Handmade em estado de pertencimento e uma poesia ecológica através da Ethos. Na bucólica Rua dos Tabajaras, em Fortaleza (CE), o desfile a céu aberto abriu o line up do segundo dia de programações do DFB Festival 2026, o grande encontro multiplicador de moda autoral, cultura, capacitação, empreendedorismo, música e gastronomia. Sob a direção criativa de Beatriz Castro, a Ethos apresentou a coleção “Integração”, conjugando memória, afeto e consciência ambiental. Entre a imensidão do mar, os saberes ancestrais e a delicadeza das mãos que bordam o tempo, Beatriz Castro transformou a passarela em um território propício para reverenciar a natureza.
No DFB Festival, cada fio, cada renda e cada gesto repleto de ancestralidade lembraram que a verdadeira contemporaneidade talvez esteja justamente na capacidade de preservar raízes enquanto se desenham novos caminhos. Como as marés que avançam e recuam sem jamais perder sua essência, a Ethos nos fez pensar que pertencer também é um ato de resistência.

Ethos (Foto: Nicolas Gondim)
Na Rua dos Tabajaras, a sinergia entre as novas movimentações culturais e a tradição se revela generosa. É lá que a Ethos ocupa, há 26 anos, o casarão amarelo erguido na década de 1940. Para Beatriz Castro, a coleção e o desfile representam, sobretudo, a “construção da alegria”. Ela reforça: “Não é qualquer coisa que irá tirá-la de mim”. Ou seja, em suas palavras, o desfile foi “resultado do trabalho, da dedicação e da sensibilidade de muitas pessoas que caminharam nessa construção. Para este desfile elegi, sobretudo, o elemento água, representado pelo mar, o grande amor da minha vida; espaço de conexão com o que é maior do que nós, um possível elo entre o humano e o divino. Sou apaixonada pelo mar. Minha catedral, meu colo, meu refúgio e minha conexão com o que há de mais sagrado”.

Ethos (Foto: Nicolas Gondim)

Ethos (Foto: Nicolas Gondim)

Ethos (Foto: Nicolas Gondim)

Ethos (Foto: Nicolas Gondim)
A marca trabalha com peças exclusivas, all handmade, brincando com a assimetria, o colorido e a renda de labirinto — técnica passada de geração a geração na região. Mais do que um desfile, a marca transformou a Rua dos Tabajaras em uma extensão de seu próprio discurso sobre identidade e consciência. No total, foram 30 looks em que se observa a harmonia entre tradição e inovação. A coleção “Integração” reúne elegantes peças de linho nas quais se sobressaem técnicas artesanais como bordado, crochê, labirinto e shibori — que são a marca registrada da Ethos no mercado brasileiro. O desfile também dá lugar às criações mais recentes da estilista e designer de moda autodidata, que também é artista visual e toma o crepe de viscose como tela para suas pinturas à mão inspiradas no conceito da nova coleção.

Ethos, coleção “Integração” (Foto: Calebe Nogueira/Paula Matos/Ducker Studios)

Ethos, coleção “Integração” (Foto: Calebe Nogueira/Paula Matos/Ducker Studios)

Ethos, coleção “Integração” (Foto: Calebe Nogueira/Paula Matos/Ducker Studios)

Ethos, coleção “Integração” (Foto: Calebe Nogueira/Paula Matos/Ducker Studios)

Ethos, coleção “Integração” (Foto: Calebe Nogueira/Paula Matos/Ducker Studios)

Ethos, coleção “Integração” (Foto: Calebe Nogueira/Paula Matos/Ducker Studios)
O mar, a fauna, a flora e os ciclos naturais atravessaram a narrativa visual da coleção, assim como a figura simbólica da bruxa, reinterpretada não como arquétipo de temor, mas como guardiã de saberes ancestrais ligados às plantas, às águas e aos ciclos da lua. Mais do que um desfile, a Ethos apresentou um manifesto visual sobre consciência ecológica e sobre a valorização dos conhecimentos transmitidos entre gerações.
Nós, bruxas modernas, amamos a natureza e a vida feita à mão. Somos capazes de morrer e renascer quantas vezes for necessário. Sabemos cozinhar, coser, remendar, recuperar, preservar, resgatar, nutrir, ressignificar e amar sem nos perder. Nosso maior feitiço é ter aprendido a nos reinventar sempre e para sempre – Beatriz Castro
Com a coleção ‘Integração’, a designer lembra “que nós, seres humanos, não estamos acima da natureza, mas fazemos parte dela. O mar, a fauna, a flora e os ciclos naturais atravessam esse trabalho como símbolos de uma relação que precisa ser baseada em respeito, cuidado e equilíbrio. Também trago a figura das bruxas como guardiãs de saberes ancestrais, mulheres conectadas à terra, às águas, às plantas e à própria liberdade. Por meio de técnicas manuais, fibras naturais e processos que respeitam o tempo das coisas, proponho uma reflexão sobre pertencimento, regeneração e reconexão com aquilo que sustenta a vida. Acredito que nosso maior desafio hoje é preservar, ressignificar e aprender a viver em harmonia com a natureza, sem esquecer quem somos”.

Ethos, coleção “Integração” (Foto: Calebe Nogueira/Paula Matos/Ducker Studios)

Ethos, coleção “Integração” (Foto: Calebe Nogueira/Paula Matos/Ducker Studios)
Há 33 anos, Beatriz tece um bonito lugar na moda autoral cearense. Socióloga, estilista autodidata, designer de moda e artista visual, ela fez da marca um território onde a moda aprendeu a respeitar o tempo das mãos — o tempo tranquilo e preciso do fazer manual. Sua trajetória dialoga, em essência, com o espírito do DFB Festival, e ultrapassa os limites do vestuário: foi professora de História da Indumentária nos primeiros cursos de Moda da Universidade Federal do Ceará (UFC), atuou como consultora de grupos artesanais e levou sua arte a exposições na Alemanha e na França. Sua obra traduz, fio a fio, o pensamento que a guia: o das mulheres que ousam e, por isso, subvertem qualquer tipo de submissão.
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