DFB FESTIVAL: Mancuda apresenta ‘Favelawear’ e reafirma potência criativa das comunidades periféricas de Fortaleza


Na passarela do DFB Festival pela primeira vez, a proposta criativa da Mancuda parte da observação das formas de vestir que atravessam as comunidades periféricas da capital cearense. A ancestralidade negra também representa a força estruturante do discurso visual. Memórias, afetos, vivências comunitárias e a pluralidade criativa da população negra foram traduzidos em uma passarela que misturou moda, identidade e pertencimento

Com ‘Favelawear’, a marca Mancuda fez sua estreia na passarela do DFB Festival 2026, em Fortaleza (CE), com um desfile autoral, político e poético, reafirmando que a periferia também é território de futuro e que as histórias que nascem nas ruas de Fortaleza têm muito a dizer sobre os novos caminhos da moda brasileira. Como sintetizam os integrantes da marca, “a cada esquina, rua, beco e viela, a Mancuda mostra como é fazer moda na favela”. E foi exatamente isso que aconteceu e com os aplausos da plateia. O desfile reafirmou a potência criativa das periferias de Fortaleza ao propor uma reflexão sobre temporalidade, pertencimento e construção de futuros possíveis.

Mancuda (Foto: Nicolas Gondim)

Criada por Carll Souza e Nair Beatriz, em 2020, a Mancuda é um projeto de marca formado por jovens da periferia oeste de Fortaleza. A marca surge durante a pandemia de Covid como uma tentativa de subsistência em meio aos cortes contingentes de bolsas nas universidades federais onde a maior parte da equipe obtinha renda como bolsista. Com o passar dos meses e depois da explosão – de compartilhamentos na rede social Instagram – gerada pela primeira coleção respaldada no processo de reutilização de resíduos têxteis do próprio ateliê, a marca logo se transforma em um projeto de vida.

A coleção desenvolve a noção de um futurismo cearense que não se ancora em imaginários tecnológicos importados ou em projeções distantes da realidade social, mas emerge das experiências cotidianas, das memórias coletivas e dos repertórios visuais produzidos nos territórios populares. Nesse sentido, o desfile estabelece uma narrativa que conecta passado, presente e futuro por meio da indumentária, transformando a passarela em um espaço de elaboração estética e política.

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Carll e Nair pontuam que “o trabalho é pautado na ótica da sustentabilidade e ancestralidade negra, confeccionando peças pensadas no reconhecimento da beleza e no resgate da autoestima da população negro-favelada da grande Fortaleza através da moda. Por entre os inúmeros encontros e atravessamentos coletivos permeados de transversalidades artísticas, o próprio território, as famílias e os pares atravessados pelo racismo são o principal referencial particular da Mancuda.

A proposta criativa parte da observação das formas de vestir que atravessam as comunidades periféricas da capital cearense. Peças recorrentes no cotidiano desses territórios são reinterpretadas por meio da ampliação de volumes, da valorização de curvas estruturadas e do aprofundamento das construções formais. O resultado não consiste em uma simples atualização de códigos urbanos, mas em um exercício de deslocamento simbólico capaz de transformar elementos familiares em artefatos de experimentação estética. Ao preservar os vínculos com o território de origem enquanto projeta novas possibilidades de existência para esses mesmos códigos visuais, a coleção opera numa zona de tensão produtiva entre reconhecimento e reinvenção.

Mancuda (Foto: Nicolas Gondim)

De acordo com os criadores da marca, a coleção lançada na passarela do DFB Festival, “propõe um futurismo cearense construído a partir do cotidiano, onde peças recorrentes no vestuário das comunidades são revisitadas por meio de volumes ampliados, curvas acentuadas e maior profundidade formal. Esse deslocamento transforma referências reconhecíveis em novas possibilidades de leitura, preservando vínculos com o território e com as experiências que estruturam a trajetória da marca. A escolha por texturas mais densas e materiais de maior peso estabelece um contraste com a leveza comumente associada ao clima local, direcionando o olhar para a paisagem têxtil das comunidades como campo de experimentação estética”.

Mancuda (Foto: Nicolas Gondim)

A apresentação também permite uma reflexão mais ampla sobre aquilo que, nas últimas décadas, passou a ser identificado como “Moda de Favela”. Embora frequentemente associada ao universo do streetwear, do funk, do hip-hop e das culturas urbanas periféricas, essa definição ultrapassa aspectos meramente estilísticos. Trata-se de um fenômeno cultural que articula práticas de consumo, estratégias de sobrevivência, processos de criação coletiva e formas de representação social. A estética produzida nas periferias brasileiras constitui um sistema próprio de significação, capaz de traduzir pertencimentos, aspirações e formas de resistência diante de estruturas históricas de exclusão.

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Outro aspecto fundamental para compreender a identidade da Mancuda reside na centralidade da ancestralidade negra em seus processos criativos. A marca desenvolve campanhas, imagens e produtos orientados pelo reconhecimento da beleza negra e pela valorização da autoestima da população negro-favelada da Região Metropolitana de Fortaleza. A moda é compreendida como ferramenta de reconstrução simbólica, capaz de enfrentar narrativas históricas de apagamento e produzir novas representações sobre corpos que tradicionalmente ocuparam posições periféricas nos sistemas de visibilidade da moda brasileira.

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mancuda, coleção “Favelawear” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

A filosofia que orienta a atuação da marca encontra síntese no conceito de Sankofa, símbolo pertencente ao sistema Adinkra dos povos Akan, da África Ocidental. Frequentemente presente nos discursos, coleções e espaços ocupados pela Mancuda, Sankofa pode ser compreendido como o princípio de retornar ao passado para recuperar conhecimentos indispensáveis à construção do futuro. Mais do que uma referência visual ou conceitual, o símbolo opera como fundamento epistemológico da marca, orientando uma prática criativa baseada na valorização da memória, da ancestralidade e da continuidade histórica.