Moda & Beleza

Em meio às reivindicações sobre o decreto presidencial que extingue reserva na Amazônia, Triya desfila coleção inspirada na brasilidade de 1500 na SPFWN44

Desde a última semana, a notícia de que o presidente Michel Temer poderá permitir a exploração mineral de uma área de quatro milhões de hectares na Floresta Amazônica vem mobilizando cidadãos famosos e anônimos por todo o país. Além das redes sociais e noticiários, a temática também ganhou destaque na maior semana de moda da América Latina em uma ironia necessária do destino

Publicado em 29/08/2017 | Por Julia Pimentel

*Com Dudu Altoé

Assunto dos últimos dias nas redes sociais e noticiários brasileiros, a Floresta Amazônia foi um dos elementos da inspiração do desfile da Triya no segundo dia de SPFW. Em meio às reivindicações contra o decreto presidencial que poderá extinguir a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), a grife de moda praia teve uma oportuna coincidência. Na apresentação com inspiração em um novo olhar sobre o Descobrimento do Brasil, a grife não se calou frente à atual temática. Ao fim do desfile, a diretora criativa da marca, Isabela Frugiuele, agradeceu aos aplausos do público com a mensagem que traduz a atual campanha contra a decisão de Michel Temer: #TodosPelaAmazonia. Em uma ironia do destino, a Triya reforçou a ideia de que a moda é um reflexo da vida fora das passarelas e trouxe o seu protesto oportuno de maneira luxuosa à maior semana de moda da América Latina. Vamos ao desfile!

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A Triya volta seus olhos para o descobrimento do Brasil ao apresentar a coleção Verão 2018 intitulada “Gaia”. A partir de um poema do poeta modernista Oswald de Andrade, a diretora criativa Isabela Frugiuele formatou uma verdadeira homenagem à fauna e à flora brasileira, e, mais ainda, aos povos indígenas que aqui habitavam na chegada dos portugueses. “A gente fala sobre o descobrimento do Brasil, mas ao contrário. É uma alegria, o Brasil descoberto, essa exaltação da terra e da natureza”, explica a estilista. O styling afiado de Felipe Veloso deu um toque extra ao conceito. “Esse desfile é especial porque é muito difícil conseguir fotografar a campanha antes da apresentação. Muitas vezes em moda a gente não consegue estruturar a tempo e, nessa coleção, conseguimos”, celebra Veloso. “Queríamos falar sobre esse ‘reolhar’ para o mundo, para a natureza; é até engraçado, agora que esse tema se tornou um assunto mundial; mas na verdade é uma conexão, uma conjuntura de coisas que foram caminhando e dando certo”, confessa.

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O stylist revela que, para a Triya, a dedicação vai além. “Quando se trabalha há algum tempo com uma marca, vai-se refinando a sintonia e a comunicação. Com as meninas, começamos a pensar a coleção três meses antes. Participo do tema e vamos desenvolvendo o conceito juntos, todos os looks e estampas, a quatro mãos”. E ele aponta a primeira peça do desfile, usada também no vídeo de campanha, como sua favorita. Um maiô que carrega uma folha da planta caladium, em formato de coração, simbolo de brasilidade e encontrado com fartura pelos quatro cantos do nosso país.

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A matriz colonial inspirou, pois, alguns momentos da modelagem, como corselets, espartilhos e fraldas em releituras confortáveis, como pede a cartilha geral do beachwear. Porém, não só de peças de “época” vive a coleção. “A gente tinha vontade de fazer tangas, coisas mais primitivas, e o resultados são as calcinhas super sexies que parecem deixar a mulher nua, mas quando ela as vestes, não se vê”, comenta Felipe Veloso sobre o modelo composto apenas por tiras. Essa estética tribal foi mais além, inspirando também usos exóticos para a seda, como a transformada em roletê para confeccionar o tressê da cestaria indígena, além dos cipós feitos com roletê de lycra.

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O grande experimento da grife, a bem da verdade, foi com a estamparia a partir de uma cartela de cores multicolorida, pautada por tons de verde, rosa e azul celeste. “Usamos uma técnica diferente da das imagens vetorizadas, padrão da estamparia digital para a moda praia. Ela simula uma gravura à mão livre, com giz ou pinceladas, que remete aos desenhos de observação dos exploradores portugueses na época da chegada ao litoral brasileiro”, explica a diretora criativa. Adoramos, ainda, o trabalho de estamparia tribal rebordada em alguns vestidos, dignos de um coquetel à beira da piscina do Copacabana Palace.

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E também tivemos a presença do upcycling. Algumas peças em denim foram criadas a partir de calças jeans doadas, que foram esterilzadas e serviram de base para criação de maiôs e biquinis exclusivos, algo super em sintonia com a moda upcycling que tanto se comenta. “O bacana é que cada peça tem uma cara, já que as calças originais traziam lavagens, rasgos, furos e puídos muito particulares”, explica Isabela.

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Para finalizar, perguntamos sobre o novo perfume loungewear que a moda praia vem já há algum tempo assumindo, no qual as saídas de praia ganham novos usos, com status de moda descomplicada para qualquer momento do dia. “A gente sente muito esse fenômeno. Mesmo os maiôs, eles estão servindo de bodies. Costumo dizer que “a lycra invadiu a cidade”, brinca Frugiuele.

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Os sapatos, uma parceria da Schutz, fazem parte de uma coleção com as estampas do desfile, e estavam disponíveis para compra em uma loja pop-up na saída do desfile da Triya. Já a coleção estará na loja a partir de hoje, terça-feira, 29, em uma primeira entrega – de três – com as principais peças que foram apresentadas na Bienal.

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