“Eu venho dêrne menino/Dêrne munto pequenino/Cumprindo o belo destino/Que me deu Nosso Senhô/Eu nasci pra sê vaquêro/Sou o mais feliz brasilêro/Eu não invejo dinhêro/Nem diproma de dotô (…) Gosto de ver o barúio/De barbatão a corrê/Pedra nos casco rolando/Gaios de pau estralando/E o vaquêro atrás gritando/Sem o perigo teme (…). Este é um trecho de “O Vaqueiro”, poema de Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (1909 -2002), cearense que ganhou repercussão nacional com sua obra. E considero uma perfeita conexão com o desfile de Rebeca Sampaio, que eu conferi durante o DFB Festival 2026, maior plataforma da moda autoral do país. Na coleção batizada “Travessia”, Rebeca mergulhou em suas memórias afetivas dos dias na fazenda da família, no Cariri, observando o universo e a indumentária do vaqueiro nordestino. Tradição que ultrapassa a lida com o gado. É um modo de vida transmitido entre gerações, marcado pela relação entre homem, cavalo e sertão, pela maestria no trabalho com o couro e por uma identidade que segue inspirando a arte, o design e a moda contemporânea.
Rebeca Sampaio nasceu em Brejo Santo, no coração do Cariri cearense, e cresceu dividindo a infância entre a cidade e a fazenda da família, em Porteiras, propriedade erguida em 1873 por seu tataravô. Foi nesse cenário, onde a cultura do vaqueiro atravessa gerações e organiza o ritmo da vida sertaneja, que construiu sua relação mais genuína com esse universo. Desde cedo, conviveu com cavalgadas, apartações de gado e com a presença constante do couro moldado em gibões, selas, arreios, cilhas e estribos — objetos que, no sertão, ultrapassam a função utilitária para se tornarem símbolos de resistência, identidade e pertencimento. Mais do que referências visuais, esses elementos fizeram parte de sua formação, integrando uma memória afetiva construída na convivência cotidiana com o modo de vida dos vaqueiros do Cariri.

Rebeca Sampaio (Foto: Nicolas Gondim)
A indumentária do vaqueiro faz parte das minhas memórias desde muito cedo. Não apenas pelos vaqueiros que cruzavam a região, mas também porque essa estética estava viva na própria decoração da casa: no formato e no material das selas, nas perneiras, no gibão, nos arreios, no trabalho em couro, nos desenhos formados pelas costuras e nos metais dos estribos – Rebeca Sampaio

Rebeca Sampaio (Foto: Nicolas Gondim)
A palavra-chave do desfile, “Travessia”, tem forte referência física, cultural e simbólica, remetendo ao deslocamento, às mudanças de ciclo. No universo criado por Rebeca, ela se transforma em metáfora para o percurso do vaqueiro pela caatinga, para a transmissão de saberes entre gerações, para a preservação das tradições diante da contemporaneidade e para a própria trajetória da moda nordestina rumo ao cenário nacional. Essa ideia de percurso aparece também na construção material das peças. Em diversos looks, couros, metais e pontos de crochê são organizados em tramas abertas que evocam simultaneamente redes, caminhos e os próprios ornamentos do universo do vaqueiro, reforçando visualmente a noção de travessia que conduz toda a coleção. As franjas também acrescentam movimento às silhuetas e reforçando a ideia de deslocamento constante que atravessa a narrativa.

Rebeca Sampaio (Foto: Nicolas Gondim)

Rebeca Sampaio (Foto: Nicolas Gondim)

Rebeca Sampaio (Foto: Nicolas Gondim)

Rebeca Sampaio (Foto: Nicolas Gondim)

Rebeca Sampaio (Foto: Nicolas Gondim)

Rebeca Sampaio (Foto: Nicolas Gondim)
A estilista revela que a narrativa foi construída em movimentos: o primeiro retrata a noite no sertão, através de peças em tons escuros e sóbrios que evocam a aridez, o silêncio e o mistério da paisagem. Em seguida, surge o amanhecer acompanhado pela chuva, representado por roupas mais fluidas e coloridas, simbolizando a terra que floresce e se transforma. O desfile se encerra com ‘A Gratidão do Vaqueiro’, marcada por looks predominantemente brancos que remetem à fé e à espiritualidade que sustentam essa cultura. O grande mérito da coleção está justamente na forma como Rebeca desconstrói imagens cristalizadas sobre o sertão. Em vez da escassez ou da dureza frequentemente associadas ao território, ela revela riqueza estética.

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
O maior mérito da coleção reside na maneira como Rebeca Sampaio desloca os imaginários cristalizados sobre o sertão. Em vez de reiterar narrativas centradas na escassez e na aridez, a designer evidencia a potência estética e simbólica desse território, revelando um repertório cultural de extraordinária sofisticação. Sua criação demonstra que os códigos visuais da cultura sertaneja — forjados pela relação entre o homem, a terra e o fazer artesanal — permanecem vivos e plenamente contemporâneos quando reinterpretados pelo design, transformando tradição em linguagem e memória em inovação.

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
A escolha do vaqueiro nordestino como principal referência da coleção carrega, ainda, grande relevância histórica. Muito antes de se tornar personagem do imaginário popular, o vaqueiro teve papel fundamental na ocupação econômica do interior nordestino entre os séculos XVII e XVIII, e sua indumentária nasceu como resposta direta às condições adversas da caatinga. O couro de chapéus, gibões, perneiras, luvas e peitorais protegia contra espinhos, reduzia os cortes provocados pela vegetação, garantia resistência na condução do gado e suportava longas jornadas sob calor intenso. É dessa dimensão funcional que Rebeca parte para transformar utilidade em linguagem estética.
Referências à cultura vaqueira aparecem traduzidas em detalhes refinados: recortes em couro e rebites inspirados nos chapéus dos vaqueiros, crochês que evocam as rachaduras da terra seca, decotes que reproduzem o desenho das selas, aplicações metálicas inspiradas nos estribos e peças felpudas que remetem à vegetação sertaneja. Sem abandonar a identidade construída ao longo de sua trajetória, a estilista apresentou uma coleção marcada por sua já reconhecida alfaiataria sofisticada, recortes precisos e valorização das manualidades. Linho, crepes de diferentes gramaturas, tecidos fluidos e detalhes em couro compõem a base da coleção, enriquecida por bordados, crochês, adereços artesanais, bordados metálicos e trabalhos de ourivesaria em latão.

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
A base da coleção reúne linho, crepes de diferentes gramaturas e tecidos fluidos, enriquecidos por fartos detalhes em couro, bordados variados, crochês, adereços artesanais, bordados metálicos e trabalhos de ourivesaria em latão. Os bordados, aliás, funcionam como recurso narrativo, executados a partir da memória manual e valorizando saberes transmitidos entre gerações de artesãos, em um movimento que dialoga com a tendência crescente da moda brasileira de se diferenciar da produção industrial por meio da valorização do fazer manual. Couro, crochê e metais aparecem frequentemente organizados em estruturas vazadas e tramas abertas, criando superfícies que lembram tanto as fibras das redes quanto os vazios da paisagem sertaneja
A cartela de cores segue a mesma lógica simbólica: predominam os tons escuros, que evocam o couro envelhecido, a terra seca, as sombras da vegetação da caatinga e a sobriedade da indumentária tradicional, interrompidos por pontos mais luminosos que sugerem esperança, renovação e continuidade, em sintonia com o próprio conceito de travessia.

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Rebeca Sampaio, coleção “Travessia” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
A força artesanal do Cariri está na parceria com a estilista. Artesãos especializados em couro, chapelaria, crochê, fuxico, madeira e bordado, além de associações de mulheres artesãs de Brejo Santo, reforçam o compromisso da marca com os saberes tradicionais da região. Para Rebeca, o retorno ao DFB tem um significado que vai além da apresentação de uma nova coleção: “Minha relação com o DFB é longa e afetiva. Comecei aqui como modelo nas primeiras edições, vivi os bastidores como RP e, como marca, esta será minha quinta participação. Volto numa fase mais madura, mais em sintonia com o que acredito e com o que quero dizer, com mais repertório e bagagem, mas com o mesmo entusiasmo”.

Rebeca Sampaio, backstage (Foto: Nicolas Gondim)

Rebeca Sampaio, backstage (Foto: Nicolas Gondim)

Rebeca Sampaio (Foto: Nicolas Gondim)

Rebeca Sampaio (Foto: Nicolas Gondim)
Com “Travessia”, o universo do vaqueiro é símbolo de resistência, permanência, memória, identidade cultural e adaptação. A coleção demonstra que os códigos visuais do vaqueiro permanecem vivos justamente porque continuam capazes de produzir novos significados. Essa atualização do imaginário sertanejo amplia o repertório visual da moda brasileira e demonstra como referências profundamente enraizadas na cultura regional podem dialogar com linguagens internacionais de design, reafirmando o potencial da moda como instrumento de preservação cultural, inovação estética e construção de identidade.
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