Moda & Beleza

Liana Thomaz, o nome criativo por trás da marca de moda praia Água de Coco há mais de 30 anos, fala sobre empreender no Brasil, semanas de moda e autoestima nacional

Mais do que uma participante ativa da engrenagem da moda brasileira, Liana Thomaz sabe da responsabilidade que tem com números tão expressivos relativos à Agua de Coco. Com mais de 500 funcionários, divididos entre fábrica e lojas, a marca produz mensalmente 40 mil peças entre modelos de swimwear, fitness e acessórios. Atualmente, as peças da Água de Coco por Liana Thomaz podem ser encontradas em todos os estados brasileiros, nas mais de 400 multimarcas e 28 lojas, sem contar os pontos de venda internacionais, que são muitos e de grande sucesso

Publicado em 20/06/2018 | Por Junior de Paula

O ano era 1985 e o cenário, Fortaleza, a capital do Ceará. Foi nesse momento que nasceu uma das marcas de moda praia mais amadas pelos brasileiros – e, em grande medida pelo mundo, sob as mãos talentosas e cheias de garra da estilista Liana Thomaz. Ela, que comanda a criação da empresa multinacional até hoje, 33 anos depois, deu o start em seu sonho com apenas uma máquina, uma costureira, muita determinação e um objetivo bem definido: lançar uma marca de biquínis com qualidade indiscutível. “Quando comecei, há mais de 30 anos, era uma jovem mãe que queria ter a minha própria fonte de renda”, explicou em papo exclusivo com o site HT, logo após o entrondoso sucesso que foi o desfile da marca na São Paulo Fashion Week, que homenageou a brasilidade do nosso povo, com direito a apresentação de Anitta na passarela paulistana. “A ideia por trás da coleção “Brasil com Z” veio para mostrar o melhor do país, ressaltar o que temos de bom e isso é sim uma forma de levantar a nossa autoestima!”, afirmou.

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E não é que deu certo? O site HT, que estava na primeira fila da apresentação, pode dizer de camarote: foi um bálsamo perceber todos os itens inspiradores – o Rio inclusive – para este impulso no amor pelo Brasil. Paisagens do Rio de Janeiro e homenagem à flora e à fauna marcaram a estamparia da marca, que aposta na atemporalidade e vai além do beachwear, propondo todo um lifestyle que vai da praia à cidade, em qualquer estação e qualquer lugar do mundo. “Trouxe um Brasil mais sofisticado, não tem mais inverno e verão, são coleções cápsulas, quatro ou cinco no ano. O trabalho dobrou, porque são lançamentos novos toda hora. É um ‘see now, buy now’. Como temos muito varejo, resolvemos fazer isso. Não é fácil, mas está funcionando”, analisou Liana.

Mas Liana e a Água de Coco querem fazer mais pelo Brasil e, por isso, recentemente, a estilista se associou à ABEST – Associação Brasileira de Estilistas -, que tem como objetivo fortalecer e promover a indústria de moda-design nacional. Por compartilhar do mesmo conceito, a Água de Coco por Liana Thomaz optou por integrar a ABEST, agregando outra finalidade: solidificar, ainda mais, a importância e representação da grife no segmento. “Sem dúvidas a ABEST contribui para que a gente possa criar oportunidades, principalmente no âmbito internacional, participando de feiras e promovendo a moda nacional fora do país”, explicou.

Anitta desfile Água de Coco - SPFWN45 (Foto: Henrique Fonseca)

Anitta desfile Água de Coco – SPFWN45 (Foto: Henrique Fonseca)

Mais do que uma participante ativa da engrenagem da moda brasileira, Liana Thomaz sabe da responsabilidade que tem com números tão expressivos relativos à Agua de Coco. Com mais de 500 funcionários, divididos entre fábrica e lojas, a marca produz mensalmente 40 mil peças entre modelos de swimwear, fitness e acessórios. Atualmente, as peças da Água de Coco por Liana Thomaz podem ser encontradas em todos os estados brasileiros, nas mais de 400 multimarcas e 28 lojas. No exterior, a marca está presente em diversos locais entre eles EUA – com direito a venda direta para a rede Victoria’s Secret -, Canadá, Espanha, França, Alemanha, Itália, Portugal, Japão, Austrália, Porto Rico, Ilhas Virgens, Caribe, República Dominicana, México, Havaí, Ilhas Canárias, Costa Rica e África do Sul. E é por isso, que ela pensa cada vez mais longe e com mais garra para vencer os obstáculos .”Vamos seguir com a nossa expansão internacional! Depois de uma pop-up nos Hamptons (NY) e da loja no Aventura Mall, em Miami, agora vamos abrir um ponto de venda em Portugal. A partir deste mês, nós teremos um espaço dentro da loja Pau Brasil, em Lisboa. Recebemos sempre muitos pedidos de portugueses querendo comprar a marca, então estamos muito felizes e ansiosos para estreitar esse relacionamento!”, enumerou.

A modelo Gracie Carvalho é a estrela das fotos da nova coleção da Água de Coco, em cliques de Eduardo Rezende

Quer saber mais o que pensa essa empreendedora que enche os brasileiros de orgulho? Então vem ler a entrevista que fizemos com Liana, direto de Fortaleza, sobre assuntos como dificuldades de se trabalhar no Brasil, o futuro das semanas de moda, presença brasileira no exterior, e muito mais. Ah, e detalhe: as fotos a seguir são da novíssima campanha da Água de Coco, estrelada pela modelo Gracie Carvalho em cliques de Eduardo Rezende

Site HT: Qual a diferença da Liana Thomaz que começou a marca lá nos anos 80 para a Liana de hoje?
Liana Thomaz: Quando comecei, há mais de 30 anos, era uma jovem mãe que queria ter a minha própria fonte de renda. De lá pra cá muita coisa mudou, a empresa cresceu e hoje se tornou uma marca internacional. Junto dela também fui absorvendo conhecimento, me atualizando, tive que aprender a lidar com vários processos. O que não mudou mesmo foi a vontade de ver a Água de Coco crescer cada vez mais!

HT: Ser uma marca do Nordeste foi um empecilho em algum momento para entrar no mercado do Sul? Ou ser do Nordeste sempre foi um bônus?
LT: No início da Água de Coco a “moda” era muito concentrada no eixo RJ-SP. Tudo acontecia por lá e o olhar não se voltava para o resto do Brasil, então não posso dizer que foi fácil. Hoje isso já diminuiu um pouco. Acho que a internet ajudou muito a diminuir as distâncias e a ampliar o olhar para outros pontos do nosso país, que é tão rico! Hoje eu posso, do Ceará, ter acesso à uma marca do Rio Grande do Sul, por exemplo. E quando eu falo acesso não quero simplesmente dizer que posso comprar uma peça dessa marca, mas sim saber que ela existe, saber que pessoas a usam e, por último, comprar essa peça. Isso é maravilhoso!

HT: Nos últimos anos, as temáticas das coleções eram destinos internacionais. Nessa SPFW, a marca voltou os olhos para o Brasil. Por que falar do Brasil nesse momento? A moda também pode ser uma forma de levantar a auto estima do país?
LT: Nós sempre gostamos de falar sobre Brasil, já havíamos falado em 2015 (com Mãos que Fazem História, que falou sobre o Ceará) e em 2016 (quando exaltamos a Amazônia), depois demos uma volta por outros destinos e, agora, retornamos para nossa casa. O Brasil está passando por um momento difícil, mas nós não podemos nos deixar abater. A “Brasil com Z” veio para mostrar o melhor do Brasil, ressaltar o que temos de bom e isso é sim uma forma de levantar a nossa autoestima!

HT: A Água de Coco deixou de ser só moda praia e virou uma marca de lifestyle. Qual a importância, hoje em dia, de fazer este movimento de posicionamento?
LT: Nosso mix de produtos foi crescendo para atender as necessidades dos nossos clientes. Hoje as pessoas estão super ocupadas e com pouco tempo disponível para ir às compras, por exemplo. Então, uma vez que o cliente se identifica com a nossa marca, oferecer para ele uma gama de produtos maior é maravilhoso. Nas nossas lojas hoje é possível encontrar moda praia e casual, passando por roupas que caem muito bem para uma festa até a linha Casa Água de Coco, que traz o lifestyle da marca para produtos de casa. Tudo mantendo o nosso DNA.

HT: O Rio vintage é uma das inspirações da nova coleção. De que forma o Rio a inspira?
LT: O Rio de Janeiro é uma das cidades mais lindas do mundo. É uma beleza impossível de ser banalizada, que não cansa nunca. Não importa o número de vezes que você vá a cidade (ou mesmo se você mora lá), você sempre vai se surpreender com as paisagens, com a arquitetura, com a flora… É uma cidade inspiração pura!

HT: Como é seu processo de criação? Você costuma viajar para se inspirar? De onde vem a inspiração para tantas peças e tantas linhas por tanto tempo?
LT: A ideia macro de uma coleção pode vir de várias formas diferentes: pode surgir em uma viagem ou até mesmo de uma peça específica. Sempre que a ideia vem gosto de dividir com a minha equipe de estilo e, a partir daí, começamos a desmembrar a coleção em temas menores, que vão vir a ser as famílias que compõem cada coleção. Sempre que inspiração é um destino específico, nós viajamos para fazer uma imersão no local e buscar referências para compor a coleção.

HT: Em tempos de see now, buy now, acha que essa instantaneidade é um caminho sem volta? Como isso interfere no seu processo de criação?
LT: Desfilar uma coleção é gerar desejo, e disponibilizar esse desejo para compra logo após o desfile potencializa a venda. O mundo (e as gerações) de hoje estão muito velozes, então, se essa velocidade se mantiver, acho difícil voltarmos para o modelo anterior, onde desfilávamos uma coleção e ela só era colocada à venda seis meses depois. Nesse período de tempo há uma avalanche tão grande de informações sendo apresentadas todos os dias que, quando a coleção finalmente estivesse disponível, já não haveria mais desejo, já seria velho, outras coisas já teriam surgido pelo caminho. Acho que no processo criativo não há uma mudança considerável, já no processo de produção… É necessária toda uma reorganização.

HT: Qual a importancia de participar de uma semana de moda? Acha que esse ainda é o melhor formato para se apresentar a coleção?
LT: Os desfiles sempre acabam gerando muito desejo para os nossos consumidores e, quando falamos de SPFW, onde todas as atenções do Brasil e do mundo estão voltadas para aquelas passarelas, esse desejo é potencializado, o que acaba se refletindo em aumento das vendas.

HT: Qual a maior dificuldade de se empreender no Brasil?
LT: Sem dúvidas algumas das maiores dificuldades são a burocracia, as tributações e a concorrência desleal com a informalidade.

HT: Em tempos de crise, como se manter otimista à frente do seu negócio?
LT: Muitas vezes é em momentos de crise que encontramos oportunidades. Acreditamos muito no nosso produto e sabemos que, antes de qualquer coisa, nosso cliente busca qualidade, durabilidade… Continuamos investindo nisso para atravessar o momento conturbado do país.

 

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