Posso escrever com ênfase: poucos estilistas brasileiros alcançaram uma linguagem estética com tanta perfeição e imediatamente reconhecível quanto Lino Villaventura. Em uma trajetória profissional que ultrapassa quatro décadas, ele construiu uma obra que transcende os limites convencionais da moda e encontra uma narrativa que aproxima-se das artes visuais, performances, teatro, memórias, fazer manual em permanente efervescência criativa. Em um cenário onde observamos a velocidade das tendências e do consumo mudando a cada piscar dos olhos, o mago dos magos (como sempre me refiro a Lino Villaventura) consolidou uma produção autoral resistente ao tempo, recusando a lógica do efêmero para afirmar a moda como expressão cultural capaz de nos encantar, provocar, fascinar e com tanta identidade. Ao longo de sua carreira, Lino tornou-se um dos principais responsáveis pela consolidação da moda autoral brasileira no circuito internacional.

Lino Vilaventura (Foto: Nicolas Gondim)
É justamente essa criatividade pulsante que tornou inesquecível a apresentação da coleção batizada “Fractal: Gênese Infinita” tendo como cenário a Ponte dos Ingleses, em Fortaleza (CE), como parte integrante do line up do DFB Festival 2026 – a maior plataforma de moda autoral do país. Com aquele cenário mágico da golden hour e toda a imensidão das águas do Atlântico, o que vimos foi uma proposta de reflexão sobre o fractal deixar de ser compreendido como uma categoria exclusivamente matemática para assumir uma dimensão filosófica, estética e existencial. Surge então a ideia de “Gênese Infinita”, expressão que sintetiza um processo contínuo de nascimento, transformação e regeneração. Não existe um ponto definitivo de conclusão; cada forma contém em si o potencial para originar outra forma. Cada superfície têxtil torna-se uma célula criativa capaz de expandir-se indefinidamente. O vestido deixa de ser um objeto acabado para tornar-se organismo vivo.

Lino Villaventura (Foto: Nicolas Gondim)

Lino Villaventura (Foto: Nicolas Gondim)

Lino Villaventura (Foto: Nicolas Gondim)

Lino Villaventura (Foto: Nicolas Gondim)

Lino Vilaventura, backstage (Foto: Nicolas Gondim)

Lino Villaventura (Foto: Nicolas Gondim)
Costumo lembrar que Lino sempre pontou em nossas conversas que “arte é expressão. Assim como o trabalho em moda. Uma assinatura forte a partir de uma expressão espontânea e original”. E compartilha sempre alguns segredos para quem deseja se firmar como uma referência: “Muita coragem, persistência e otimismo. A diferença se faz trabalhando, com qualidade, e sempre pensando em como inovar – e com o pouco. Como obter um resultado legal com o que está disponível”, sugere. Um luxo totalmente made in Brasil. Puro orgulho.
Em encontros no backstage de seus desfiles, uma vez perguntei sobre o encantamento que ele nos proporciona em seus desfiles e ouvi frases deliciosas como esta que escrevo aqui: “Desfile tem que ser atrativo, porque se for banal é mais interessante sentar no bar e ver as pessoas passarem. Quero algo que me provoque, me deixe alegre, feliz, intrigado. É para isso que faço desfiles. E não falo só de moda. Qualquer pessoa precisa ser provocada”.

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)
Fui pesquisar o termo fractal desenvolvido pelo matemático Benoît Mandelbrot, na década de 1970, “para designar estruturas geométricas cuja principal característica é a autossimilaridade: independentemente da escala de observação, cada fragmento reproduz características semelhantes ao conjunto maior. Galhos de árvores, flocos de neve, sistemas vasculares, montanhas, nuvens, rios, relâmpagos, corais e até estruturas celulares revelam essa lógica de repetição infinita presente na natureza. Os fractais demonstram que a ordem não nasce da rigidez geométrica clássica, mas de sistemas complexos capazes de gerar padrões aparentemente caóticos e, ao mesmo tempo, profundamente sofisticados”.

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)
Assim como na teoria dos fractais, a coleção apresenta padrões que se repetem em diferentes escalas, criando uma silhueta que parece estar em constante transformação. O foco recai sobre a “autossimilaridade”, onde pequenas nervuras manuais emulam as grandes estruturas dos vestidos, evocando um sentimento de teatralidade e mistério. Para materializar esse conceito, as técnicas clássicas são reinterpretadas – Lino Villaventura
A partir desta ótica, Lino Villaventura cria vestidos que parecem crescer como organismos, expandindo-se por meio de nervuras, dobras, pregas e sobreposições que reproduzem a dinâmica da vida, um organismo vivo e repleto de movimentos. O estilista tem a sua chancela na moda como o criador que, diferentemente da tradição industrial – que busca controlar o tecido para obter superfícies lisas e homogêneas -, ele potencializa relevos, nervuras… “cada dobra parece reproduzir, em escala reduzida, o comportamento do conjunto, exatamente como ocorre na lógica fractal”.

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)
A sobreposição de tecidos, como jacquards e sedas metálicas, forma um mosaico onde as emendas são propositais, simulando a complexidade de um sistema fractal natural. A paleta cromática reforça esse percurso conceitual, segundo Lino. Pretos profundos, grafites e cobres constroem uma atmosfera de origem, de “gênese”, remetendo ao instante anterior ao surgimento da vida. Sobre essa base sombria irrompem vermelhos intensos, dourados, prateados, tons nude, degradês orgânicos e flashes de cores ácidas, como se pequenas explosões de energia anunciassem processos contínuos de criação. A cor deixa de desempenhar função exclusivamente estética para assumir papel narrativo, simbolizando a emergência da matéria a partir do caos. A iluminação proposta para o desfile amplia essa experiência. Historicamente, Lino Villaventura compreende a passarela como extensão da própria coleção, recusando apresentações meramente comerciais.

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)

Lino Villaventura, coleção “‘Fractal — Gênese Infinita’” (Foto: Paula Matos)
O retorno ao DFB possui também um significado simbólico. Presença em edições marcantes ao longo da história do evento, Lino destaca a importância do festival para a consolidação da moda autoral brasileira. “É um símbolo de resistência, pois o DFB Festival está no Ceará e resiste a tantas pressões de outros eventos. O Claudio Silveira é um guerreiro e conseguiu fazer do Dragão um dos maiores eventos, se não o maior, de moda autoral do Brasil. Nesses 25 anos, a marca Lino Villaventura não poderia estar fora desta comemoração, sendo a referência de moda autoral que é no país”, frisa Lino Villaventura.

Lino Villaventura (Foto: Nicolas Gondim)

Lino Villaventura (Foto: Nicolas Gondim)
Lino Villaventura, mestre da originalidade e criatividade, também já ressaltou sobre o trabalho das novas gerações: “Tento transmitir a minha experiência. Nosso objetivo é fazer com que os jovens aprendam a lidar também com as inseguranças de se fazer moda e tenham muita força de vontade. Eu, claro, tive as minhas inseguranças, mas eram diferentes. Essa nova geração têm angústias e medos diferentes. E, por isso, eu aprendo com os jovens também”. Acreditar no trabalho é essencial. Quando você executa algo que tem fé, quem observa acredita e vê algo real no que produz. O resultado é sempre melhor e é um passo grande para a confiança de uma carreira profissional.
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