DFB Festival: Lindebergue Fernandes lança luz para a indumentária litúrgica e reflete sobre os símbolos da contemporaneidade


Em 2026, Lindebergue celebra 25 anos de participação no DFB Festival. O estilista tem uma assinatura consolidada na moda autoral pela constante investigação das possibilidades narrativas do vestuário. Ao longo de duas décadas e meia, desenvolveu coleções que desafiam leituras convencionais da roupa, propondo diálogos entre o masculino e o feminino, entre o popular e o erudito, entre o melodrama e a sofisticação, entre a televisão, a literatura, a religiosidade e a cultura nordestina. Nesta edição, ele retoma um tema importantíssimo em sua trajetória: a religiosidade. Longe de representar apenas um elemento de devoção, ela aparece como um dos mais importantes patrimônios simbólicos da cultura ocidental e brasileira e capaz de revelar relações entre tradição, identidade, estética, sagrado, mundano, levitações e êxtase, proporcionando reflexões sobre a sociedade contemporânea. Criado no interior do Ceará, cercado pelas manifestações da fé popular e pela força imagética do catolicismo, o estilista encontra nesse repertório uma fonte inesgotável de pesquisa sobre os significados históricos, culturais e sociais da indumentária litúrgica

DFB Festival: Lindebergue Fernandes lança luz para a indumentária litúrgica e reflete sobre os símbolos da contemporaneidade

Me sinto privilegiada por ter acompanhado ao longo de mais de duas décadas e meia a relação entre Lindebergue Fernandes e o DFB Festival, maior plataforma da moda autoral brasileira, realizado em Fortaleza (CE). Foi durante o Concurso dos Novos Talentos em 2000, que o estilista conquistou sua entrada definitiva na programação oficial no ano seguinte, iniciando uma trajetória ininterrupta que acompanha o amadurecimento da moda autoral produzida no Nordeste. Durante 25 edições consecutivas, consolidou uma assinatura reconhecida pela capacidade de transformar experiências pessoais, referências culturais, religiosidade, e investigações sociais nas mais incríveis e emblemáticas narrativas visuais. Costumo dizer que Lindebergue construiu um repertório que ajudou a afirmar o Ceará como um dos mais importantes polos da moda autoral brasileira.

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Na coleção comemorativa apresentada no DFB Festival 2026, Lindebergue nos inspira a pensar sobre a religiosidade cristã como um patrimônio estético, histórico e simbólico que atravessa séculos da cultura ocidental. Ao voltar seu olhar para a indumentária litúrgica, ele  reafirma a capacidade da moda de dialogar com sistemas complexos de significados, investigando como determinadas vestimentas preservam tradições, estabelecem hierarquias visuais e comunicam pertencimento. Trata-se de compreender o vestuário religioso como uma das expressões mais sofisticadas da história da indumentária, na qual forma, proporção, cor, materialidade e ornamentação constituem uma linguagem visual cuidadosamente codificada.

Assim, ao renovar sempre seus votos de fé na criação autoral, Lindebergue Fernandes reafirma também a maturidade de um pensamento construído ao longo de um quarto de século. Sua coleção celebra o poder da moda de preservar memórias, revisitar patrimônios culturais, provocar perguntas e respostas e construir novos significados para a roupa.

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Relações como essa, como explica Lindebergue, entre sonho e oportunidade, entre destino e acaso, refletem sua própria trajetória: “Se não fosse pelo voto de fé de Claudio Silveira e Helena Vieira em mim, eu mesmo não teria tido chance de ser ouvido pelo mundo. Quando se é um menino pobre, gay, vindo do interior do sertão cearense, às vezes tudo o que é necessário é uma mão estendida; e esse gesto é, quase sempre, um milagre que nos chega por alguma razão”.

Durante nossos diversos encontros em Fortaleza, Lindebergue Fernandes sempre exaltou a potência da moda do Nordeste em fazer a roda da economia girar no país. “Reunimos toda a cadeia produtiva. Do plantio do algodão à vocação do nosso povo para o comércio. Olha aí, todas as pontas juntas. Mas o Nordeste não é um ‘lugar’. Somos uma nação gigante e múltipla, com infinitos sotaques e formas de falar a língua da moda. Aqui se produz milhões de peças de lingerie por ano; mas aqui também é o berço de um evento como o DFB, interessado nas perspectivas e provocações artísticas que só a moda é capaz de suscitar. Somos poderosos e sabemos disso”.

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Sua assinatura autoral consolidou-se pela constante investigação das possibilidades narrativas do vestuário. Ao longo de duas décadas e meia, desenvolveu coleções que desafiam leituras convencionais da roupa, propondo diálogos entre o masculino e o feminino, entre o popular e o erudito, entre o melodrama e a sofisticação, entre a televisão, a literatura, a religiosidade e a cultura nordestina. A desconstrução das silhuetas, a teatralidade das apresentações e a valorização do vestir como fenômeno cultural tornaram-se marcas permanentes de uma produção que entende a moda como território de pensamento e expressão artística.

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Lindebergue relata que a coleção é fruto de uma viagem ao Vaticano, em 2025, após ter se apresentado no DFB. “A coleção retoma o fio narrativo já apresentado em 2017, na coleção “Noviços & Rebeldes”, em que analisou a indumentária das freiras”. Segundo ele, o foco, agora, é o vestuário dos padres, “inspirado em uma história fascinante, descoberta meses atrás, durante uma missa no Mosteiro de São Bento, em Messejana, na periferia de Fortaleza (um dos poucos locais em que a cerimônia é narrada e cantada em latim)”. Durante a homilia, o estilista conheceu a história de São José de Cupertino (1603- 1663).

Lindebergue Fernandes: inspiração em São José de Cupertino, frade italiano do século XVII conhecido pelos relatos de levitação e êxtase religioso

Reconhecido pela tradição católica como o santo associado às experiências de êxtase espiritual e levitação, sua história oferece ao criador uma potente metáfora sobre transcendência, deslocamento e suspensão da realidade. Em vez de representar literalmente episódios religiosos, a coleção transforma esses elementos em imagens poéticas que dialogam com o imaginário da moda, propondo uma reflexão sobre a relação entre matéria e espiritualidade.

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Lindebergue (Foto: Nicolas Gondim)

Reiterando, a figura de São José de Cupertino estabelece uma conexão direta entre o universo da fé e a criação artística. Na coleção, o conceito de levitação ultrapassa a dimensão milagrosa para converter-se em estratégia estética. Volumes suspensos, silhuetas alongadas e movimentos fluidos sugerem a ideia de ascensão, conferindo às roupas uma sensação permanente de deslocamento entre o terreno e o celestial. A passarela torna-se, assim, um espaço onde o vestuário assume uma dimensão quase performática, revelando como a moda pode traduzir conceitos abstratos em construções materiais de grande impacto visual.

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

O ponto de partida dos shapes é a própria batina – uma peça legítima, emprestada por um sacerdote amigo de Lindebergue, serviu como base para a modelagem da coleção. Uma peça que parece minimalista na forma, mas que carrega inúmeros simbolismos, do comprimento ao número de botões frontais.

“Como esse vestido masculino virou um código de gênero tão simbólico e facilmente identificável? E como é possível dessacralizar essa peça de vestuário histórica, para levar à passarela algumas reflexões contemporâneas?”, provoca o estilista. A pergunta sintetiza um procedimento recorrente em sua obra: investigar como determinados códigos visuais são construídos socialmente e de que maneira a moda pode reposicioná-los, sem apagar sua memória, mas ampliando seus significados. Na passarela, a batina em si, assim como São José de Cupertino levitava em seus êxtases, agora flutua na imaginação de Lindebergue, surgindo em renda, em jeans, em paetê e em brocados valiosos.

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Essa operação criativa aparece de maneira evidente quando a batina abandona a literalidade para renascer em rendas, jeans, paetês, brocados e tecidos de elevada elaboração têxtil. A estrutura permanece reconhecível, mas sua materialidade se transforma. Ao reinterpretar uma das peças mais emblemáticas da história da indumentária ocidental, Lindebergue demonstra que a moda possui a capacidade de atualizar patrimônios culturais, convertendo tradição em linguagem contemporânea sem perder sua força simbólica.

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Essa mesma perspectiva aparece na construção de outros elementos conceituais da coleção. Os bordados que aproximam as palavras “Pax” (“paz”em latim”) e “Pix” funcionam como recurso gráfico e discursivo para provocar reflexões sobre os encontros entre espiritualidade, economia, consumo e sociedade contemporânea. A provocação não pretende oferecer respostas definitivas, mas reafirmar uma característica permanente da obra de Lindebergue: utilizar a moda como linguagem capaz de estimular pensamento crítico e ampliar os significados culturais do vestir.

Outro aspecto relevante da coleção reside na pesquisa sobre os elementos constitutivos do vestuário religioso. O escapulário passa a integrar novas composições volumétricas que ampliam a verticalidade das silhuetas e produzem movimentos contínuos durante o desfile. Longas vestes confeccionadas em crochê de fio de papel estabelecem um delicado jogo entre revelar e ocultar o corpo, enquanto tecidos resinados produzem superfícies que remetem ao brilho do couro e do verniz dos sapatos litúrgicos. Bordados, brocados e aplicações dialogam com a riqueza ornamental do barroco, especialmente com a exuberância visual dos altares do Vaticano, reafirmando a relação histórica entre arte sacra, arquitetura e vestuário.

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Como já frisei, em praticamentetoda sua trajetória, Lindebergue articula também questões sociais que atravessam sua própria experiência de vida. Ao colocar em diálogo a monumentalidade barroca do Vaticano e os princípios da Teologia da Libertação, surgida na América Latina na década de 1960, o estilista aproxima dois imaginários que, à primeira vista, parecem distantes. Entre eles, constrói uma reflexão sobre transformação humana.

A coleção ainda estabelece um diálogo sensível com o universo literário cearense ao evocar “A Cabeça do Santo”, de Socorro Acioli, que vai virar filme e enredo de escola de samba em 2027. O romance publicado em 2014 pela escritora cearense que combina realismo mágico, religiosidade popular, tradição oral nordestina e crítica social. A obra nasceu durante a última oficina literária ministrada por Gabriel García Márquez, em 2006, influência perceptível na construção do universo fantástico do romance. Essa aproximação amplia o repertório simbólico do desfile e reafirma uma característica permanente da trajetória do estilista: a valorização da produção intelectual e cultural do Ceará como fonte legítima de criação contemporânea. Literatura, religiosidade popular, memória afetiva, teatro, televisão e história da indumentária convivem em um mesmo projeto estético, demonstrando a amplitude das referências que alimentam sua produção.

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Lindebergue Fernandes (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

No cinema, o romance ganhará uma adaptação dirigida e roteirizada por Joana Mariani. O elenco já reúne nomes como Jesuíta Barbosa, Agnes Nunes e Antônio Pitanga. Em fevereiro de 2026 ocorreu a primeira leitura do roteiro com o elenco, mas a produção ainda não anunciou a data oficial de estreia.

Já no Carnaval de 2027, a obra será transformada em enredo da Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos da Tijuca. A escola anunciou oficialmente o tema em abril de 2026, dando continuidade à proposta de levar a literatura brasileira para a Sapucaí, com concepção do carnavalesco Lucas Milato.

O enredo baseia-se em um fato inusitado ocorrido na década de 1980 na cidade de Caridade, no Ceará. Um monumento gigante de Santo Antônio foi encomendado, mas a cabeça da estátua era tão pesada que não pôde ser içada e acoplada ao corpo. A cabeça do santo permaneceu abandonada no chão entre as casas, tornando-se alvo de devoção, pedidos e milagres por parte dos moradores locais. A escola levará esse misticismo e a cultura sertaneja nordestina para a Marquês de Sapucaí.