DFB FESTIVAL: “Energia by Almir França” e o upcycling inspirado nos parangolés de Hélio Oiticica


A coleção é fruto da parceria com o departamento de sustentabilidade da empresa Enel e 100% realizada a partir de técnicas de upcycling com o reaproveitamento dos uniformes dos funcionários. A partir desse processo, Almir França estabeleceu uma conexão entre os uniformes e a ideia simbólica de proteção e resistência. “Fiz uma relação entre os casacos dos trabalhadores com o pertencimento e a garantia da sobrevivência coletiva. Por isso, levei para a passarela a imagem de guerreiros dispostos a lutar pela paz e meio ambiente”, revela o designer

DFB FESTIVAL: "Energia by Almir França" e o upcycling inspirado nos parangolés de Hélio Oiticica

O estilista Almir França é incensado por criar verdadeiras obras de arte em forma de roupas. Um dos nomes mais respeitados da moda autoral brasileira, ele apresentou a coleção “Energia by Almir França” na passarela do DFB Festival 2026 – multiplataforma da sinergia entre moda autoral, cultura, incluindo capacitação, empreendedorismo, música, gastronomia -, realizado em Fortaleza (CE). Todas as criações foram construídas a partir do reaproveitamento de uniformes dos funcionários da Enel, reafirmando sua longa pesquisa sobre moda circular, upcycling e na continuidade de soluções para o descarte têxtil.

Inspirada nos Parangolés de Hélio Oiticica (1937-1980), a coleção transformou roupas em movimento, aproximando arte, corpo e ativismo. Jaquetas, saias e vestidos surgiram em diferentes tons de verde, dialogando com as urgências ambientais contemporâneas.

Almir França - Backstage - Coleção Energia (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Nicolas Gondim)

Sobre os elementos visuais da coleção, Almir detalha: “A cartela de verdes marca não só os guerreiros dos corpos, mas também a luta ambiental. Modelagens simples e moulages dialogam com a obra de Hélio Oiticica, especialmente os parangolés, enquanto estampas feitas com carimbos e estêncil remetem à cultura do cordel. Também faço, de forma sutil, uma referência a José de Alencar (1829-1877) trazendo roupas de mulheres guerreiras inspiradas na personagem Iracema. Enfim, é um exercício de lutadoras pela paz”.

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

A famosa série de obras de arte vestíveis – capas, faixas e estandartes – foram criadas pelo artista plástico Hélio Oiticica a partir de 1964. Os parangolés podiam conter frases políticas ou poéticas e eram confeccionados em materiais diversos (tecidos, plásticos, juta, papel) que ganham vida quando usados e dançados pelo espectador.

Para Almir, o desfile também funciona como uma reflexão sobre o papel social da moda e sobre os caminhos possíveis para uma indústria mais consciente. “Participar de uma semana de moda com a amplitude do Dragão Fashion Brasil é sempre muito importante. Na verdade, o DFB é um grande festival de design, arte e processos criativos. Para além dos desfiles, ele abre espaço para outras linguagens, performances e para reflexões que dialogam diretamente com a sociedade”, afirma. O criador explica que a coleção apresentada nasceu da necessidade de pensar o ciclo completo das roupas e dos materiais.

Faço moda para cuidar dos corpos que vestem roupas. E também para pensar o que acontece com essas roupas depois que elas são usadas. Como elas podem continuar vivas em outros corpos? Nesta coleção, trabalhei com uma matéria-prima carregada de histórias: uniformes de trabalhadores do setor de energia. Meu desafio foi ressignificar esses uniformes de maneira objetiva e criativa, mostrando como eles podem ser reaproveitados dentro de uma nova lógica de produção – Almir França

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A partir desse processo, ele estabeleceu uma conexão entre os uniformes e a ideia simbólica de proteção e resistência. “Fiz uma relação entre os casacos dos trabalhadores com o pertencimento e a garantia da sobrevivência coletiva. Por isso, levei para a passarela a imagem de guerreiros dispostos a lutar pela paz e meio ambiente”. A coleção também dialogou diretamente com os 300 anos de Fortaleza: “Quis dar um beijo na cidade de Fortaleza, constituída a partir de suas lutas na proteção do estado do Ceará e do Brasil. É uma forma de celebrar a História a partir da moda”.

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

A ideia foi criar peças objetivas dentro da cadeia da moda casual. “Falo de uma guerra que esta indústria precisa enfrentar diariamente. O mundo vive uma grande luta: guerras inimagináveis contra o ar, contra o solo e, principalmente, contra a vida. Quis dar um beijo à cidade de Fortaleza, constituída a partir de suas lutas na proteção do estado do Ceará e, por tabela, do Brasil. Enfim, é um exercício de lutadoras pela paz”, revela Almir França.

Coleção "Energia por Almir França" (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

“Esse é o maior desafio, como é trabalhar esse design, como é trabalhar essa moda a partir desses resíduos, a partir do reaproveitamento. E, principalmente, quando a gente fala de uniformes, que são tão invisibilizados. A moda é muito transformadora, ao contrário do que pensamos, que ela é apenas um campo estético, ou um campo da vaidade, da construção da identidade. Mas ela pode, de fato, contribuir no processo de transformação para a questão ambiental. Upcycling pode ser definido como ‘(re)design inteligente’. Upcycling = design + sustentabilidade”.

Almir França - Backstage - Coleção Energia (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Nicolas Gondim)

 

Quero afirmar que é possível transformar descarte em potência criativa. Tenho esperança de que o público perceba sempre que não precisamos produzir cada vez mais tecidos, mais fios e mais matéria-prima. Tudo o que já produzimos talvez seja suficiente. O desafio agora é reinventar, reaproveitar e continuar essa luta que é, acima de tudo, uma luta pela resistência e pela vida – Almir França

A indústria da moda é a segunda maior poluidora do mundo, atrás apenas da indústria petrolífera. E levantamento publicado pela Global Fashion Agenda, organização sem fins lucrativos, aponta que mais de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis foram descartados no mundo em anos recentes. Há anos, Almir França aponta que “uma coleção de moda casual é criada anualmente como forma de resultado de mais de 10 toneladas de roupas usadas e resíduos”.

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Coleção “Energia por Almir França” (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Em tempo: vale sempre lembrar que, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), são produzidas 175 mil toneladas de resíduos têxteis por ano. Para se ter uma ideia da poluição causada pelo setor de moda, uma quantidade de tecidos equivalente a um caminhão de lixo é enterrada ou queimada a cada segundo em todo o planeta. O desperdício causado pela produção de roupas no mundo também é alarmante, sendo responsável por 20% do total de desperdício de água globalmente. Além disso, um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) revelou que a produção de um único par de jeans consome 7.500 litros de água e que a fabricação de roupas e calçados é responsável por 8% das emissões de gases de efeito estufa.