia do corpo da mulher e do homem e isso influencia a criação. Não tem como negar na hora de criar uma roupa, por exemplo. Então, por isso, a moda agênero acaba tendo um visual mais masculino e largo para que possa ser agregado ao corpo feminino”, comentou o estilista.

Ronaldo Fraga, Lino Villaventura e Alexandre Herchcovitch no Fashion Talks no Senai Cetiqt do Riachuelo (Foto: Divulgação SENAI/Camila Mira)

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