DFB Festival: Gabriela Fiuza faz a conexão entre moda autoral, paisagens afetivas e pertencimento em “Horizonte de Iracema”


A coleção “Horizonte de Iracema”, de Gabriela Fiuza, transformou a Praia de Iracema em narrativa de moda autoral ao abordar memória e identidade no desfile apresentado no DFB Festival – maior semana de moda autoral do Brasil -, justamente no bairro onde a marca nasceu há 10 anos. No DNA, a valorização da sustentabilidade, do trabalho manual, do slow fashion e do empreendedorismo feminino. A estilista ratificou que algumas paisagens de Fortaleza (CE) são sinônimos de memórias afetivas. Assim como a Iracema de José de Alencar atravessou o tempo para habitar a imaginação de gerações, a Praia de Iracema segue produzindo histórias alinhavadas pelas mãos de criadores que transformam identidade em linguagem de moda, saberes ancestrais em peças de luxo

Era sempre com emoção que ele (Martim) revia o lugar onde fora tão feliz e as verdes folhas a cuja sombra dormira. Muitas vezes ia sentar-se naquelas doces areias, para cismar e acalentar no peito a ágria saudade.” Assim José de Alencar (1829-1877) encerrava “Iracema”, verdadeira obra-prima, com a memória luminosa de quem sabe que certos lugares habitam a alma para sempre. Iracema foi uma das primeiras personagens da literatura brasileira a ser elevada à condição de mito fundacional — um mito que ultrapassou a narrativa literária, consolidou-se no imaginário cultural, nomeou uma praia e atravessou gerações, chegando, na contemporaneidade, a inspirar coleções de moda autoral como repertório simbólico para pensar pertencimento, memória e construção de imagem.

Horizonte de Iracema” nasceu da conexão entre Gabriela Fiuza e Fortaleza: “um encontro atravessado pelo vento, pelo sal na pele, pela luz do poente e pelas paisagens cidade que permanecem vivas em nossas memórias”. A coleção da estilista propõe uma sinergia entre o mar e a areia, a praia e a cidade, o urbano e a natureza — abordando, com delicadeza e intenção, temas como memória afetiva, pertencimento e continuidade. O desfile foi mega aplaudido no DFB Festival — grande encontro multiplicador de moda autoral, cultura, capacitação, empreendedorismo, música e gastronomia.

Gabriela Fiuza (Foto: Nicolas Gondim)

Foram apresentados mais de 20 looks que combinaram sobreposições e transparências a rendas e sedas, compondo silhuetas sofisticadas e fluidas. Em “Horizonte de Iracema”, a estilista revisitou a coleção apresentada em 2025, agora ressignificada pelas celebrações dos 300 anos de Fortaleza e pela escolha da Praia de Iracema como cenário do DFB. Propôs uma leitura em camadas da memória e da identidade cultural. Parte poesia visual, parte arqueologia afetiva.

A estilista ratificou que algumas paisagens são sinônimos de memórias afetivas. Assim como a Iracema de José de Alencar atravessou o tempo para habitar a imaginação de gerações, a Praia de Iracema segue produzindo histórias alinhavadas pelas mãos de criadores que transformam identidade em linguagem de moda, saberes ancestrais em peças de luxo. A contribuição de Gabriela Fiuza compreende Fortaleza (CE) como patrimônio cultural vivo, cidade construída por experiências sensíveis e por referências compartilhadas entre diferentes gerações. A moda, além de responder às dinâmicas do presente, também possui capacidade de participar da construção da identidade de um território, produzindo novas formas de compreender a relação entre criação, memória e cultura.

Gabriela Fiuza (Foto: Nicolas Gondim)

Gabriela Fiuza (Foto: Nicolas Gondim)

Gabriela Fiuza (Foto: Nicolas Gondim)

Gabriela Fiuza (Foto: Nicolas Gondim)

A cidade é compreendida como um espaço construído por experiências sensíveis e por referências compartilhadas entre diferentes gerações. O vento constante, a luminosidade característica do litoral e a paisagem da Praia de Iracema aparecem como componentes de uma memória urbana que ultrapassa a dimensão física e passa a integrar o imaginário coletivo. Dessa maneira, Gabriela Fiuza faz uma leitura segundo a qual o pertencimento não decorre exclusivamente da ocupação de um lugar, mas da permanência dos vínculos afetivos estabelecidos com ele.

A Ponte dos Ingleses não se limita ao reconhecimento de um marco arquitetônico amplamente associado à Praia de Iracema, mas opera como um signo da própria continuidade histórica da cidade. Construída na década de 1920 e reformada em 2024, a ponte tornou-se também um espaço privilegiado para contemplar o pôr do sol emblemático da cidade. Ao longo de décadas, a estrutura consolidou-se como um ponto de encontro entre diferentes temporalidades, testemunhando transformações urbanas, mudanças sociais e novos modos de interação com o espaço público.

Em 2026 completamos 10 anos de marca e fazer nosso desfile, ainda mais no DFB, e especialmente na Praia de Iracema, é muito simbólico para mim. A Gabriela Fiuza é uma marca cearense nascida na Praia de Iracema, onde vivemos pelos três primeiros anos, e por este lugar temos amor, admiração e respeito. Eu e toda minha equipe estamos orgulhosos e felizes. Foi lindo! — Gabriela Fiuza

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

A narrativa visual da coleção by Gabriela Fiuza incorpora ainda a força de “La Femme Bateau”, de Sérvulo Esmeraldo (1929-2017). A moda passa a funcionar como campo de sincronia, onde escultura, paisagens e acontecimentos urbanos são absorvidos como estruturas de pensamento. A obra apresentava uma figura híbrida, metade corpo feminino, metade embarcação, construindo uma imagem sobre movimento, permanência e transformação. Feita para dialogar com o vento e a luz natural de Fortaleza e voltada para o horizonte, a escultura evocou coragem, fantasia e esperança, símbolo da relação íntima que a cidade construiu com o mar e com o tempo.

Instalada na região da Praia de Iracema, nas proximidades da Ponte dos Ingleses, a escultura passou a integrar de maneira profunda o imaginário urbano de Fortaleza. Sua presença no espaço público a transformou em um ponto de referência simbólica, articulando arte contemporânea e paisagem litorânea. Com o tempo, a obra deixou de ser apenas um objeto escultórico para se tornar parte da experiência afetiva da cidade, associada às relações entre memória, território e mar.

Em março de 2018, a escultura foi atingida pela força das ondas e acabou sendo levada pelo mar na região da Praia de Iracema. O episódio gerou forte comoção na cidade pelo resgate, justamente porque a obra já havia ultrapassado seu estatuto material e se consolidado como elemento do imaginário coletivo de Fortaleza.

A trajetória de Sérvulo Esmeraldo é fundamental para compreender essa camada conceitual. Artista nascido no Crato, no Cariri cearense, em 1929, ele deixou um legado de esculturas, gravuras e desenhos, com abordagem inovadora e domínio das formas geométricas. Após mais de duas décadas vivendo na França — onde desenvolveu pesquisas em arte cinética e criou os célebres “Excitáveis”, obras movidas por eletricidade estática —, seu retorno ao Brasil no fim dos anos 1970 foi motivado pelo desejo de explorar a luz natural do Ceará em projetos de escultura pública. O artista plástico morreu em 2017.

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

 

Alinhavando sonhos

Fundada em 2016, a label Gabriela Fiuza tem como DNA valores de sustentabilidade, autoralidade, autenticidade e o slow fashion. A marca valoriza o trabalho manual, o empreendedorismo feminino e a troca genuína com quem a veste, com o objetivo de estabelecer um ciclo produtivo mais justo e mais consciente — elementos que dialogam diretamente com a essência de uma grife criada pela designer do mesmo nome, que construiu na marca uma identidade com seu olhar sensível para a feminilidade, valorização das referências locais e pela conexão afetiva com o território que a viu nascer.

A jornada de Gabriela Fiuza começou com um sonho ainda dentro da sala de aula. Foi durante a graduação em Design de Moda que ele mergulhou na proposta do slow fashion. “Venho de uma graduação onde se incentiva bastante o empreendedorismo, sendo desde o início estimulada a criar meu próprio negócio com base na economia criativa, sustentável e em novas formas de consumo”, afirma Gabriela Fiuza.

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Gabriela Fiuza, coleção “Horizonte de Iracema” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)