Economia Criativa: Vitória Moda tem saldo positivo, com novas marcas, e planos mil para a décima edição


De acordo com o presidente da Câmara do Vestuário, José Carlos Bergamin, é possível que as vendas desta edição superem as do ano passado – de R$ 14 milhões – assim que as marcas lançarem suas coleções no mercado. “ Se o cenário econômico do país permitir, poderemos chegar a R$ 19 milhões em negócios” assegura

* Com Marcos Eduardo Altoé

A semana da moda do Espírito Santo reforçou sua forte natureza regional ao incentivar o potencial criativo de novas marcas locais e promover a competitividade de um varejo de moda que busca expandir seus mercados. Sob o tema “Natural, original, tropical – mergulhando em nossas raízes”, o Vitória Moda Ano 9, realizado entre 5 e 7 de julho na capital capixaba, destacou o artesanato e a economia transversal e criativa do estado. O evento, uma iniciativa do Sistema Findes em parceria com o Sesi/Senai e correalização do Sebrae, apresentou uma bateria de desfiles de moda e lançamentos no Centro de Convenções de Vitória, além de um Salão Criativo, ocupado pela arte e a cultura de empreendedores locais.

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Em um espaço de 700 metros quadrados, cerca de 30 estandes foram ocupados por diversos segmentos que representam o setor da Economia Criativa, entre eles arte, cultura, fotografia, moda, design, cinema, gastronomia, arquitetura, marcenaria, e artesanato, um resultado da curadoria da consultora em artesanato Jacqueline Chiabay e a arquiteta e designer Vivian Chiabay. E ainda, projetos e empreendimentos com conteúdo focado em inovação por meio de  produtos e serviços também foram exibidos na sala. A iniciativa teve como objetivo a valorização e a apropriação de riquezas e valores da cultura capixaba, traduzidos a cada negócio criativo.

Coordenador do evento, o empresário e presidente da Câmara do Vestuário do Sistema Findes, José Carlos Bergamin explica, pois, que a intenção do Vitória Moda é valorizar a rica cultura local, oferecendo suporte para estimular o setor. “Nossa proposta é regional, para desenvolver as pequenas marcas com potencial criativo. Abrir a cabeça, jogar luz, para que elas possam crescer”.  Bergamin reforça tratar-se de uma proposta diferente a dos grandes eventos nacionais do setor, como o Rio Moda Rio e o SPFW. “Não temos objetivo de competir com outros eventos, como os de São Paulo, Fortaleza, Rio de Janeiro. Nós temos que cuidar da nossa realidade da nossa forma, entender da melhor maneira possível e jogar isso para a frente”.

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O Espírito Santo, o menor estado da Região Sudeste, vizinho de gigantes industriais como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, precisou encontrar uma assinatura única para responder com competitividade e criatividade às demandas do mercado nacional. José Carlos Bergamin reforça que definir o tom certo da moda capixaba foi essencial para criar um padrão qualificado de produtividade na indústria de vestuário capixaba. “Temos um estado pequeno, com 2% da população brasileira. Precisamos pensar em produtos que atraiam outros mercados além do local. Temos que inserir a moda capixaba em alguns nichos, como moda praia, acessórios etc.”.

Após três dias de desfiles, palestras, workshops e Salão de Economia Criativa, Bergamin avalia positivamente esta nona edição, apesar de uma reformulação necessária por conta da atual conjuntura econômica brasileira, que afetou em cheio o setor do varejo. “Acredito que conseguimos fazer uma edição dentro do que era possível neste momento, mas julgando pela reação do público pudemos com menos recursos colocar mais emoção. Tenho recebido um feedback bem interessante”. Segundo ele, é possível que as vendas desta edição superem as do ano passado – de R$ 14 milhões – assim que as marcas lançarem suas coleções no mercado. “ Se o cenário econômico do país permitir, poderemos chegar a  R$ 19 milhões em negócios”, afirmou. E sobre o próximo ano, em que será comemorada a décima edição do Vitória Moda, o empresário antecipa que já está animado, mas que terá muito trabalho pela frente. “Já temos definidos os eixos em que vamos colocar a décima edição, agora, ainda este ano, começaremos a viabilizá-la”, finaliza.

UMA VIDA DE COMÉRCIO

José Carlos Bergamin (Foto: Divulgação)

José Carlos Bergamin (Foto: Divulgação)

José Carlos Bergamin além de coordenar o Vitória Moda também participou ativamente na passarela. Sua marca Konyk, voltada para o público masculina antenado, fechou o evento com um desfile bastante esperado, com direito a participação do ator global e modelo carioca Marcos Pitombo, o Felipe de “Haja Coração”.

Marcos Pitombo na passarela da Konyk (Foto: Vitória - Henrique Fonseca)

Marcos Pitombo na passarela da Konyk (Foto: Vitória – Henrique Fonseca)

A Konyk buscou na idílica Vila de Itaúnas, distrito do município de Conceição da Barra, no Espírito Santo, a inspiração para criar sua coleção, especialmente para fechar a maratona de desfiles da nona edição do Vitoria Moda. A marca de José Carlos Bergamin trouxe o ator carioca Marcos Pitombo para compor seu casting exclusivamente masculino. Marcos, que também é modelo, está atualmente na novela global da faixa das 19h, Haja Coração, e entre gritos e suspiros de uma platéia de fãs desfilou quatro looks. Uma boa escolha para introduzir Itaúnas como tema, uma pérola escondida entre as dunas, o rio e o mar. Considerado a capital nacional do forró, o vilarejo recebe todos os anos milhares de turistas vindos de muitas regiões brasileiras. Na coleção, o rico trabalho de estamparia buscou movimento nas curvas das dunas de areia, paisagem icônica do do lugar, bem como nas ondas do mar. A cartela de cores aponta a tendência da temporada, com destaque para as cores laranja e vermelho, do pôr-do-sol capixaba, e a cor azul royal, pinçada do mar e do céu. As tonalidades lembram, ainda, as cores do Ticumbi, dança típica encontrada há três séculos no mesmo município. A dita paleta, vibrante e calorosa, norteia cores complementares sofisticadas, como areia e preto. Duas estampas, assinadas pela designer Patricia Valadares, foram desenvolvidas e aplicadas de forma artesanal nas peças: a estampa folha de coqueiro, revelando a claridade, e a de estrela, um tributo às noites de céu estrelado de Itaúnas. O linho, que lembra o frescor, e o moletom, conforto, entram em cena em produções descoladas, acompanhados da lycra e da microfibra. Bermudas, calças, camisas e blazers usam e abusam dos dois materiais, todos eles que, segundo a marca, passaram por beneficiamentos diversos, entre efeitos de estamparia e lavanderia. Um toque final para uma coleção que ousa pensar no novo homem contemporâneo.

Com uma vida dedicada ao varejo de moda, Bergamin conta que sua relação com o mercado começou logo cedo. “Toda a vida fui comerciário. Vendia tecidos em lojas do interior do Espírito Santo com apenas 14 anos. Na Grande Vitória, fui gestor de uma rede de vestuário, onde fiquei por 35 anos”. Às vésperas de se aposentar, ele decidiu pensar em algo mais, lançando sua marca própria. “Lancei a Konyk sem grandes pretensões. Formatei um modelo verticalizado, para que eu tivesse design, preço, e distribuição direta. O que se busca hoje, de ir em encontro do consumidor final, eu já faço desde o início da marca”.

E quando questionado sobre a necessidade de alavancar vendas e ter uma imagem institucional forte e reconhecida, o empresário vai direto ao ponto: “Não somos pautados pelo resultado a qualquer preço. Fazemos uma moda bacana que tenta ser sustentável e que valoriza o regionalismo, o pertencimento. Se o consumidor entender que é bacana, ele nos absorve”. Uma convicção rara e louvável, pois, em tempos de fast fashion e consumo a qualquer custo.

SOBRE O VITÓRIA MODA

Lançado em 2008, o Vitória Moda nasceu o objetivo de inserir o Espírito Santo no calendário da moda nacional. Diferentemente de outros eventos que acontecem pelo Brasil, o Vitória Moda é voltado para a movimentação do circuito de negócios e a qualificação do setor de vestuário capixaba. Além disso, seu formato o coloca na vanguarda como evento lançador de alto verão. Em 2016, o evento foi uma iniciativa do Sistema Findes, em parceria com o Sesi / Senai e  correalização do Sebrae, e registrou um recorde de marcas na passarela, 25 ao todo. Buscou, ainda, valorizar o que o Estado possui de  mais precioso: seus recursos naturais, suas raízes étnicas, sua arte e sua cultura, enfatizando o orgulho de seu povo pelo Espírito Santo.