Moda & Beleza

Em BH, a “Freira Hipster” apresenta um mercado feito para e pelos jovens que se cansaram de seguir as regras do mainstream

Da moda à decoração, capital mineira entra para o circuito de renovação de uma indústria criativa que parece se fechar a cada dia que passa

Publicado em 25/11/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por João Ker

Para aqueles que nunca tiveram a oportunidade de presenciar tal fenômeno, o povo mineiro é conhecido pelo jeito como se produz para qualquer acontecimento mínimo e isso não é exagero. Ao contrário dos cariocas, que conseguem casar chinelo com calças jeans ou sair de shorts para qualquer compromisso que tenham, o pessoal do “uai” sai montado até para ir ao supermercado. Não que isso seja um defeito, é apenas uma característica que serve para entender como o estado leva a sério a moda que produz, a qual é cheia de acabamentos artesanais e quase sempre conta com uma mãozinha daquela costureira que atende à família inteira há anos. Mas, assim como no resto do Brasil, Minas também tem se rejuvenescido e entrado no circuito alternativo da indústria fashion, abrindo espaço para o sangue novo através de feiras, bazares e encontros que vêm se espalhando por aqui e por lá. De passagem por Belo Horizonte, fomos visitar a Freira Hipster no último domingo (23/11) e conferir de perto como essa nova onda tem se propagado e conquistado a turma descolada da capital.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Já no nome, o evento faz menção a uma das grandes atrações culturais de BH, a “Feira Hippie”, que invade a Avenida Afonso Pena todos os domingos e atrai tanto os locais quanto os turistas, disponibilizando todos os tipos possíveis e imagináveis de produtos feitos em Minas, do artesanato e da decoração ao vestuário e à culinária. Mas, a Freira é menos acessível do que a Feira e está localizada no bar/restaurante/espaço gourmet Meet Me At The Yard”, que por si só já é uma atração à parte, com um cardápio moderno de dar água na boca e decoração que parece ter saído de algum canto underground em Nova York (sem falar que por lá rolam algumas aulas da Perestroika durante a semana). O evento conta com apenas oito marcas, sendo que nenhuma concorre com a outra. Assim, um estande está especializado em moda feminina, outro em masculina, um terceiro para calçados e por assim vai. E isso tudo foi ideia do trio Mariel Dodd (24), Paula Albino (27) e Eliza Guerra (29), que se conheceram “na vida” e se tornaram amigas.

Este slideshow necessita de JavaScript.

“A gente gosta de produzir. Fizemos um evento com duas marcas de moda antes e então pensamos em criar algo nosso”, contam as meninas que, como boas mineiras, também aparecem superproduzidas da make ao salto. “Começamos a idealizar o evento e resolvemos fazer esse jogo de palavras com a Feira Hippie. ‘Não é uma feira, é mais hipster do que hippie…’ e então nasceu a ideia. Todas as marcas escolhidas produzem suas próprias peças – não são revendedoras – e nenhuma delas possui alguma loja física”, continuam, ressaltando que a moda mineira tem como uma de suas características principais o cuidado com acabamentos.

É esse o caso da LED por Célio Dias, que você já conheceu aqui quando foi lançada. Focada na mineira faceira que está de bem com a vida e com o próprio corpo, a marca conta com a colaboração daquelas costureiras tradicionais que comentamos acima e tem feito um sucesso absurdo em apenas dois meses de lançamento, mesmo que venda as peças apenas no ateliê ou via Facebook. “O legal é que conseguimos criar um público de ‘ledetes’ fieis”, comenta Tiago Divino, diretor de marketing da grife. “Antes daqui nós só estivemos na Feira Baú [outra já tradicional em BH] e realizamos um chá no estúdio para apresentar a coleção. Com isso veio o boca a boca e o engajamento nas redes sociais, que também ajudou bastante. Praticamente tudo que anunciamos foi vendido, só sobrou o que está nas araras”, conta, contabilizando uma saída surpreendente para a tiragem de 420 peças realizada inicialmente.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Marcas novas são o que não faltam em feiras desse tipo, mas a Freira Hipster parece ter pegado todos os recém-nascidos da maternidade fashion e agrupado-os no Meet Me. A Constantine, por exemplo, é uma marca criada há apenas um mês por Cristina Oya (37) e Mariana Biazio (28), especializada em cintos de couro, todos produzidos à mão. “Foi meio corrido, mas conseguimos fazer tudo a tempo. O estilo da marca reúne tudo aquilo que a gente gostaria de ver nas lojas, mas não encontra”, comentam as meninas, mostrando as peças que variam entre R$89 e R$175 e atendem tanto os mais extravagantes quanto os mais discretos.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Com dois aninhos de idade e também inserida no universo dos acessórios, a Misfit representa oficialmente as “jóias” e a moda praia no evento, com todos os biquínis feitos inteiramente de crochê. “São todos feitos à mão, com lycra e elastano, o que não deixa eles incomodarem quando estão molhados. Os colares, brincos, anéis e pulseiras também são todos produzidos manualmente, com pedras especiais que eu mesma seleciono aqui em Minas Gerais, por Teófilo Otoni, Corvelo ou Corinto. Assim, cada peça aqui é exclusiva”, explica Teca Guimarães (26), responsável pela marca que tem como diferencial “tudo o que é fora do padrão, com os cristais e todas essas coisas de energia e da natureza”.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Para os pés, ASapatilha aposta no conforto que, diga-se de passagem, foi onipresente no que HT conferiu durante a Feira Zero Grau. “Pensei que queria algo sem salto, uma flat confortável, que todo mundo gosta de usar”, explica Ana Beatriz Guimarães (25), que trabalhava na parte administrativa de uma fábrica de sapatos quando resolveu abandonar tudo e montar sua própria marca. Ah, e ela também se diz avessa a qualquer “calendário de moda” que exista nas marcas mais comerciais: “Vou produzindo à medida que vou me inspirando”.

Este slideshow necessita de JavaScript.

“Também não respeito isso de outono/inverno e primavera/verão. Lanço uma nova coleção a cada dois meses, senão as peças ficam saturadas”, comenta Jonatas Aredes (28), que estava ali para atender ao público masculino com a Santo Hype e suas camisas cheias de estampas cool a preços entre R$110 e R$180.  Os tecidos são garimpados entre o Maranhão, Pernambuco e Barro Preto, região da capital mineira famosa pelas confecções em atacado, no estilo do Saara carioca. “São camisas que as pessoas não encontram nas lojas, voltadas para um público que gosta de comprar com preços bons e vai a festas legais”, explica ele, contando ainda que também abandonou um emprego seguro como executivo da Unimed para investir no projeto.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Essa particularidade de uma geração que não tem medo de largar as gravatas no escritório e sair de sandálias em busca do que lhes dá prazer na vida parece estar bem representada na Freira Hipster, por sinal, que não era feita exclusivamente de moda. Exemplo disso era Bruno Scolari (30), formado em engenharia de produção e que estava ali apresentando as almofadas de emoji divertidas da Fofostore, que foram sucesso unânime entre os visitantes. “Todo mundo usa tanto esses símbolos. É aquele óbvio que ninguém vê, né?”, comenta sobre a forma de se comunicar que dispensa palavras e que salva muita gente de ter que ficar se prolongando via Whatsapp ou Facebook. O repórter aqui, por sinal, acha válido usar as almofadas para se comunicar também na vida offline. Já imaginou? Nunca mais um ser humano teria que ficar constrangido na hora de responder: “Foi bom para você?”.

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

Ainda no quesito presentes/decoração, era possível encontrar os cadernos com pegada vintage da Libretto, que vinham com capas em VHS escaneadas pela própria dupla Rafaella Queiroz e Luiz Marcatto. “A ideia surgiu com o Luiz, que viu uns cadernos legais e pensou ‘eu sei fazer isso’. Então ele foi no Youtube, pegou um tutorial e aprendeu a confeccionar isso tudo”, comenta Rafaella, mostrando outra faceta importante da geração contemporânea de jovens: a inclinação para o estilo DIY – Do It Yourself (“Faça você mesmo”). E, para completar a pegada vintage, Breno da Matta expunha suas fotografias feitas majoritariamente com câmeras analógicas durante suas viagens pelo mundo afora, com espaço até para um plano da Praia do Leme. “São quadros baratinhos, para quem está mudando agora, indo morar sozinho”, comenta sobre as imagens que custavam R$55 cada.

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Cientes disso ou não, eventos como O Cluster no Rio de Janeiro (que já anunciou a próxima edição para o próximo dia 30) e a Freira Hipster em Belo Horizonte acabam por aproximar os jovens de um mercado feito por pessoas como eles, que entendem seu desejos e sabem no ímpeto o que eles querem. Isso sem falar na importância de incentivar novos empreendedores que trazem propostas diferentes e contemporâneas a uma indústria criativa onde a entrada e consagração parece se tornar mais difícil a cada dia que passa.

Pesquisas relacionadas