Produzir uma moda indígena é dar continuidade a um conhecimento ancestral e abrir caminhos para que novas gerações ocupem espaços antes considerados inalcançáveis. Como costuma dizer, Rodrigo Tremembé, designer de moda, pesquisador e integrante do povo Tremembé, sua arte “veste corpos e refloresta mentes”. Nascido e criado na Terra Indígena Córrego João Pereira, em Itarema, no litoral oeste do Ceará, ele levou à passarela do DFB Festival 2026, maior semana da moda autoral do Brasil, uma criação profundamente conectada ao território, à memória coletiva e às narrativas ancestrais de seu povo e design autoral.
Seu trabalho é resultado de uma construção comunitária. Costureiras, artesãos, parentes e colaboradores da própria aldeia participam do desenvolvimento das coleções, transformando a moda em um espaço de circulação de saberes tradicionais e fortalecimento da identidade indígena. Sementes, fibras naturais, palha de carnaúba, bordados, grafismos e referências às pinturas corporais Tremembé aparecem como elementos estéticos e como expressões vivas de pertencimento e continuidade cultural. A coleção apresentada no DFB recebe o nome de ‘Tutóia’, palavra que significa “encanto” na língua Tremembé. O trabalho nasceu como uma homenagem à mãe do artista, Fátima Tremembé, que se encantou em 2025, e transformou a passarela em um percurso de memória, amor e ancestralidade.

Rodrigo Tremembé (Foto: Nicolas Gondim)
Quando escolhi o nome Tutóia, levei em conta o significado e pensei também na forma como compreendo a passagem da minha mãe para o mundo dos encantados. Pensei nos cantos que ela gostava de ouvir e cantar. Encanto e canto se aproximam dentro da minha memória, como caminhos que levam à espiritualidade, à presença e à continuidade dela. Tutóia é a forma que encontrei de caminhar ao lado da minha mãe mais uma vez. É uma coleção construída a partir do amor, da saudade e da certeza de que algumas presenças permanecem habitando nossas vidas, mesmo quando já seguiram outros caminhos – Rodrigo Tremembé
Antes da entrada dos modelos, a coleção foi apresentada por meio de um fashion film que introduzia visualmente a narrativa construída por Rodrigo. As imagens evocavam sentimentos de retorno, pertencimento e continuidade, preparando o público para um desfile concebido como um percurso entre memória, espiritualidade e afeto. O recurso audiovisual ampliou o caráter narrativo da coleção e reforçou a proposta de transformar lembranças em linguagem estética.
A coleção percorre experiências ligadas ao ambiente materno, à mulheridade e aos gestos de cuidado que sustentam a vida cotidiana. Fala sobre quem gera, acolhe, alimenta, orienta e acompanha. Fala sobre a força presente nas mulheres que constroem suas famílias por meio da dedicação diária, muitas vezes silenciosa. “Durante o processo criativo, procurei transformar recordações em matéria. Cada vestimenta reúne fragmentos de conversas, afetos, ausências, aprendizados e momentos que continuam vivos dentro de mim. São peças atravessadas pela memória e pela gratidão que tenho pela minha mãe”.

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)
A coleção nasceu da vontade de manter viva a memória de minha mãe e de revisitar tudo aquilo que compartilhamos ao longo da vida. Ao criar essas peças, voltei às lembranças da nossa casa, aos ensinamentos que recebi, às palavras que ainda carrego comigo e ao incentivo que ela sempre deu ao meu trabalho artístico – Rodrigo Tremembé

Rodrigo Tremembé: inspirada na mãe do artista, ‘Tutóia’ celebra memória, cuidado e ancestralidade (Divulgação)

Rodrigo Tremembé: inspirada na mãe do artista, ‘Tutóia’ celebra memória, cuidado e ancestralidade (Divulgação)
O desfile nasce da intimidade de uma história familiar, mas alcança dimensões universais ao abordar amor, perda, memória e a permanência daqueles que continuam habitando nossas vidas por meio das lembranças, dos ensinamentos e dos afetos que deixam como herança. Ao desenvolver a coleção, Rodrigo revisitou lembranças da infância, ensinamentos familiares, conversas, gestos cotidianos e afetos compartilhados ao longo da vida. Cada peça surgiu como um fragmento dessa relação, materializando sentimentos atravessados pela saudade e pela gratidão. A escolha do nome também dialoga com a forma como o artista compreende a passagem da mãe para o mundo dos encantados, dimensão espiritual profundamente presente na cosmologia Tremembé. Encanto e canto se unem como símbolos de permanência, presença e continuidade.
A coleção percorre temas ligados à mulheridade, ao cuidado e à força das mulheres que sustentam famílias e comunidades através de gestos muitas vezes invisíveis. É uma coleção que celebra quem acolhe, orienta, alimenta, protege e transmite conhecimento entre gerações. Mais do que retratar uma experiência individual, o desfile amplia essa homenagem para tantas mulheres indígenas cujas histórias ajudam a preservar culturas, territórios e modos de vida – Rodrigo Tremembé

Em suas criações, Rodrigo homenageia as mulheres indígenas e aos saberes ancestrais (Divulgação)
A memória, aliás, é um dos pilares centrais da trajetória criativa de Rodrigo Tremembé. Seu processo nasce da escuta: das histórias dos mais velhos, das narrativas do território, dos rituais, dos sonhos e das experiências vividas dentro da aldeia. Para ele, criar é uma forma de registrar histórias, preservar conhecimentos e construir pontes entre os saberes ancestrais e os espaços contemporâneos da arte e da moda. Esse olhar já levou o artista a importantes circuitos internacionais. Em 2022, uma de suas obras foi selecionada pela UNESCO para integrar uma exposição sobre justiça climática, em Paris. Em 2025, representou o Ceará e o Brasil na Bienal Révélations, também na capital francesa, apresentando trabalhos que unem arte contemporânea, moda indígena e ancestralidade Tremembé.

Entre memória e encantaria, Rodrigo Tremembé apresenta a coleção ‘Tutóia’ no DFB (Divulgação)
Seu trabalho transita entre exposições, projetos curatoriais e moda autoral, sempre voltado à valorização dos saberes ancestrais e à ocupação indígena dos espaços institucionais da arte. Depois de apresentar obras na Bienal Révélations, em Paris, o artista ingressa no Mestrado em Artes do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), tornando-se o primeiro indígena a acessar o programa após 10 anos de sua criação.
A arte como forma de existência
Rodrigo afirma que nunca enxergou a arte como uma escolha profissional, mas como parte inseparável de sua existência enquanto indígena. Nos contextos dos povos originários, explica, a arte está presente desde a infância, nas pinturas corporais, nos grafismos, no artesanato, nos símbolos e nos processos cotidianos de aprendizagem.
Desde criança, desenhava no chão da aldeia utilizando os dedos e gravetos, muito antes de conhecer a escrita. Na escola indígena, arte e vida também não se separam: desenhar, cantar, observar e repetir gestos fazem parte da formação cotidiana. Apenas quando passou a circular fora da aldeia esses conhecimentos passaram a receber nomes como “arte”, “artista” e “carreira artística”. “Não foi uma escolha no sentido tradicional. A arte sempre esteve comigo”, resume. Para ele, o que ocorreu foi o reconhecimento dessa vivência dentro da sociedade, transformando-a em trabalho, pesquisa e posicionamento político.

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)
Sua produção aborda território, corpo, memória, resistência e continuidade, combatendo a ideia de um indígena único ou pertencente apenas ao passado. Para ele, a simples presença de um corpo indígena ocupando espaços da arte, da moda e da academia já constitui um gesto político. Essa perspectiva também aparece na construção visual de “Tutóia”. Em vez de transformar elementos culturais em ornamentos ou figurinos, Rodrigo incorpora referências Tremembé como parte da própria estrutura das peças, aproximando técnicas artesanais, modelagem contemporânea e processos criativos desenvolvidos em diálogo permanente com sua comunidade.

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)
Seu trabalho também é orientado pelos princípios do slow fashion. As peças são produzidas respeitando o tempo de criação, valorizando quem confecciona cada vestimenta e priorizando materiais de maior qualidade e menor impacto ambiental. A preocupação com a sustentabilidade também se estende às criações e embalagens produzidas com materiais ecológicos e reaproveitados. Essa pesquisa também se reflete na funcionalidade das peças apresentadas em “Tutóia”. Embora carreguem forte dimensão simbólica, as roupas foram concebidas para dialogar com o cotidiano, aproximando técnicas tradicionais e vestimentas contemporâneas. Dessa forma, Rodrigo demonstra que a moda indígena não pertence apenas aos espaços cerimoniais ou às passarelas, mas pode integrar diferentes experiências da vida diária sem perder sua identidade cultural.

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)

Rodrigo Tremembé, coleção “Tutóia” (Foto: Paula Matos)
Ao participar da Bienal Révélations, realizada no Grand Palais, apresentando duas obras ao lado de outros cinco artistas nordestinos e tornando-se o único artista indígena brasileiro presente naquele espaço, Rodrigo pontou, à época, que o mais importante foi ocupar um lugar de protagonismo, falando sobre sua própria cultura sem intermediários. Observou que a recepção de seu trabalho foi positiva, sobretudo pelo interesse crescente do público em compreender melhor os povos indígenas do Nordeste. Ainda assim, afirma que o reconhecimento mais importante vem de sua própria comunidade e de suas lideranças, pois demonstra que sua produção permanece conectada à aldeia e fortalece a autonomia e a memória coletiva do povo Tremembé.

Rodrigo Tremembé, backstage (Foto: Nicolas Gondim)

Rodrigo Tremembé, backstage (Foto: Nicolas Gondim)

Rodrigo Tremembé, backstage (Foto: Nicolas Gondim)

Rodrigo Tremembé, backstage (Foto: Nicolas Gondim)

Rodrigo Tremembé, backstage (Foto: Nicolas Gondim)

Rodrigo Tremembé, backstage (Foto: Nicolas Gondim)
Artigos relacionados
DFB Festival: Alan Araújo, à frente da 407 AA, assina coleção 'Patuá' conectando fé e saberes ancestrais das benzedeiras
DFB Festival: Rebeca Sampaio traduz o universo e a indumentária do vaqueiro em design contemporâneo com "Travessia"
Arezzo lança Cruise Collection: design, tecnologia e lifestyle inspiram uma releitura dos clássicos na temporada