DFB Festival: Alan Araújo, à frente da 407 AA, assina coleção ‘Patuá’ conectando fé e saberes ancestrais das benzedeiras


Ao desenvolver a coleção apresentada no DFB Festival – maior plataforma da moda autoral do Brasil -, o designer mergulhou no universo das benzedeiras e mezinheiras, figuras fundamentais na cultura popular nordestina e especialmente presentes no Cariri. A partir dessas referências, ‘Patuá’ propõe uma reflexão sobre os diferentes processos de cura que atravessam a vida contemporânea, da espiritualidade ao exercício físico, da reconexão com a natureza à busca por equilíbrio emocional

DFB Festival: Abel Araújo, à frente da 407 AA, assina coleção 'Patuá' conectando fé e saberes ancestrais das benzedeiras

Guardiãs de saberes ancestrais, desempenhando um papel fundamental na transmissão de conhecimentos sobre cura, cuidado e relação com a natureza, as benzedeiras realizam práticas de cura baseadas na fé e na oralidade. Os rituais envolvem orações e rezas transmitidas entre gerações; o sinal da cruz; ramos de plantas, e gestos ritualísticos sobre a pessoa para curar “mau-olhado”, “quebranto”, “espinhela caída”, “vento caído” e sustos. As mezinheiras dominam o conhecimento de remédios caseiros preparados a partir de plantas medicinais, raízes, cascas, sementes, mel… Especialmente nas comunidades rurais do Ceará, essas funções frequentemente se sobrepõem. Muitas mulheres são, ao mesmo tempo, benzedeiras e mezinheiras, unindo o que a tradição popular compreende como dimensões física, emocional e espiritual da saúde.

No Ceará, especialmente no sertão e no Cariri, as benzedeiras estão ligadas predominantemente ao catolicismo popular, embora suas práticas também incorporem elementos indígenas e afro-brasileiros. Algumas delas confeccionam patuás, bentinhos ou amuletos de proteção. Os patuás podem conter ramos de arruda, alecrim ou guiné; sementes e pequenas raízes; pedaços de tecido; orações escritas à mão; medalhas ou imagens de santos; fitas e objetos considerados protetores. É justamente dessa herança simbólica que nasceu Patuá”, coleção da marca cearense 407 AA apresentada no DFB Festival, maior evento de moda autoral do país.

Sob direção criativa do designer Alan Araújo, a coleção propõe uma reflexão sobre proteção, fé popular, cura, bem-estar e autocuidado, estabelecendo um diálogo entre os saberes tradicionais do Cariri e as necessidades emocionais da vida contemporânea. Em tempos marcados pela velocidade, pela hiperconectividade e pelo excesso de estímulos, “Patuá” nos convida a desacelerar e a reencontrar formas de cuidado consigo mesmo.

Com raízes em Nova Olinda e Crato, no Cariri cearense, Alan constrói há cerca de uma década uma trajetória que transita entre moda e joalheria autoral. Filho do Cariri, com raízes em Nova Olinda e Crato, o designer já caminha há 10 anos construindo sua identidade na joalheria e moda autorais. O nome da marca surge de um resgate de memórias, onde ele volta para casa da sua avó, na cidade de Nova Olinda, “A casa de minha avó Mina tinha a numeração 407. Foi o lugar onde tudo começou e de onde vieram as primeiras ideias das peças que produzi. Formando assim um endereço, finalizando com as iniciais do meu nome”.

Patuá” faz da moda um gesto de afeto. Entre rezas, memórias, artesanato e criação contemporânea, a 407 AA demonstra que vestir também pode ser um ato de proteção, pertencimento e reconexão. Ao transformar o Cariri em linguagem estética, Alan Araújo não apenas estreia no line-up oficial do DFB Festival: reafirma que algumas heranças não existem para permanecer no passado, mas para seguir encontrando novos corpos, novos tempos e novas formas de continuar vivas.

Estou muito feliz com este trabalho. Acredito que tudo acontece no momento certo. É uma coleção muito especial, que aborda um tema tão importante nos dias de hoje: um lembrete para desacelerarmos e nos reconectarmos com nós mesmos. Estar em um evento tão importante, que valoriza e incentiva a moda autoral, é, com certeza, o lugar onde queremos estar. A estreia da 407 AA no DFB certamente dará ainda mais visibilidade ao trabalho que estamos construindo – Alan Araújo

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Mais do que personagens do imaginário nordestino, benzedeiras e mezinheiras constituem um patrimônio cultural vivo. Seus conhecimentos revelam uma sofisticada relação com a biodiversidade, o calendário das chuvas, os ciclos das plantas e as formas tradicionais de preparo dos remédios naturais. Também expressam valores de solidariedade e reciprocidade: historicamente, seus atendimentos eram oferecidos como um gesto de serviço à comunidade, sem remuneração fixa, fortalecendo os laços sociais e a confiança coletiva.

Em um momento em que cresce o interesse pelos saberes ancestrais e pelas práticas sustentáveis, o legado dessas mulheres ganha novos significados. Reconhecer a importância das benzedeiras e mezinheiras do Ceará é valorizar uma herança que articula cultura, memória, espiritualidade e conhecimento tradicional, reafirmando o lugar dessas guardiãs como protagonistas de uma história que continua viva nos quintais, nas rezas e nas plantas medicinais cultivadas em diferentes regiões do estado. “Eu tenho a lembrança de crescer ouvindo ‘esse menino deve estar com vento caído, precisa levar pra benzer’”, conta Alan, ao revisitar essas memórias.

407 AA estreia no DFB com ‘Patuá’, coleção que une fé popular, memória afetiva e autocuidado

407 AA estreia no DFB com ‘Patuá’, coleção que une fé popular, memória afetiva e autocuidado

A coleção nasce justamente desse encontro entre memória afetiva e experiência contemporânea. Para o estilista, cuidar do corpo também significa cuidar da mente, da espiritualidade e das relações humanas. A roupa passa a ser entendida como uma extensão desse processo de reconexão. “Patuá fala muito sobre processos de cura, sobre a procura por um equilíbrio nessa vida agitada e hiper conectada em que vivemos. Além de eu mesmo estar vivendo esses processos, enxergo muitas pessoas à minha volta vivendo o mesmo: seja pela espiritualidade, pelo exercício físico, pela reconexão com a natureza… Então, essa coleção se trata exatamente disso: o que usar enquanto estamos passando por esses processos?”, reflete.

A resposta surge em peças fluidas, versáteis e confortáveis, que transitam entre referências afetivas e linguagem urbana. O imaginário das tradicionais senhoras de igreja, as camisetas de santos, as rendas dos altares, as tecelagens artesanais e os drapeados inspirados nas nascentes da Chapada do Araripe convivem com uma estética esportiva e contemporânea. O resultado é uma coleção que encontra beleza tanto nos símbolos da tradição quanto nas necessidades do presente. A sustentabilidade também ocupa lugar central no projeto. Parte das tecelagens artesanais foi produzida a partir de refugos e retalhos dos próprios tecidos utilizados na coleção, transformando resíduos em elementos de identidade visual.

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

 

Temos a famosa imagem da senhorinha com sua camiseta de santo, com o saco de feira, comumente usado como bolsa; a renda branca na mesa do altar; a tecelagem artesanal, tão usada em tapetes; os drapeados, em alusão às nascentes, fontes de vida encontradas na nossa Chapada do Araripe… E, ao mesmo tempo em que mergulhamos nestes signos culturais, a coleção tem uma vibe esportiva, confortável” – Alan Araújo

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

A valorização dos saberes locais também se manifesta nos acessórios. As bolsas de madeira apresentadas no desfile foram desenvolvidas em parceria com o Mestre Aécio de Zaira, da cidade do Crato, fortalecendo o encontro entre moda autoral e artesanato tradicional. Aécio é músico, cantor, compositor e luthier, natural daquela cidade cearense, com atuação de mais de 20 anos em oficinas de música e luteria no Ponto de Cultura do Crato. Sua atividade central historicamente é a produção artesanal de instrumentos musicais, a luthieria, por meio da reciclagem de madeiras mortas e outros materiais descartados no lixo.

Essa relação íntima com a memória também define a forma como Alan enxerga o crescimento da 407 AA. “O desejo é ampliar horizontes preservando o caráter artesanal das relações construídas ao longo do caminho, tanto com os clientes quanto com o território onde a marca nasceu. “Eu ainda não vejo a marca como aquela coisa super grande. Eu quero que realmente você tenha sempre aquele gostinho de… sabe quando você vai na costureira da rua de trás, que você sempre toma um café? Esse gostinho de memória mesmo. E, ao mesmo tempo, quando eu falo também da memória do Cariri, não é só aquela coisa enraizada. Sempre tem a imagem da senhorinha, das memórias de antes, mas falo também de um Cariri contemporâneo, que conversa com quem está pelo mundo”, pontua.

407 AA, coleção Patuá (Foto: Paula Matos/Ducker Studios)

Essa leitura contemporânea do Cariri também se manifesta nas referências visuais que atravessam o trabalho do estilista. Durante uma conversa com profissionais do design, a diretora de arte, Olívia Gerônimo, definiu a identidade da 407 AA como um “Cariri nipônico” — expressão que sintetiza o diálogo entre a cultura popular nordestina e elementos da estética japonesa presentes nas coleções da marca.

Fascinado por animes e pela cultura pop japonesa desde cedo, Alan incorporou naturalmente essas referências ao seu repertório criativo. Em Patuá, elas aparecem tanto na construção das modelagens quanto na linguagem gráfica das estampas, estabelecendo um encontro singular entre o imaginário religioso do Cariri e a estética visual oriental. “Eu fui aquela criança Otaku [ou seja, fã de animes, mangás, cosplays e videogames japoneses], que cresceu assistindo anime na televisão. Então, essas referências continuaram comigo e eu gosto muito da moda japonesa, realmente. Isso vem na coleção, enquanto referência no visual e enquanto modelagem. Em ‘Patuá’, as estampas de santos vem com esse estilo de anime”, explica.

Ao aproximar dois universos aparentemente distantes, a coleção reafirma que identidade cultural não é um conceito estático. Pelo contrário: ela se transforma à medida que novas influências são incorporadas às experiências individuais, criando uma narrativa estética que conecta tradição, memória e cultura pop sem abrir mão da autenticidade. A apresentação de “Patuá” no DFB Festival também evidencia a força do trabalho coletivo que sustenta a 407 AA. O desfile é resultado da colaboração entre profissionais que compartilham a construção desse universo criativo. O styling leva a assinatura de Elvis Damas, enquanto a produção é conduzida por Shayná Moura. As joias são criação de Aglaíze Damasceno, que desenvolveu peças de joalheria contemporânea inspiradas no pássaro Soldadinho-do-Araripe. As estampas foram desenhadas por João Cortes, e a trilha sonora original recebeu a assinatura de Lumdum, compondo uma narrativa sensorial que amplia o conceito da coleção para além das roupas.