Durante meus dias em Fortaleza (CE) para acompanhar o DFB Festival 2026 – a maior plataforma da moda autoral do Brasil -, tive a oportunidade de conferir na programação o lançamento nacional das coleções da primeira edição do Projeto Mãos da Moda. Foram desenvolvidas por oito marcas da Bahia e Paraíba em conexão com mais de 60 artesãs. Criado pela plataforma Nordestesse em parceria com Riachuelo Lab, o projeto nasceu da percepção da importância da cocriação entre designers de moda autoral e as comunidades de artesãos do Nordeste. A troca de conhecimento entre diferentes formas de fazer e pensar a moda proporcionou um resultado bonito na passarela: coleções que não apenas expressam inovação criativa, mas também reafirmam a importância dos saberes manuais ancestrais, transmitidos entre gerações e gerações de artesãs, que guardam em suas mãos um patrimônio cultural de valor inestimável como ferramenta de criatividade, autenticidade em um mercado cada vez mais competitivo e globalizado.
Quando esses universos se encontram, surge uma moda que ultrapassa tendências e se conecta a narrativas de memória e pertencimento. É um projeto que também compreende uma questão central para o presente e futuro da criação autoral no país e a comercialização dessa moda tão relevante. Foi exatamente essa sensação que tive ao observar cada detalhe desfile por desfile do “Mãos da Moda” no DFB Festival. A essência reside na construção de uma metodologia capaz de fazer esta sinergia entre criadores e comunidades e a compreensão de que o maior diferencial da moda autoral brasileira está naquilo que nenhuma inteligência artificial, parque industrial ou cadeia produtiva global é capaz de reproduzir: o conhecimento do feito à mão transmitido intergeracionalmente, os gestos ancestrais inscritos na matéria e a potência criativa que emerge do encontro entre design e artesania.

Adriana Meira – Mãos da Moda (Foto: Nicolas Gondim)
Durante seis meses, oito estilistas da Bahia e da Paraíba, selecionados por chamada pública, mergulharam em um intenso processo de criação colaborativa ao lado de mais de 60 artesãs especializadas em diferentes técnicas têxteis. Trata-se de um exercício genuíno de coautoria, no qual estilistas e artesãs compartilham repertórios e visões de mundo, como pontuei. E mais: o novo consumidor busca por peças que carreguem autenticidade, origem e significado cultural. Afirmo sempre: a originalidade continua sendo construída pelas mãos, pela memória e o semear no hoje o futuro que dá sentido à criação.
“Nos 5 anos de atuação da Nordestesse, percebemos que as marcas de moda em geral não conhecem ou não sabem como acessar grupos artesanais que poderiam agregar muito à sua imagem e identidade. O Mãos na Moda surge para estreitar esses laços, garantindo recursos humanos e financeiros para que essa parceria resulte numa coleção coesa e que fortaleça tanto as marcas quanto os grupos artesanais”, afirma Daniela Falcão, fundadora da Nordestesse, plataforma colaborativa que tem como missão documentar, amplificar e fomentar o talento de empreendedores e criativos dos nove estados do Nordeste, com ênfase no design autoral e no resgate de tradições, saberes e matérias- primas da região.
E vamos ao primeiro dos 8 desfiles que o Projeto Mãos na Moda apresentou no DFB Festival:
“Rio que Conta” e as flores-diamante
O trabalho de Adriana Meira, em parceria com a Associação de Mulheres Quilombolas Artesãs de Barra, Bananal e Riacho das Pedras, evidencia uma construção de moda profundamente enraizada na intersecção entre identidade territorial, saberes artesanais e experimentação contemporânea.

Adriana Meira (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Adriana Meira (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Adriana Meira (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mãos na Moda (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
As peças que consagraram a estilista baiana incluem caftãs, jaquetas e vestidos marcados por apliques têxteis que representam santos, orixás e formas abstratas em uma linguagem estética autoral. Natural de Brumado, no sertão da Bahia, onde atualmente mantém seu ateliê, Adriana Meira traz consigo uma trajetória profissional que inclui colaborações com Huis Clos e Adriana Barra, antes de estruturar sua própria marca.

Adriana Meira (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Adriana Meira (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Adriana Meira (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Adriana Meira (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
A estilista também desenvolveu um trabalho conjunto com um grupo de Rio de Contas, localizado na Chapada Diamantina, a cerca de 80 km de Brumado. Trata-se de uma rede composta por aproximadamente 30 artesãs quilombolas que se organizam coletivamente para a produção e comercialização de enxovais, artigos decorativos e peças de vestuário. O repertório técnico do grupo tem como eixo o crivo rústico, uma técnica de bordado de origem portuguesa que, ao ser ressignificada na Bahia, incorpora o uso de tecidos de sacaria e fios mais espessos. Seu processo envolve o desfiamento controlado do tecido para a criação de padrões geométricos, resultando em superfícies têxteis de forte densidade visual, nas quais rusticidade e sofisticação coexistem de forma indissociável.
A coleção intitulada “Rio que Conta” marca uma inflexão no vocabulário visual da estilista. Se anteriormente seus trabalhos eram reconhecidos pela presença recorrente de patchworks figurativos associados a santos e orixás, nesta proposta ocorre um deslocamento simbólico para uma iconografia inspirada nas flores-diamante, concebidas como homenagem ao território das artesãs de Rio das Contas, considerada porta de entrada para a Chapada Diamantina. As peças são estruturadas a partir da incorporação do crivo rústico, técnica dominante do grupo artesanal, que passa a ocupar posição central na construção formal da coleção.

Adriana Meira – Mãos da Moda (Foto: Nicolas Gondim)
O resultado é uma produção que intensifica a dimensão autoral do trabalho de Adriana Meira, ao mesmo tempo em que evidencia o papel estruturante das artesãs na configuração estética das peças. O diálogo estabelecido entre a estilista e o coletivo quilombola não se limita à aplicação de técnicas tradicionais, mas se configura como um processo de cocriação, no qual repertórios distintos se articulam para produzir uma moda repleta de identidade.
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