
Moda é contar uma história cercada de ancestralidade e os saberes passados entre gerações foram primordiais para a criação do projeto Oca Arte Brasileira, coletivo de mulheres artesãs – são mães solo, com filhas e filhos atípicos, mulheres sem filhos, muitas fora de oportunidades no mercado de trabalho. Elas são acolhidas e produzem peças executadas a partir da moda decolonial indígena, conectando cultura, arte e os direitos das mulheres. Oca Arte Brasileira, coordenado por Papiõn Cristiane Santos, integra a rede Oca Observatório Cultural das Aldeias, projeto social, no qual são agregados o ativismo, a luta contra a intolerância religiosa aos povos indígenas, o direito das mulheres, o cuidado com a saúde. E assim aplaudimos a estreia de a Oca Arte Brasileira na quarta edição do Festival ID:Rio, multiplataforma que faz a sinergia entre moda, capacitação, empreendedorismo, jornada de conhecimento, gastronomia e música, impulsionando a indústria criativa do estado do Rio de Janeiro, com especial atenção ao microempreendedorismo.

Papiõn Cristiane Santos (de jeans, ao centro) no backstage do desfile de estreia da Oca Arte Brasileira (Foto: Thais Mesquita)
Papiõn Cristiane Santos comenta que a estreia da marca para adultos foi uma grande experiência. “A nossa geração da renda “sempre veio das cestarias, artesanato em miçangas e sementes conforme a região e etnias, e roupas para crianças. Com a participação do ativismo social em cada estado, como Pernambuco, Ceará, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo, iniciamos os trabalhos com artesanatos e as vendas em feiras. Hoje trabalho com três etnias: Guarani Mbyá, em Maricá (RJ), do Núcleo Marina Kerexu; com o povo Tupinikim, através de Lua Tupinikim Arte em Madeira, e os Pataxó, com Rita Pataxó, pioneira no Rio de Janeiro em feiras”.

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)
A coleção apresentada foi batizada “Raízes” e é uma ode à fundação de Niterói por Arariboia, unindo a história de vida de Papiõn Cristiane Santos com a de sua mãe, Sebastiana Pantoja de Santana, em conexão com a aldeia Ka’Aguy Hovy Porã, que significa “Aldeia Mata Verde Bonita”, em São José de Imbassaí, no município de Maricá, e o núcleo de Marina Kerexu Silva com os artesanatos criados para a coleção. “Raízes são as lembranças infantis e da atualidade”, afirma Papiõn Cristiane. Na passarela, os trabalhos feitos à mão tiveram como inspiração… “Nossa Terra Niterói!”, diz com ênfase Cristiane, acrescentando: “Arariboia (1520-1587), chefe do povo temiminó, e sua história da fundação da cidade de Niterói. Foram as mãos indígenas! Niterói é Terra Indígena, Arariboia com sua visão de gestão cria Niterói. Também temos a inspiração dos traços de Oscar Niemeyer (1907-2012) presentes na cidade”, revela Papiõn Cristiane.

Coleção “Raízes” (Foto: Divulgação)

Coleção “Raízes” (Foto: Divulgação)
A meu pedido, ao fazer um flashback de sua trajetória, Papiõn Cristiane conta: “Um dia, observando os bordados feitos por minha mãe, Sabá ( Sebastiana Pantoja de Santana) me encantei com os grafismos étnicos. Eu os vejo desde criança até os dias atuais, pois minha mãe, aos 73 anos, ainda borda. Eu era menina levada e via as blusas, saias e roupas infantis sendo produzidas. Mãe é de pouca fala, mais conta que teve malária aos 6 anos e foi viver na Guiana Francesa, onde aprendeu com as freiras a bordar e, depois, com sua madrinha, no Oiapoque, no Amapá. E, assim, nos ensinou a arte de bordar, costurar. Ela é nosso porto seguro e um dia sonhou ter máquinas em um ateliê e conseguimos realizar este sonho. Sempre digo que empresto minha mãe para as mulheres que compõem o Oca, pois ela é amiga de todas e nos fortalece a cada encontro”.

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)
Papiõn Cristiane nasceu no Oiapoque, no Amapá, e veio aos seis anos com a família para o Rio de Janeiro. Ela tem duas filhas, uma neta nascida a poucos dias, dois gatos, mora entre Niterói e Rio de Janeiro e revela um sonho: “Ter uma loja na saída das barcas e mudar definitivo para Niterói. Minha inspiração é mostrar nossa arte para as pessoas aliada ao meio ambiente e a ancestralidade. Cada roupa tem um pouco da história de uma aldeia e o trabalho das mulheres”.
“Tenho as minhas amigas que atuam voluntariamente na Oca Arte Brasileira, digo que somos irmãs e cuidamos e nos preocupamos uma com a outras. No nosso núcleo da Oca, onde estão por perto Maristela, Erika, Vivi, Marina, Juliana, Yasmine, Marilza, Antônia… Em São Paulo, Rita e Cristiane; no Paraná, Juliana Kerexu; no Ceará, Nake. Sem elas não há o coletivo que nos une, fortalece. Se uma está mal, a outras percebe e nos comunicamos para ajudar, e falo sempre: ‘somos todas dona na Oca’, e é ali que colocamos nossas redes e dialogamos, protegemos e nós amamos irmãmente”.

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)
A coordenadora do projeto Oca Arte Brasileira revela um triste episódio, que foi ressignificado e proporcionou a ela mais força ainda para seguir em frente. O ano era 2017. “Após sofrer ataques racistas, veio o desânimo e pensei em largar tudo e ser mais uma cidadã sem referência étnica. No entanto, ouvi do cacique Raoni Metuktire que sou uma onça, que carrega um facão abrindo caminhos para quem vem das aldeias. Compreendi a minha missão: ajudar sempre o próximo”.
“A moda decolonial entrou na minha vida quando comecei dando aula de Direito Indigenista, tratando da apropriação cultural, a história das roupas indígenas de 1500 até a atualidade, em escolas de moda e no Fashion Revolution Brasil. A Ewa Poranga, por exemplo, é uma escola livre de ensino de moda pluricultural. Também participei do Brasil Eco Fashion Week com os vestidos infantis junto ao Projeto Obirin e escola Ewa Poranga”, relembra a coordenadora do projeto Oca Arte Brasileira.

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)
O que vemos na moda decolonial indígena? O grito do ativismo de quem somos, a história indígena sendo recontada em moda. O cuidado dos grafismos étnicos não serem os grafismo corporais de ritualística e, sim, o grafismo que fazemos para dizer que estamos alegres, felizes, um peixe, uma árvore, grafismos são a identidade de um povo a posição social, a morte e a vida – Papiõn Cristiane Santos

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)
Para o ID:Rio Festival, Papiõn Cristiane comenta que foi criada uma moda muito autoral. “Niterói é nossa terra e tem uma reparação histórica com os povos indígenas que saem de Camboinhas e moram hoje em Maricá. Trouxemos Marina Kerexu e seu núcleo que, através do artesanato, compõem as roupas. Somos parte dessa cidade, participamos da secretaria de Mulheres de Niterói, nossas reuniões são no Espaço Empreender, na secretaria, onde somos acolhidas. Estar no evento, de início um susto. Agora, a possibilidade de trazer essas mulheres e suas artes é muito gratificante. Mostrar a elas que podem, sim, estar em um evento grandioso, onde às vezes achamos que não podemos”.
Poder empoderar uma mulher indígena ou outras mulheres e incentivar o amor por elas mesmas que, às vezes, fica escondido, a moda indígena tem uma grande contribuição. E está em conexão com corpos diversos, liberdade, e aliada à autoestima das indígenas que produzem também. Nossa moda é consciente, lembrando nossas avós: ‘faça uma roupa se for precisar dela’, ‘reforme sua roupa’, ‘faça sob medida’, a que comprou e não quer mais, nos devolva e crie uma fidelidade com a marca. Quem não gosta de ter uma peça só sua criada nas suas medidas? Assim é a Oca – Papiõn Cristiane Santos
Papiõn Cristiane Santos revela que a idealização das peças foi de Claudio Silveira, o criador e diretor-geral do ID:Rio Festival. Todas com ênfase na responsabilidade social, socioambiental, inclusão e ações sustentáveis. Claudio frisa que “o compromisso do ID:Rio sempre foi o de incentivar atitudes inovadoras para toda a indústria criativa no estado, promovendo o desenvolvimento das cidades por meio de uma economia mais inteligente, com especial atenção ao microempreendedorismo”.

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)

Coleção “Raízes” (Foto: Thais Mesquita)
Claudio Silveira nos incentivou colocando em um papel várias possibilidades de criações e os tecidos foram pensados para uma duração. Um dia, ao invés de ir para o descarte, essa roupa pode voltar para a Oca e se transformar. O empreendedorismo faz parte da Oca, entre as artesãs temos as mães atípicas, costureiras de Niterói para gerar renda. Precisamos e temos a preocupação de quem faz a nossa roupa e para onde vai quando não a querem mais. Trazer essa conscientização do meio ambiente em tecidos de algodão e linho e uma preocupação constante, faz o planeta agradecer – Papiõn Cristiane Santos
As roupas e os acessórios que integram a coleção lançada no ID:Rio Festival 25 poderão ser feitas sob medida para a cliente. “Quando os povos indígenas trazem essa moda diferenciada, portas são abertas. Nosso público são mulheres que militam e gostam da cultura indígena. Na Oca, a nossa preocupação é imensa na realização de cada roupa, sem pressão para a fabricação. Cada uma tem o seu tempo. Acredito também que o upcycling tem contribuído para um novo olhar, o inovar e recriar”, frisa Papiõn Cristiane Santos, acrescentando: “Moda sempre foi um ato de amor e carinho”.
E como você, Papiõn, mulher empreendedora que agrega outras com trabalhos de excelência, se sente ao ver a Oca aplaudida por tantos? “Tudo começou com um vestido de linho e um cocar pintado. O vestido de criança tinha bordado casinha de abelha e artes indígenas. O trabalho foi selecionado entre 200 pessoas. Foi um frio na barriga e mil desafios. Ganhamos do Claudio Silveira desenhos com as mais diversas possibilidades, nos dando a liberdade do criar, de empreender. E assim tivemos as artes indígenas criadas especialmente para o evento, roupas com pinturas étnicas e a oportunidade de mostrar o quanto Niterói é indígena. Um presente! E estamos confiantes, com autoestima de todas elevada e que fique assim para sempre. É o início dos sonhos se realizando e quem sabe uma loja Oca Arte Brasileira perto de Arariboia. ID:Rio Festival, evento que traz reconhecimento, esperança, autoestima e realiza sonhos”, conclui.

O sorriso e a emoção de Papiõn Cristiane Santos: “Moda sempre foi um ato de carinho” (Foto: Divulgação)
O ID:Rio 2025 é apresentado pela Enel com patrocínio do Governo do Estado do Rio de Janeiro, através da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. O Festival conta com o apoio da Secretaria Municipal da Mulher de Niterói e do Clube Central de Icaraí, com realização da Equipe de Produção.
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