“Renda de bilro é memória, sim, mas principalmente futuro. Nossos saberes contam nossa história e é preciso que afirmemos essa bagagem olhando pra frente. Tecer sempre, ensinar o ofício a quem chega agora, como um dia aprendemos como nossas mães”. Esta é a filosofia do projeto coletivo Olê Rendeiras, alinhavado junto às bilreiras do Trairi, no Ceará, pela Catarina Mina, label que tem Celina Hissa como fundadora e diretora criativa + a QAIR Brasil, empresa produtora independente de energia renovável com muitos trabalhos pelo socioambiental. O DFB Festival, evento multiplataforma com a sinergia entre moda, cultura, empreendedorismo e música, realizado na capital cearense, entre os dias 25 e 28, acolheu de braços abertos a iniciativa e Olê Rendeiras mostra em grande estilo na passarela o magnífico trabalho de dezenas de artesãs, cujo trabalho é sinônimo 100% de moda brasileira autoral com visibilidade internacional.
“Esse encontro é incrível, um movimento que resiste, apesar de todos os desafios que incluem atuar no Ceará, uma região fora do eixo Rio-São Paulo. O DFB consegue fazer um evento autoral, inclusivo, gigante e que faz frente a outros nacionais e internacionais”, afirma Celina Hissa.

Cada peça do projeto é assinada pela artesã que a fez, e assim podemos pode chegar mais perto da história de quem esteve envolvida no processo de feitura (Foto: Divulgação)
“A Olê Rendeiras é um projeto que procura valorizar a renda de birlo, repensar os laços que envolvem essa arte, fortalecer uma cultura, movimentar a economia de um lugar de uma forma sustentável, que dá força e que terá vida longa, porque conta com muita gente para essa trama. O projeto teve início em 2019, com a chegada da QAIR, empresa de energia renovável, no Trairi, município do Ceará. Com a vontade de impactar socialmente a região, a empresa convidou a Catarina Mina, marca já conhecida por trabalhar o consumo consciente e a economia local, para desenvolver um projeto junto às mulheres (e homens) da região”, conta Celina.

Mulheres artesãs do Olê Rendeiras mostram com orgulho as suas criações em renda de bilro (Foto: Divulgação)
E Celina ainda destaca: “É uma honra participar do DFB desde as primeiras edições, e com mais intensidade a partir de 2015. O evento valoriza o artesanal, novos designers, projeta aqueles que estão na tentativa e intuito de fazer brilhar quem nada contra a corrente. Esse abraço que o DFB dá à moda cearense e nordestina merece o respeito e gratidão de todos nós”.
O litoral Oeste do Ceará guarda um dos saberes mais valiosos do artesanato local: a renda de bilro. Em torno dela o projeto trabalhou, durante meses, com mais de 100 rendeiras, de 14 comunidades, para que fosse desenvolvida uma coleção. Vestir uma peça de renda de bilro é ressignificar e valorizar saberes seculares. O Projeto Olê Rendeira surge com o intuito mostrar a força e potência criativa das mulheres que têm essa arte fazendo parte de seu cotidiano e de seu sustento. Um trabalho minucioso, delicado, sofisticado, cujas ferramentas para execução vêm da própria natureza. “A inspiração para a coleção que apresentamos, também vem de paisagens, desenhos geométricos, conectados com o olhar moderno e cartelas de cores contrastantes, que estão fazendo a renda de bilro chegar a lugares inusitados”.
O resultado do trabalho das bilreiras é fruto de uma história antiga de mulheres que há décadas vêm aprendendo o ofício observando suas mães e avós trabalhando com as mãos capazes de criar verdadeiras obras de arte em forma de roupas, toalhas, acessórios. “Recentemente, o projeto Olê Rendeiras foi escolhido ao lado de outras sete marcas pelo Brasil Eco Fashion Week para mostrar o poder da moda sustentável brasileira em Milão, na Itália. Acho que mais do que nunca o design se propõe a ser algo que regenera o mundo, no lugar de explorar. Como a moda pode estar a serviço de um mundo melhor? São as perguntas que toda nova marca deve se propor a responder”, propõe Celina Hissa.

Olê Rendeiras (Foto: Nicolas Gondim)
Celina Hissa conta ainda que, o projeto utiliza o método das Oficinas Catarina Mina para fortalecer o artesanato e conferir longevidade às tipologias, e observa que os dois anos de pandemia foram sinônimo de pensar em inovação e empreender. “Para seguir firme nesse período foi preciso muita reinvenção. Isso nos fez entender mais sobre a nossa força e também nossas possibilidades de trabalho em grupo. Crescemos, duplicamos. Esse mês de maio marca a inauguração do nosso Ateliê Aberto, um novo espaço da Catarina Mina, que vai muito além da loja. É uma experiência com todos os nosso processos, histórias, com um espaço para exposição, onde queremos compartilhar conhecimento”.
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