Antes de palavras como sustentabilidade, autoestima, resiliência e transformação social ganharem o mundo com mais potência, Silvania de Deus já vivia esses conceitos na prática — muitas vezes de maneira intuitiva, quase instintiva. Estilista, designer e empreendedora, ela é um dos grandes nomes da moda cearense, com ateliê instalado na Praia de Iracema, justamente na Rua dos Tabajaras, onde a passarela do seu desfile foi montada no DFB Festival — o grande encontro multiplicador de moda autoral, cultura, capacitação, empreendedorismo, música e gastronomia que viria a se tornar um dos pilares da moda brasileira.
Sil era ainda menina, enfronhada entre máquinas de costura, ouvindo a vizinhança bater à porta com o pedido de sempre: “Dona Mandica, pode passar uma costurinha aqui, por favor?”. Passaram-se as décadas, e foi em 1999 que Silvania estreou junto com o DFB Festival. Tornou-se, desde então, a primeira e única mulher a participar da edição inaugural do DFB. Vocacionada ao pioneirismo e às estradas — e essa menção não é gratuita, já que sua família era repleta de ferroviários, que conduziam suas vidas sobre trilhos de ferro —, Silvania apresentou no DFB 26 o tema “Odysséia”, celebrando os 30 anos de uma carreira que ela própria resume com uma frase que é quase um mantra: “Em todos os dias eu desisti de desistir.”
Ali, ao longo dos anos, ela foi costurando uma história ao mesmo tempo íntima e coletiva. Ao apresentar a coleção “Odysséia” no DFB Festival 2026, Sil presta homenagem à memória do amigo e sócio Max, com quem fundou sua primeira marca, e revisita três décadas de jornada no universo da moda autoral. Antes da virada dos anos 2000, ela fundou sua marca homônima. Desde então, a estilista se firmou como um dos nomes mais aclamados da moda cearense e da cena autoral brasileira.

Silvania de Deus (Foto: Nicolas Gondim)
As músicas que falavam ao seu coração compõe, talvez sem saber, a trilha sonora conceitual que bordou toda a trajetória de Silvania — filha de Dona Mandica. A própria estilista costuma dizer que aprendeu tudo o que sabe escutando canções, que carregam “um tom, que é um lamento (…) que acredito ter relação com a vida”, como disse certa vez. Sua coleção, então, é um gesto de memória: pensa nas mulheres — sobretudo nelas — que cantavam Núbia Lafayette enquanto lavavam roupa no tanque, mulheres que, como ela, foram “salvas por uma máquina de costura”. Como costuma dizer: “Acho que a máquina de costura salvou muitas famílias neste país.”
A estilista se inspira a criar encantamentos feitos à mão, em formas exclusivas e diversas de tecer a moda. “Um mergulho na parte mais profunda de mim”, revela Silvânia, que relembrou as décadas de lançamento da sua grife, renovando criações inspiradas nos “ciclos” femininos e com detalhamentos inéditos ao contar as histórias.

Silvania de Deus (Foto: Nicolas Gondim)

Silvania de Deus (Foto: Nicolas Gondim)
Gosto de uma roupa que conte uma história, se envolva comigo, que tenha uma relação; que viva ela o tempo que quiser viver – Silvania de Deus

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
Para Sil, a nova coleção simboliza território, parceria e, sobretudo, trajetória. A odisseia da qual ela fala remonta a uma Fortaleza e à história de uma mulher negra que conquistou seu espaço na cidade — e no mundo — por meio de suas criações. Em “Odysséia”, a estilista narra essa travessia: uma mulher negra, atravessada por heranças africanas recombinadas no Brasil, interessada na rua, na sensualidade e na diversidade dos corpos brasileiros. Uma mulher que, há 30 anos, constrói uma moda autoral que desafia moldes e expectativas.

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
Silvania está à frente do Ateliê da Sil, moda autoral afro-nordestina instalado em meio às fachadas históricas da icônica Rua dos Tabajaras, na Praia de Iracema. É também nesse espaço onde expressa toda a potência criativa por meio dos seus “vestíveis”. Segundo ela, é possível, politicamente, “vestir além de vestir o corpo. Mas também casas, espaços, ruas, móveis”, define a estilista. Segundo ela, suas estampas conversam bastante com as cores e os traços do continente africano, de uma negritude. Ela ressalta que esse é um dos princípios do povo negro: entender que há uma comunidade, que se não se juntar, não tem força.
Alinhavando sonhos e fé
Silvania transforma a própria trajetória em manifesto de existência, permanência e criação autoral. Tanto que converteu a Praia de Iracema em verbo ao batizar sua casa de “Iracemar” — tamanha a conexão com aquele pedaço de Fortaleza (CE) — e construiu uma carreira marcada pela valorização da diversidade dos corpos femininos, pela liberdade criativa e pela transformação da moda em ferramenta de pertencimento e ocupação de espaços. A partir da metáfora da jornada, “Odysséia” desloca o olhar dos heróis clássicos para uma mulher que abre seus próprios caminhos. A coleção dialoga ainda diretamente com “Paratodes”, apresentada anteriormente pela estilista.

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
Não é incomum que se pergunte a um estilista quem é a pessoa que veste a sua roupa. Silvania, que tem uma relação de lealdade com a vida, ao ser perguntada sobre isso, repetiu o nome de uma de suas coleções anteriores como resposta: suas roupas são “para todes!”. Foi, ao mesmo tempo, a moda — o próprio ato de vestir — que a fez ratificar a pluralidade e identidade das pessoa. Silvania conta que já ouviu de muita gente a afirmação: “Você diz que a sua roupa é feita à mão” — ao que ela responde, sem hesitar: “Máquina de costura é uma ferramenta tanto quanto uma agulha de mão.” É a retomada de uma ideia que ela carrega como princípio: a de que o lado mais bonito do bordado é sempre o de dentro.
Os 30 looks masculinos, femininos e agêneros apresentados na passarela foram construídos a partir de uma rica combinação de materiais — linho, algodão, gazes, sedas italianas, viscose e tecidos garimpados ao longo da trajetória da estilista, muitos deles pertencentes ao seu próprio acervo pessoal. As peças incorporam técnicas manuais como richelieu, crochê e bordados cearenses, além de procedimentos já consagrados em suas obras têxteis — resultado de um trabalho conjunto com mestras artesãs e da valorização de saberes tradicionais que Sil resgata e reinterpreta em cada criação.
Nesse desfile continuei falando de mim, contando a minha história, olhando para as referências que meu percurso me deu e me dá. Continuamos a olhar para dentro, continuamos a olhar para trás, continuamos a contar essa história que precisa ser contada – Silvania de Deus

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Silvania de Deus (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
A atmosfera do desfile foi potencializada pela participação especial da cantora Anelis Assumpção que esteve em Fortaleza exclusivamente para a apresentação, assinando a trilha sonora ao vivo do desfile. Somaram-se a ela convidados afetivos escolhidos pela própria estilista: Fernando Zugno, Aline Góes e Mariana Marques. Já a cenografia e a instalação, assinadas por Juliana Capelo e Fernando Targino, reforçaram o caráter imersivo da coleção.
Rua, cidade, experiência feminina, matrizes africanas e diversidade cultural brasileira atravessaram uma narrativa que entende a mistura como identidade e a ancestralidade como construção de futuro. Em um retorno simbólico à Praia de Iracema — território onde mantém seu ateliê desde 1999 e onde grande parte de sua história profissional foi construída —, a potente criadora reafirmou a moda como instrumento de resistência, liberdade e transformação social, celebrando uma trajetória costurada ponto a ponto ao longo de décadas. Das cadeiras na calçada ao Fuá da Sil, que há mais de 10 anos movimenta não só a moda, mas o design, a música e tantas outras expressões da cidade, fica evidente que Sil é algo além de estilista. Sil é artista.
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