Moda & Beleza

Jornalista francesa analisa objetos de luxo e o atual mercado de muitas cifras

Laurence Picot fala sobre valorização da mão de obra, técnicas locais e pesquisas de ponta.

Publicado em 02/09/2013 | Por Heloisa Tolipan

Por Beatriz Medeiros

O que diferencia um sapato comprado em uma fast fashion de um Christian Louboutin? O que faz uma sela Hermès ser considerada item de luxo frente às suas concorrentes de preços mais populares? A resposta para essas perguntas está nos detalhes que o coletivo francês LuxInside conseguiu captar na exposição ‘LuxInside – As marcas do homem’, que chegou ao hotel Sofitel, em Copacabana, na última semana, através de uma parceria entre a Aliança Francesa e o Institut Français, com patrocínio da Citroën, Sofitel, Cognac Louis XIII e Air France e apoio da Embaixada da França.

Em 14 imagens, o coletivo registrou 11 objetos de grandes maisons de luxo com uma técnica inédita de fotografia em 3D que esmiúça o interior das peças com a ajuda de um escaner usado na medicina radiológica, entre sapatos de Christian Louboutin, uma câmera Leica M8 e até um isqueiro Dupont. As imagens e objetos expostos na Cidade Maravilhosa até o dia 20 de setembro, antes de embarcar para São Paulo e, em seguida, para o Grand Palais, em Paris, foram selecionadas pela jornalista francesa Laurence Picot, que carrega em seu currículo passagens por grandes publicações de luxo do país e é uma expert no assunto.

Assim que aterrissou no Rio, Laurence contou que os franceses não sabem que a Louis Vuitton, uma das maiores marcas de luxo do mundo e uma verdadeira instituição do país de Luis XIV, usa mão de obra chinesa. Mas essa não é uma exclusividade da Maison, está se tornando comum a produção de produtos de luxo em países emergentes, como a Índia ou o Brasil. Se a valorização da produção artesanal, tradicional e local é um dos fortes pilares das mais clássicas grifes, qual é o diferencial e o espaço do luxo no mercado atual? Laurence nos responde na entrevista exclusiva a seguir.

Laurence Picot, curadora da exposição 'LuxInside'

Laurence Picot, curadora da exposição ‘LuxInside’

Heloisa Tolipan: Atualmente, no meio de uma crise econômica global, com as tecnologias e tendências amplamente divulgadas (estas, especialmente por bureaus de tendências mundiais), porque o luxo ainda é necessário? Algumas marcas como Zara e H&M, podem fazer um vestido que parece idêntico a um da Louis Vuitton algumas semanas após o desfile, por exemplo.

Laurence Picot: Isso é bem simples, desde que o luxo existe, a cópia existe. Nada é novo no mundo, é só mais rápido. Lembre-se que Coco Chanel decidiu permitir que as pessoas copiassem seus moldes, dando a elas moldes simplificados se elas tivessem o conhecimento necessário. O mesmo acontece com os pintores chineses, eles têm seus copiadores oficiais agora.

Entre H&M e Hermés, não estamos falando dos mesmos clientes e nem do mesmo orçamento. Mesmo que a aparência pareça a mesmo (na moda), o material e as técnicas não serão as mesmas, e nem as pessoas que o fabricaram. Os clientes precisam aprender sobre os sinais de qualidade, nós os esquecemos por 50 anos e agora precisamos reaprendê-los.

Atualmente, nós temos alguns escândalos surgindo também com marcas de massa pedindo a países como Bangladesh que fabriquem seus produtos. Há décadas, 10 fábricas são incendiadas por ano com todos os seus empregados trancados dentro delas. Então, eu diria que, com produtos luxuosos, o cliente deve estar sempre certo da qualidade do material, da ética na fabricação, a exclusividade das técnicas e o conhecimento transmitido de geração para geração. As pessoas que têm o dinheiro sempre vão escolher esse caminho.

O ponto importante é que o luxo inova e, após alguns anos, muitas técnicas e materiais ficam disponíveis para o grande mercado. Essa é a razão pela qual o luxo deve estar sempre um passo à frente.

HT: Por que os países europeus desvalorizam os produtos de luxo que são produzidos em países emergentes, como Brasil e China?

Laurence: Em primeiro lugar, como falei anteriormente, no mercado de luxo nós temos que estar certos do ambiente

em que os trabalhadores dos países produtores estão. Em segundo lugar, porque os nossos fabricantes têm um know how para produtos específicos há muito tempo. China, Brasil, Marrocos, Ìndia ou qualquer outro desses países deveria cuidar para que seu conhecimento próprio seja preservado, inovado, transmitido e aplicado em suas próprias produções ao invés de acabar com suas especialidades para fabricar produtos ao estilo europeu. Um exemplo: mesmo que a Louis Vuitton fabrique muitas de suas bolsas na França, parte da produção é deslocalizada. Uma fábrica foi aberta na Índia para produzir bolsas de couro na província em que o trabalho com bambu é forte. Em seis anos, todo o conhecimento sobre a criação com bambu desaparece. O bambu é usado para construir prédios em países que sofrem com terremotos, por exemplo, e, agora, onde eles serão fabricados?

HT: Por que você acha que algumas marcas globais que têm o feito à mão, a valorização e a divulgação dos materiais e profissionais locais como seus pilares mais fortes escolhem terceirizar sua produção?

Laurence: A construção de uma empresa mudou. Antes, era um negócio familiar e o interesse era dar como herança a seus filhos uma empresa saudável para os próximos 50 anos. O sistema econômico atualmente é baseado no mercado de ações e ter lucros anuais de dois dígitos. Mesmo que isso signifique usar um novo modo de escravidão.

O economista americano que impulsionou esse sistema, cujo nome esqueci, fez seu pedido de desculpas há 5 anos, quando percebeu o desastre que era a indústria americana toda deslocalizada. Mas o dinheiro agora está viajando, esquecendo a parte social que qualquer negócio tinha na sociedade anteriormente.

Se é difícil lutar contra esse sistema de produção em massa, é mais fácil para o mercado de luxo. Essa é a razão do nosso trabalho no projeto ‘LuxInside’: mostrar como muitas pessoas trabalham normalmente em um produto de luxo, em boas condições e com orgulho. Nesse sentido, o luxo pode, e sempre deveria poder, ser social.

Sapato de Christian Louboutin fotografado para a exposição 'LuxInside'

Sapato de Christian Louboutin fotografado para a exposição ‘LuxInside’

HT: Em meio à crise econômica e à popularização dos modos de produção, o luxo está ameaçado?

Laurence: As indústrias de luxo sempre usam tecnologia, desde a França de Luís XIV, em 1665. Os produtos de luxo sempre trazem as últimas inovações, mesclando habilidade e ciência. O principal é que as indústrias de luxo ainda devem representar uma forma de pesquisa em laboratório, e seus clientes financiam essa pesquisa comprando seus produtos. Depois de um tempo, essas inovações chegam aos clientes de massa. Por exemplo, as janelas. Foram necessários 180 anos de pesquisa da Saint Gobain para descobrir um modo barato de construir janelas. Antes disso, apenas a realeza e a aristocracia tinham o dinheiro para isso. Depois de 1830, a energia elétrica chegou a qualquer casa. Agora, Saint Gobain cria vidros inteligentes, transparentes, mas capazes de iluminar, aquecer, transmitir sons e mais tantas outras qualidades. Esses tipos de vidro são muito caros agora, mas serão os padrões do futuro.

O mesmo acontece com os cosméticos. A fórmula mais recente, criada pelos laboratórios de pesquisa das empresas de cosméticos, é incluída nas coleções de luxo (como a La Prairie versus a Nivea ou a Clair de Peau Beauté versus a Shiseido), e, após cerca de três anos, chega à composição dos produtos mais populares.

HT: Aqui no Brasil, recentemente, alguns estilistas do Fashion Rio e da São Paulo Fashion Week fizeram um manifesto para chamar a atenção do governo para a indústria da moda porque os tecidos e fábricas asiáticos estavam tornando a competição mais difícil, já que os produtos deles são mais baratos frente aos mais exclusivos que os designers brasileiros produzem. Esta é uma ‘tendência’ mundial? Quais são as soluções possíveis para tornar o produto brasileiro mais acessível frente aos chineses, por exemplo?

Laurence: Sim, está é uma tendência forte no Ocidente, Austrália e Japão, mas não ainda no resto da Ásia. Estamos falando de luxo, a ideia não é tornar produtos acessíveis, mas desejáveis para a maior quantidade possível de pessoas. Os valores do luxo são muito importantes, assim como as dimensões ética e ecológica, o número de trabalhos gerados ao país… Os designers podem lutar para que a qualidade e as inovações sejam ressaltadas e também podem lutar captando conceitos complicados e adaptando-os aos conhecimentos especiais dos artesãos brasileiros, para não ser só uma cópia. Acima de tudo, o público precisa mudar seu modo de comprar e se tornar um consumidor-ativista, que, ao comprar, mostra o tipo de mundo que deseja viver. Obviamente, pessoas pobres não têm escolha, mas a classe média e a alta, sim.

Se você compra por prazer, o seu prazer também deveria ser se sentir parte de sua comunidade, preservar a cultura de seu país ou a cultura de outro país que você admira, participar das inovações necessárias para se viver melhor. Na França, é possível comprar sapatos masculinos feitos sob medida, com qualidade absurda, que duram 40 anos pelo mesmo preço de quatro pares de sapatos esportivos da Nike. Parece caro, mas os Nikes vão durar um ano… É uma escolha de vida.

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