Uma voz em prece. Uma voz de mulher. Foi com essa reverência quase litúrgica que a Casa Aika fez sua estreia no DFB Festival 2026, o grande encontro multiplicador de moda autoral, cultura, capacitação, empreendedorismo, música e gastronomia realizado em Fortaleza, Ceará. E a passarela não foi apenas passarela. Foi altar. A coleção chama-se “Bença” — e já no nome carrega um mundo. Manifesto poético sobre o feminino, a apresentação nasceu de uma relação de admiração profunda e confessada. “Cresci cercado por mulheres muito fortes, e a Casa Aika sempre foi uma extensão desse olhar. Sempre enxerguei a mulher como algo quase divino, e na minha construção aprendi que existe algo profundamente forte na delicadeza e na sensibilidade”, traduz Marcos Maciel, o designer por trás da marca — cearense de 30 anos, formado em Design de Moda pela Universidade Federal do Ceará.

Casa Aika (Foto: Nicolas Gondim)
A marca cearense nasceu durante a pandemia no digital. Aika, que significa nascida do amor, consolidou, ao longo de seis anos, uma linguagem própria baseada na valorização do tempo, da sofisticação e de uma compreensão da roupa como extensão da subjetividade feminina. Mais do que produzir vestuário, a Casa Aika constrói atmosferas, afetos e modos de habitar o corpo.

Casa Aika (Foto: Nicolas Gondim)

Casa Aika (Foto: Nicolas Gondim)
A presença do Ceará – com uma combinação entre recursos naturais privilegiados, como o extenso litoral de praias, o clima tropical, média de 300 dias de sol por ano, brisas constantes do Atlântico e cenários paradisíacos – manifesta-se de forma sofisticada e sensorial. Não há reprodução literal de símbolos regionais nem recurso a imagens folclorizadas. O território aparece traduzido pela atmosfera: pela luminosidade que atravessa os tecidos, pela leveza das modelagens, pela relação entre corpo e vento e pela percepção tátil do calor. Trata-se de uma abordagem que reflete uma das transformações mais significativas da moda nordestina contemporânea, cada vez mais interessada em elaborar discursos e ações sobre pertencimento, afastando-se de representações estereotipadas.

Casa Aika – Coleção Bença (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Casa Aika – Coleção Bença (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Casa Aika – Coleção Bença (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Casa Aika – Coleção Bença (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Casa Aika – Coleção Bença (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Casa Aika – Coleção Bença (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
Seu objetivo é sempre criar roupas capazes de traduzir a identidade da Casa Aika — elegante, leve, confortável e genuinamente brasileira — valorizando a beleza feminina em diferentes tamanhos e silhuetas. Por isso, as coleções privilegiam tecidos naturais, modelagens fluidas e ajustes estratégicos que acompanham o corpo com naturalidade. Não por acaso, o designer costuma dizer que a Casa Aika poderia se chamar, sem exagero, “a casa das mulheres”.
Sobre abençoar
Sua estreia no DFB Festival representa um momento emblemático dessa trajetória. Com a coleção “Bença”, a marca apresenta uma reflexão poética sobre o feminino, deslocando a moda do campo estritamente estético para o território da memória, da ancestralidade afetiva e das experiências sensíveis que moldam identidades. O título da coleção evoca um gesto profundamente enraizado na cultura brasileira — o pedido de bênção às figuras mais velhas da família — transformando-o em metáfora para reverência, reconhecimento e transmissão de saberes entre gerações de mulheres.

Casa Aika – Coleção Bença (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Casa Aika – Coleção Bença (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Casa Aika – Coleção Bença (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Casa Aika – Coleção Bença (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)
A “Bença”, portanto, chegou com silhuetas amplas que abraçam. Com transparências sutis. As silhuetas privilegiam o movimento e a fluidez, revelando um entendimento da modelagem como linguagem corporal. Em vez de estruturas rígidas, a coleção aposta em formas amplas que acompanham o deslocamento do corpo, criando uma relação de liberdade entre matéria e movimento. Transparências delicadas e construções leves produzem uma estética de beleza.
Com construções que valorizam o corpo de forma orgânica, quase como se as roupas soubessem, por si mesmas, o que fazer com a pele que vestem. Os materiais são uma declaração por si só: linho 100%, micropaetês que capturam a luz, tecidos de toque sedoso e aplicações em crochê com fios de seda.

Casa Aika (Foto: Nicolas Gondim)

Casa Aika (Foto: Nicolas Gondim)
Especial relevância assume o trabalho artesanal desenvolvido em parceria com artesãs cearenses. As aplicações em crochê realizadas com fios de seda ultrapassam a função ornamental para ocupar um papel estrutural na narrativa da coleção. Inserido no contexto da moda contemporânea, o fazer manual deixa de ser compreendido apenas como herança cultural e passa a ser reconhecido como tecnologia social, capaz de preservar conhecimentos, fortalecer economias locais e produzir valor simbólico. O artesanato surge, assim, como linguagem de permanência em um sistema frequentemente marcado pela velocidade e pela descartabilidade.
A atmosfera sensorial de “Bença” ganhou ainda uma dimensão sonora inédita. A trilha foi composta pelos produtores musicais Tauí Castro e Pedro Madeira a partir de composições de Moacir Santos — apresentadas em arranjo exclusivo para aprofundar a ambiência do desfile por meio de ritmo, emoção e presença. Ouviu-se, no ar de Fortaleza, algo que se aproxima do sagrado.
As mulheres de “Bença” são intuitivas, sofisticadas, delicadas e silenciosamente potentes. Figuras que atravessam não apenas a coleção, mas o próprio olhar de Marcos Maciel — sobre beleza, sensibilidade e força. A moda está presente na vida do designer desde a infância, quando acompanhava a mãe nas idas à costureira. Ela é sobre tudo aquilo que se aprende quando se cresce rodeado por quem molda o mundo sem fazer barulho.
A Casa Aika estreou no DFB Festival com a graça de quem já sabia, antes de subir à passarela, que tinha algo a dizer. E disse, com absoluta certeza.
Estrear no DFB no ano em que a Casa Aika completa seis anos é muito especial. Essa coleção nasce de um lugar muito pessoal e fala sobre o feminino, sobre força, sensibilidade e sobre as mulheres que sempre fizeram parte da minha vida e da minha construção. As peças também carregam muito do Ceará, da luz, do vento, do calor e dessa relação natural entre corpo e roupa. Estou muito feliz de viver esse momento dentro do Dragão Fashion Brasil, que tem uma importância enorme pra moda autoral do nosso estado – Marcos Maciel
A Casa Aika deixou a passarela do DFB Festival 2026 como quem encerra uma oração e permanece ecoando no silêncio. Em “Bença”, Marcos Maciel celebrou seis anos de trajetória autoral transformando memórias, afetos e referências femininas em roupa, gesto e presença. Entre o linho, o crochê de fios de seda produzido por artesãs cearenses, a trilha inspirada na obra de Moacir Santos, a marca reafirmou sua crença na delicadeza como potência e na moda como linguagem de pertencimento. Uma estreia que falou do Ceará, de sua luz, de seu vento e de suas mulheres — aquelas que, como nas peças da coleção, moldam o mundo com força serena, sem precisar elevar a voz.
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