Dra. Marcele Trindade explica como a medicina regenerativa muda o conceito de rejuvenescimento da pele


Ao apostar na regeneração celular em vez de apenas corrigir rugas e perdas de volume, a medicina regenerativa inaugura uma nova fase da dermatologia estética. A dermatologista responsável pela chefe da área médica da Mealth Clinic, explica como ativos como exossomos e PDRN estimulam os mecanismos naturais de reparação da pele, detalha os benefícios da técnica para rosto e cabelos, esclarece mitos e limitações do tratamento e alerta: não existem soluções milagrosas, mas protocolos personalizados, associação de tecnologias e constância nos cuidados para promover um rejuvenescimento mais natural, saudável e duradouro

*Por Brunna Condini

Durante décadas, a dermatologia estética concentrou seus esforços em suavizar rugas, devolver volume e corrigir marcas do envelhecimento. Agora, uma nova geração de tratamentos começa a transformar esse cenário. A chamada medicina regenerativa propõe uma mudança de perspectiva: em vez de apenas corrigir sinais visíveis do tempo, busca estimular a capacidade natural de regeneração da própria pele.

Para a dermatologista Marcele Trindade, chefe da área médica da Mealth Clinic, essa é a principal revolução vivida atualmente pela especialidade. “A medicina regenerativa traz uma mudança real na pele porque o tratamento passa a ser feito de forma interna para percepção externa, alterando e ativando células que estavam inativas, usando moléculas sinalizadoras e células-tronco. Esse processo traz um efeito rejuvenescedor e reparador das células da pele sem mudar as características de formato da face”, explica.

A especialista ressalta, porém, que também existem muitos mitos em torno do assunto. “Os cremes não conseguem entregar células-tronco à pele, por exemplo. Além disso, a medicina regenerativa funciona melhor quando combinada a outros tratamentos, como lasers, bioestimuladores e toxina botulínica. Ela rejuvenesce até certo ponto, mas não totalmente. E não adianta fazer apenas uma vez: é preciso constância no tratamento”, afirma.

A dermatologista Marcele Trindade explica como a medicina regenerativa está transformando os cuidados com a pele (Foto: Divulgação)

A dermatologista Marcele Trindade explica como a medicina regenerativa está transformando os cuidados com a pele (Foto: Divulgação)

Exossomos e PDRN: o que realmente fazem?

Entre os ativos que mais despertam curiosidade estão os exossomos e o PDRN, frequentemente apontados como protagonistas dessa nova fase da dermatologia. Considerados os grandes pilares da medicina regenerativa, eles integram uma abordagem focada em restaurar a saúde, a estrutura e o funcionamento da pele de forma natural, em vez de apenas preencher rugas ou paralisar músculos. Ambos atuam em nível celular e, por isso, costumam ser associados a protocolos realizados após procedimentos como lasers e microagulhamento, para potencializar a regeneração dos tecidos e otimizar os resultados. Mas, afinal, o que exatamente eles entregam que outros ativos não conseguiam oferecer?

Marcele sinaliza, que embora muitas vezes sejam utilizados em conjunto, cada um desempenha uma função específica. “O PDRN é um conjunto de fragmentos de DNA derivados do salmão que estimula a reparação da pele e a produção de colágeno, proporcionando uma pele mais firme. Ele melhora a cicatrização e a recuperação após procedimentos, hidrata, devolve viço à pele, regenera tecidos. Já os exossomos são moléculas produzidas pelas próprias células. Funcionam como sinalizadores celulares, estimulando a regeneração celular, reduzindo inflamações e reparando danos. Enquanto o exossomo sinaliza, o PDRN atua diretamente na reparação”. A especialista explica que é justamente essa atuação complementar que faz com que ambos tenham ganhado espaço nos protocolos mais modernos da dermatologia regenerativa.

Os ativos PDRN e exossomos fazem diferença logo após o procedimento, porque o objetivo é estimular novas células justamente na área sensibilizada, favorecendo a renovação celular da pele que irá acontecer nos dias seguintes Marcele Trindade

Segundo a médica, é essa capacidade de atuar diretamente nos mecanismos biológicos da regeneração que diferencia essas terapias dos ativos tradicionalmente utilizados na dermatologia estética.

"A medicina regenerativa traz uma mudança real na pele porque o tratamento passa a ser feito de forma interna para percepção externa" (Foto: Divulgação)

“A medicina regenerativa traz uma mudança real na pele porque o tratamento passa a ser feito de forma interna para percepção externa” (Foto: Divulgação)

Reconstruir em vez de preencher

Na avaliação da dermatologista, a medicina regenerativa acompanha uma mudança importante também no comportamento dos pacientes:

Hoje o conceito de beleza do brasileiro está no natural, em preservar a beleza nata e apenas realçá-la, e não em buscar excessos. Isso acabou se tornando um padrão mundial quando muitos artistas passaram, inclusive, a retirar procedimentos que haviam feito anteriormente – Marcele Trindade

Ela explica que cada tecnologia ocupa um papel diferente dentro dos protocolos atuais. “O bioestimulador provoca uma reação inflamatória controlada nos fibroblastos, estimulando essas células a produzirem colágeno e proporcionando mais firmeza à pele. Já os bioremodeladores funcionam como sinalizadores celulares, reativando processos naturais e melhorando a qualidade da pele. O resultado é uma pele mais hidratada, com mais viço e uma melhora discreta na firmeza”, esclarece.

A médica salienta ainda, que os benefícios acabam aparecendo de forma integrada: “Uma melhora leva naturalmente à outra. Quando a textura melhora, a pele também fica mais hidratada, ocorre renovação celular e, consequentemente, ela ganha mais luminosidade”.

"A medicina regenerativa rejuvenesce até certo ponto e funciona melhor quando associada a outros tratamentos" (Foto: Divulgação)

“A medicina regenerativa rejuvenesce até certo ponto e funciona melhor quando associada a outros tratamentos” (Foto: Divulgação)

Não existe tratamento milagroso

Apesar do entusiasmo em torno da medicina regenerativa, a dermatologista alerta que a ética deve acompanhar o avanço da tecnologia. “O limite ético está justamente no uso desses ativos para finalidades diferentes daquelas que já foram comprovadas cientificamente. Promessas milagrosas sempre existirão por parte de profissionais mal-intencionados. Por isso, cabe ao paciente avaliar quem está conduzindo o tratamento e entender quais resultados realmente podem ser alcançados”.

Referência em dermatologia no Brasil, professora e palestrante, Marcele também faz questão de desfazer uma ideia bastante comum: “Não existe padrão-ouro. Existe aquilo que funciona melhor para cada paciente e a técnica que o profissional domina. Na prática, protocolos que combinam diferentes tratamentos e tecnologias costumam trazer resultados muito superiores aos de um único procedimento”.

"Hoje o conceito de beleza do brasileiro está no natural, em preservar a beleza nata e apenas realçá-la, e não em buscar excessos" (Foto: Divulgação)

“Hoje o conceito de beleza do brasileiro está no natural, em preservar a beleza nata e apenas realçá-la, e não em buscar excessos” (Foto: Divulgação)

O Brasil é um dos países que mais realiza procedimentos estéticos no mundo. Estamos preparados, cientificamente e tecnicamente, para essa nova geração de terapias? “Sim, estamos preparados. Investimos muito em pesquisa nesse ramo e o brasileiro é um dos maiores consumidores de beleza do mundo. Além de exportar profissionais da área de dermatologia estética para dar aulas e cursos em outros países”, afirma.

Contraindicações

Assim como qualquer procedimento médico, a medicina regenerativa também possui contraindicações. “O PDRN e os exossomos não são indicados de forma injetável. Também evitamos seu uso em pacientes com alergias específicas, durante a gravidez e a lactação, em algumas doenças autoimunes e quando existe uma expectativa incompatível com aquilo que o tratamento pode oferecer, como resultados volumizadores”.

A regeneração também chega aos cabelos

A regeneração celular também vem mudando o tratamento da queda capilar. “Hoje utilizamos recursos como microagulhamento, MMP capilar, mesoterapia com ativos manipulados, laser para favorecer a penetração dos ativos e LED vermelho, que exerce ação anti-inflamatória importante em alguns tipos de queda de cabelo. Ainda existem poucos estudos com exossomos para o couro cabeludo, mas eles já mostram melhora na regeneração capilar”.

Ela explica que a formulação utilizada nessa região é diferente daquela empregada na pele. “Existem diferenças entre os exossomos destinados à pele e os destinados ao cabelo. Os da pele atuam na regeneração cutânea; os do couro cabeludo são formulados para agir na haste capilar e no folículo”. Marcele diz que o  diferencial está justamente na forma de atuação:

A medicina regenerativa age no ambiente celular, reativando células que estavam inativas. O resultado é mais duradouro porque devolve a essas células sua função natural na produção das substâncias responsáveis pela manutenção da epiderme e da derme. Não são resultados imediatos, mas tendem a ser mais duradouros – Marcele Trindade

A dermatologista Marcele Trindade segura um LED Capilar, para tratamentos de queda de cabelo (Foto: Divulgação)

A dermatologista Marcele Trindade segura um LED Capilar para tratamentos de queda de cabelo (Foto: Divulgação)

Para a médica, a regeneração representa apenas o começo de uma transformação maior na dermatologia. “A medicina regenerativa já está chegando para melhorar cicatrizes e a aparência da pele. Mas acredito que o futuro possa ser ainda mais promissor, talvez alcançando genes relacionados a doenças autoimunes ou até genes envolvidos no desenvolvimento de neoplasias. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que envelhecer faz parte da história da humanidade. Nenhuma tecnologia substitui hábitos saudáveis. Não adianta ter uma aparência jovem se não cuidamos da saúde como um todo”, conclui.