Há criadores cuja trajetória tenho o privilégio de testemunhar desde os primeiros passos na moda autoral contemporânea. George Azevedo é um deles. Conheço seu trabalho desde os tempos em que ele atuava full time como jornalista e, depois, acompanhei de perto a construção de uma identidade na moda autoral através da sua marca George Azevedo Arte. Fui uma das primeiras pessoas lançar um olhar para a sua verve como artista plástico, depois as pesquisas para transformar tecidos em tela e, a partir dessa simbiose, as pinturas feitas à mão começaram a ocupar lugar de destaque em suas criações e revelavam um olhar artístico que ultrapassava os limites convencionais do vestuário. Ao longo dos anos, a obra de George amadureceu e se consagrou como pura sensibilidade visual e capacidade de transformar paisagens, memórias e afetos em moda.

George Azevedo e sua arte que encanta (Foto: Divulgação)
Talvez por isso, assistir a um novo desfile de George no DFB Festival 2026, em Fortaleza (CE) — o grande encontro multiplicador de moda autoral, cultura, capacitação, empreendedorismo, música e gastronomia — seja também revisitar uma trajetória construída com coerência, persistência e identidade. Há uma familiaridade afetiva em reconhecer, coleção após coleção, os elementos que fazem parte de sua assinatura criativa: o gesto manual, a valorização da arte, o compromisso com a narrativa e, sobretudo, a habilidade de traduzir o seu Rio Grande do Norte (RN) contemporâneo em imagens que emocionam quanto vestem.

George Azevedo (Foto: Nicolas Gondim)
Em suas coleções, elementos da cultura popular, da paisagem litorânea, das manifestações artísticas regionais e das narrativas afetivas do cotidiano são transformados em linguagem visual, revelando um criador que compreende a roupa como suporte de expressão cultural. A coleção batizada “Vento Forte”, apresentada no DFB Festival 2026, surge como mais um capítulo dessa trajetória de pesquisa visual. O desfile foi a síntese da maturidade criativa do estilista ao transformar um elemento natural (o vento) em conceito da narrativa da coleção. Mais do que uma inspiração paisagística, o vento é compreendido como agente transformador da experiência cotidiana no litoral potiguar, influenciando deslocamentos, práticas esportivas, modos de vida e até mesmo a configuração visual da paisagem.

George Azevedo (Foto: Nicolas Gondim)

George Azevedo (Foto: Nicolas Gondim)

George Azevedo (Foto: Nicolas Gondim)

George Azevedo (Foto: Nicolas Gondim)
Ao escolher o tema que permeou suas criações, George Azevedo proporcionou sensações, movimentos e atmosferas. O vento passa a ser interpretado como força que atravessa corpos, metáfora de liberdade, deslocamento, transformação e energia. Não se trata de uma inspiração descritiva, mas de uma operação estética sofisticada, em que o vento deixa de ser fenômeno climático para se tornar linguagem. A coleção também propõe uma reflexão sobre a relação entre natureza e tecnologia no contexto do litoral nordestino contemporâneo. A coleção nasce da observação das velas coloridas do kitesurf e da intensa relação entre esporte, natureza e liberdade que marca o cotidiano da região.

George Azevedo (Foto: Nicolas Gondim)

George Azevedo (Foto: Nicolas Gondim)

George Azevedo (Foto: Nicolas Gondim)

George Azevedo (Foto: Nicolas Gondim)
“Vento Forte” é também a forma como o estilista revisita o imaginário dos anos 1980. Os elementos ganham forma em uma proposta que mistura referências esportivas e ecos da estética praiana dos anos 1980. A década surge como evocação de um período marcado pela valorização da vida ao ar livre, pelas cores vibrantes e pelo fascínio coletivo em torno do mar. A praia como espaço de liberdade, de convivência, de esporte e de exposição do corpo ao sol reaparece como referência.

George Azevedo (Foto: Nicolas Gondim)
George Azevedo ressalta que “Vento Forte” reafirma um dos pilares centrais da sua produção: o compromisso com práticas sustentáveis e com a valorização do reaproveitamento têxtil. A permanência do upcycling como estratégia criativa demonstra uma postura crítica diante dos excessos produtivos da indústria da moda. Ao reutilizar tecidos, o estilista transforma resíduos e excedentes em matéria de experimentação estética, atribuindo novos significados a materiais que poderiam ser descartados. No campo da matéria, portanto, “Vento Forte” o uso de materiais já existentes, reconfigurados em novos contextos, transforma o próprio processo criativo em gesto crítico.

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
O designer deu ênfase à utilização de tecidos residuais de kitesurf, resultado da parceria com a KiteCoat. O mesmo elemento que inspira a coleção também está presente nos tecidos que compõem parte dos looks. Trata-se de uma solução que deve ser aplaudida pela sustentabilidade e construção material. Os tecidos carregam consigo marcas de uso, memória e deslocamento, enriquecendo ainda mais a dimensão simbólica das peças. As estampas desenvolvidas em parceria com a Attualitá Têxtil ampliam esse universo imagético ao incorporar grafismos que evocam paisagens costeiras, movimentos do vento e elementos da cultura marítima e do urbano.

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

George Azevedo (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
Visualmente, a paleta cromática reforça essa construção sensorial. Tons intensos, luminosos, quase solares, evocam o encontro entre céu, mar e areia, criando uma atmosfera que traduz a experiência do litoral nordestino em sua potência máxima.
Ao fazer um flashback do trabalho de George Azevedo, destaco a capacidade de transformar o tecido em narrativa viva. Bordados, pinturas manuais, aplicações e intervenções artísticas não surgem como elementos decorativos, mas como estruturas de pensamento visual. Em sua obra, a roupa pode ser usada por uma pluralidade de corpos e passa a operar como suporte de memória, território e imagem, conjugando moda e artes visuais.

Palmas para George Azevedo na passarela (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
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