Incubadora de talentos: Prêmio UCS/Sultextil, realizado na Universidade de Caxias do Sul (RS), revela o poder dos jovens na moda brasileira


A formanda Kimberly Santini foi a grande vencedora com um look que interpretou o tema sobre viagem. ela ganhou passagem para Paris onde visitará feiras de moda. A Menção Honrosa foi para Fernando de Abreu Lenzi, que abordou o singular na contemporaneidade

Os holofotes da moda são plurais e, certamente, podem e devem estar fora do famoso eixo Rio-São Paulo. Foi o que constatei in loco sendo convidada para integrar o júri da edição 35 do Prêmio UCS/Sultextil, uma parceria entre a Universidade de Caxias do Sul (através do Curso de Tecnologia em Design de Moda) e a Sultextil, indústria consolidada no mercado como referência em tecidos de moda e que tem como diretora de Desenvolvimento Paola M. Vianna Reginatto. Foi em Caxias do Sul que, esta semana, conferi o trabalho de formandos em Moda repletos de sangue na veia para se tornarem novos talentos. Fazendo um paralelo com que Paola M. Vianna Reginatto sempre fala sobre a empresa que teceu sua história na Serra Gaúcha com metas, criatividade e modernidade, a gente pode frisar que esta, sem dúvida, foi a tônica daqueles jovens com olhares tão cheios de esperança.

Entrada da Universidade de Caxias do Sul para o Prêmio UCS/Sultextil (Foto: Henrique Fonseca)

Entrada da Universidade de Caxias do Sul para o Prêmio UCS/Sultextil (Foto: Henrique Fonseca)

Conheci há anos o trabalho desenvolvido pela UCS através do diretor de marketing da Dell Anno, Edson Busin, que sempre teve olhos de lince para a simbiose moda + arquitetura, uma soma que pode ser traduzida em design e décor. Foi um prazer retornar à Serra Gaúcha para a edição 35 do Prêmio UCS/Sultextil. É um grande incentivo à formação profissional de designers pelo futuro da moda no Brasil já que proporciona ao vencedor uma passagem e estadia de uma semana em Paris para visitar feiras de moda. As peças apresentadas na passarela são o resultado do Trabalho de Conclusão de Curso. Todos os looks são confeccionados com tecidos Sultextil e apresentam composições diferenciadas, estruturas trabalhadas e harmonia de cores.

Entre os jurados estava também um dos maiores estilistas de moda do país, Walter Rodrigues, que adotou Caxias do Sul como lar e desenvolve uma série de ações para Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal) coordenando o Núcleo de Design, além de ser consultor do Instituto by Brasil e trabalhar em projetos que evocam a identidade local e como transferir esta riqueza para produtos  – como a palavra moda ecoa em um megafone tanto naquele campus gigantesco da UCS como por toda a região da cidade e entorno, onde estão concentradas inúmeras fábricas referências nacionais em potência nos setores têxteis, calçadistas, de acessórios, confecções e moveleiros.

Pude rever amigas como a coordenadora do Curso de Design de Moda, Mercedes Lusa Manfredini, as professoras Adriana Job Ferreira Conte e Beth Venzon que como eu contei aqui, em 2015, respiram uma vida acadêmica totalmente em sintonia com a realidade da indústria da moda e seus criadores e como lutam bravamente, como formiguinhas unidas, para fazer a roda da moda girar. Todas são autoras de livros.

Para esta maratona de moda, o tema foi Reinventar, renovar algo a partir do que já existe. Como frisaram as professoras é hora de reinventar produtos e processos, dos mais simples aos mais complexos, sejam adaptações de algumas partes, sejam inovações completas. Ousar, reinventar-se e, consequentemente, reinventar o entorno. “Os desafios são geradores de novas formas de pensar e de agir, desacomodam e levam ao desenvolvimento de novas ideias. É fundamental pesquisar para conhecer cada vez mais possibilidades criativas e aplica-las de forma produtiva e transformadora”. Esta é a síntese da UCS sobre a maratona de moda.

Na imersão que eu fiz na universidade novamente pude observar a ênfase no diferencial de moda autoral com um handmade. Costumo dizer que o artesanato, o artesanal brasileiro é a nossa Ferrari,  uma chancela que um país como o Brasil, hoje enxergado de forma tão positiva na moda no inconsciente coletivo mundial, tem toda propriedade para ter.

Às vésperas do Inspiramais – Salão de Design e Inovação de Materiais, realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), pelo Footwear Components by Brasil e pelo Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), nos dias 3 e 4, em São Paulo, incluindo a apresentação de cerca de 600 produtos inéditos que servirão como base para os setores de calçados, acessórios, moveleiro e de confecção, conversei com Walter Rodrigues, coordenador do Núcleo de Design, que cedeu à UCS todo o seu acervo de moldes e das roupas exclusivas e dos vestidos de noivas para serem estudados pelos alunos. Em seus estudos, o estilista acredita que a palavra-chave para o Inverno 2018 será “leveza”. De acordo com o estilista, a ideia para a estação surgiu como consequência oposta ao atual momento que estamos vivendo. Seja na política, economia ou sociedade, a aposta de Walter Rodrigues é que a moda seja o contraponto deste panorama conturbado. “Foi justamente por causa deste cenário intenso que estamos protagonizando que fomos buscar o sentido de Leveza. 2018 será um ano muito importante para nós brasileiros, teremos a chance de votar e precisaremos estar leves em todos os sentidos para tomarmos as decisões corretas”, destacou o estilista que acrescentou à explicação uma obra de Gilles Lipovetsky, escrita em 2015.

O estilista Walter Rodrigues se mudou para Caxias do Sul e parte do seu acervo está sob os cuidados da Universidade de Caxias do Sul para que os alunos tenham a oportunidade de mergulhar na história (Foto: Henrique Fonseca)

O estilista Walter Rodrigues se mudou para Caxias do Sul e parte do seu acervo está sob os cuidados da Universidade de Caxias do Sul para que os alunos tenham a oportunidade de mergulhar na história (Foto: Henrique Fonseca)

“Ele pontua a mudança em curso sobre os valores do que é pesado, símbolo de riqueza, quebrando o paradigma de que a leveza é um sinônimo de barato e ruim. O pensador expõe as mudanças ocorridas através da nanotecnologia, das microcirurgias, dos chips que nos permitem ter à mão um celular que é ao mesmo tempo uma máquina fotográfica, um computador, um aparelho de som e um enorme arquivo dos dados da sua vida. Há mensagens por toda a parte, desapegue, tenha apenas o necessário, encolha a bagagem, esvazie a mente. Compartilhe mais, acumule menos. Substitua posse por acesso, tire as ideias do papel e jogue-as na nuvem, como diz nossa colaboradora Vanessa Barone”, completou.

Os 12 alunos que apresentaram na passarela seus Trabalhos de Conclusão de Curso receberam tecidos de lançamento da empresa Sultextil, por sorteio em pacote fechado, um mês antes do desfile, no ateliê de moda do curso. Nesses dias, os alunos desenvolveram a criação inspirados no tema “Reinventar”. Segundo o regulamento, nesta tradução “as influências que chegam dos mais diversos pontos do planeta são traduzidas em produtos. Daí a necessidade da criação de produtos justos, corretos, limpos, que atendam ao desejo de respeitar o precioso tempo e o espaço que vivemos. Queremos saborear cada momento de modo único e, para isso, faremos escolhas que tenham real significado para nós”.

Antes do desfile no qual os alunos concorrem ao Prêmio Sultextil, eles apresentam três looks de suas coleções criadas especialmente para o Trabalho de Conclusão de Curso.

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Já as peças confeccionadas para o desfile no qual concorrem ao Prêmio Sultextil foram julgadas levando em consideração também o portfólio criativo e técnico de cada aluno, observando a criatividade, fidelidade ao tema e execução da peça. Além do prêmio principal é concedida também uma Menção Honrosa.

O júri foi integrado por mim + Walter Rodrigues, Luís Seidl, de Caxias do Sul, a jornalista Mariana Kalil e a produtora de moda Madeleine Muller, de Porto Alegre. Depois de analisar a criação de trajes/looks de 12 alunos, em tecido Sultextil. tínhamos que escolher um vencedor, que ganharia uma viagem e estadia de uma semana em Paris, com a oportunidade de participar de uma das principais feiras do setor têxtil, como a Première Vision. Além disso, tínhamos pela frente o trabalho de chegar a um consenso sobre a Menção Honrosa.

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Analisamos os looks dos alunos, vestidos nos manequins de costura e expostos em uma sala para a comissão julgadora e fomos conferir na passarela o desfile dos Trabalhos de Conclusão de Curso de Design de Moda dos alunos dentro da programação da XX Maratona de Moda da Universidade de Caxias do Sul. Ali, cada aluno apresentava três looks, sem a conotação de julgamento para o concurso. Em seguida, no mesmo Espaço Alternativo do Campus 8 da UCS, os alunos participantes do concurso desfilaram os trajes/looks que analisamos anteriormente vestidos em modelos profissionais. A trilha sonora e a produção ficaram a cargo dos alunos do Curso de Música da Universidade.

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Aqui abaixo você confere o que foi apresentado pelos 12 alunos que concorreram ao Prêmio UCS/Sultextil:

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E vamos à vencedora do Prêmio UCS/Sultextil. Ela é Kimberly Santini. Ela criou a coleção Go inspirada no desejo de viajar e em uma frase do poeta Mário Quintana: “Viajar é trocar a roupa da alma”. Segundo a aluna, poucas atividades expressam tão claramente a busca pela felicidade, “pois entramos em um estado de espírito que transcende o sentimento”. Ela pensou nos turistas, mochileiros, ou simplesmente amantes de viagens em busca da liberdade. Pensou em roupas utilitárias e seguras, enfatizando um trabalho despojado com uma estética moderna. Criou um body, um casaco amplo com gola esporte, amarração na cintura, bolsos internos, bolsos/mochilas descartáveis na frente através de zíperes e por baixo uma mochila inserida nas costas, além de uma calça reta, de comprimento midi, com zíperes no centro até a lateral, que, ao abrir, existem outros bolsos internos. Uma peça super comercial com alto valor agregado que poderia estar em qualquer vitrine de uma loja famosa.

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Já o ganhador da Menção Honrosa, Fernando de Abreu Lenzi, batizou sua criação de “Singular”. Segundo ele, na contemporaneidade o que rege é o singular. A busca constante em ser único e os valores que são divididos com o mundo é o grande desejo de todos. Baseado na valorização do que é ímpar, elegeu-se como ideal de representação formal as impressões  digitais, anatomicamente conhecidas por Datilograma que é a denominação técnica dada às elevações da derme na polpa dos dedos das mãos. Além de ser a forma mais trivial de identificação não apresenta mudanças ao longo da vida, concretizando a unicidade nas peças da coleção. Ele criou um casaco com detalhes de bordado em linha que representam as impressões digitais através da forma e relevos, uma calça pantalona e cropped com listras que quando em movimento também fazem o papel de figurar as linhas do datilograma. Uma pochete transversal com fivela e regulagem dá a tônica da contemporaneidade.

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A noite foi coroada com um jantar no histórico Hotel Samuara com a participação de representantes da reitoria da UCS, do Curso de Tecnologia em Design de Moda, dos jurados, da ganhadora do concurso e do aluno que recebeu Menção Honrosa, além do presidente da Sultextil e da diretora de Desenvolvimento, Paola M. Vianna Reginatto, que mais uma vez fez um brinde à moda brasileira.

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