O DFB Festival segue com sua chancela há mais de duas décadas e meia de projetar a força da moda autoral brasileira, ampliando sua circulação e reconhecimento em diferentes territórios criativos. Realizado em Fortaleza (CE), o evento atua como multiplataforma da sinergia entre moda autoral, cultura, capacitação, empreendedorismo, música e gastronomia. Idealizado por Claudio Silveira, o DFB chegou à edição 2026 com o tema ‘Praia de Iracema: coração e cérebro da Cidade Dragão’, ocupando diversos espaços históricos para celebrar os 300 anos de Fortaleza.
A proposta? Conexão entre moda, arquitetura, memória e identidade cultural, aliando tecnologia, música, inclusão, acessibilidade, sustentabilidade, sensorialidade e traduzindo o lifestyle de um povo acolhedor. Reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Cidade Criativa do Design, Fortaleza afirma-se como polo vibrante da economia criativa, demonstrando como a inovação pode gerar impacto social e econômico, promover a sustentabilidade e elevar a qualidade de vida, consolidando a cidade como referência global, que reflete um ecossistema criativo e dinâmico.
A presença da Central de Artesanato do Ceará (CeArt) no DFB Festival 2026 reafirma um movimento cada vez mais evidente na moda contemporânea brasileira: o reconhecimento do artesanato como agente estruturante dos processos criativos e das narrativas de identidade territorial. Um exemplo do pensamento coletivo e do compartilhar saberes ancestrais. Com a coleção “Do Sagrado ao Encanto”, apresentada no projeto 100% CeArt, a instituição leva à passarela um recorte da diversidade produtiva cearense por meio de roupas e acessórios desenvolvidos em colaboração com artesãos de 18 municípios do Ceará.

100% CeArt (Foto: Nicolas Gondim)
Ao inserir o artesanato na maior plataforma de moda autoral do Brasil, a CeArt amplia a visibilidade de cadeias produtivas frequentemente localizadas fora dos grandes centros urbanos, promovendo o reconhecimento de práticas que mobilizam conhecimento técnico, repertórios simbólicos e formas específicas de organização comunitária. A moda surge, assim, como espaço de mediação entre produção cultural e desenvolvimento socioeconômico.
Claudio Silveira, o idealizador do DFB Festival, sempre pontou: “Estamos nessa dianteira há anos. É uma ação coletiva, em que diferentes potências são convidadas a participar de um projeto maior de luta em prol da criatividade”. Acrescenta que é responsável por lançar luz sobre os novos talentos da moda autoral, “mas, o que fazem com essa luz, é mérito individual. Sobre ver nossos talentos superando desafios e conquistando novos espaços, lhe digo com toda a humildade: estamos apenas colhendo o que plantamos. É para isso que trabalhamos para realizar o DFB Festival. Meu lugar é na ponta dessa plataforma, pescando nomes novos e os lançando no mar alto. Sou só um operário da moda”.
O que conferimos na passarela ratifica o nosso “luxo artesanal” das rendas de bilro, dos bordados, do crochê, das tramas têxteis e de outras manualidades desenvolvidas por artesãs vinculadas a diferentes regiões do Ceará. Nesse contexto, a moda opera como espaço de mediação entre ancestralidade e contemporaneidade, possibilitando que conhecimentos sejam reinterpretados a partir de novas linguagens criativas sem que percam seus significados culturais originais. O projeto é a síntese de que a inovação na moda não se limita à incorporação de tecnologias industriais ou digitais, mas pode emergir também da valorização crítica de técnicas históricas e da construção de novas formas de colaboração entre designers e comunidades artesãs.

100% CeArt (Foto Paula Matos/Ducker Studios)

100% CeArt (Foto Paula Matos/Ducker Studios)

100% CeArt (Foto Paula Matos/Ducker Studios)

100% CeArt (Foto Paula Matos/Ducker Studios)
O conceito “Do Sagrado ao Encanto” parte de um universo imagético associado às manifestações da religiosidade popular nordestina e às expressões culturais que atravessam o cotidiano cearense. O que se observa é uma transposição dos seus valores simbólicos para a construção de texturas, tramas, volumes e ornamentos que evocam pertencimento, devoção, celebração e continuidade cultural.
Mais do que uma coleção, o projeto evidencia a capacidade do artesanato de operar como linguagem cultural e dispositivo de memória. As aproximadamente 30 composições apresentadas na passarela articulam diferentes tipologias produtivas — entre elas rendas, trançados em fibras vegetais, joalheria artesanal, bordados e o trabalho em couro de tilápia — revelando a amplitude técnica presente nos territórios artesanais cearenses.

100% CeArt (Foto: Nicolas Gondim)
As peças concebidas pelas designers Jô de Paula e Roberta Sales evidenciam uma abordagem que aproxima design e artesanato sem subordinar um campo ao outro. O processo criativo opera por meio da colaboração entre profissionais de moda, artesãos independentes e associações produtivas, revelando modelos contemporâneos de autoria compartilhada. Tal dinâmica desloca a noção tradicional de criação individual e enfatiza a construção coletiva do valor cultural incorporado às peças.
Participam da coleção artesãos e grupos produtivos oriundos de municípios como Aracati, Amontada, Beberibe, Crato, Fortaleza, Fortim, Itapipoca, Jaguaribara, Jaguaribe, Juazeiro do Norte, Maranguape, Missão Velha, Nova Russas, Paraipaba, Piquet Carneiro, Tamboril, Trairi e Varjota. A abrangência geográfica do projeto evidencia a diversidade de saberes especializados existentes no Ceará e demonstra como diferentes técnicas, materiais e contextos socioculturais podem convergir em uma narrativa visual comum.

100% CeArt (Foto: Nicolas Gondim)
No Ceará, a fé raramente se limita ao espaço dos altares. Ela ocupa as ruas, colore fachadas, movimenta romarias, atravessa festas populares e se manifesta nos pequenos gestos do cotidiano. Está nos ex-votos moldados em madeira, nas fitas amarradas em pedidos silenciosos, nas procissões que transformam cidades inteiras em cenários de devoção coletiva. É uma dimensão cultural que, antes de pertencer exclusivamente ao campo religioso, integra a construção da identidade social e visual do território.
Quando esse universo chega à moda autoral, ele deixa de ser apenas referência temática para se transformar em matéria criativa. O sagrado popular oferece um repertório de símbolos, narrativas e visualidades capaz de ampliar o debate sobre pertencimento, ancestralidade e memória. Não se trata de reproduzir imagens religiosas em estampas ou acessórios, mas de compreender como os rituais, as celebrações e os objetos de devoção produzem formas de ver, vestir e habitar o mundo.

100% CEART (Foto Paula Matos/Ducker Studios)

100% CeArt (Foto Paula Matos/Ducker Studios)

100% CeArt (Foto Paula Matos/Ducker Studios)

100% CeArt (Foto Paula Matos/Ducker Studios)
A moda encontra inspiração nos caminhos percorridos pelos romeiros de Juazeiro do Norte, nas vestimentas usadas durante as festas dos padroeiros, nos estandartes que atravessam ruas históricas e nas cores que marcam diferentes manifestações culturais do interior cearense. Cada uma dessas expressões carrega códigos visuais construídos ao longo de décadas, muitas vezes séculos, e que permanecem vivos porque continuam sendo atualizados pelas comunidades que lhes dão significado.
Existe também uma dimensão material dessa herança cultural. Os bordados, as rendas, as peças em metal, os trançados e os artefatos produzidos por artesãos do estado revelam uma relação singular entre técnica e simbologia. Muitos desses objetos nasceram vinculados a celebrações religiosas, promessas ou práticas comunitárias e, ao serem reinterpretados pela moda, passam a ocupar novos contextos sem perder sua potência narrativa.

100% CeArt (Foto: Nicolas Gondim)
Talvez seja justamente nessa capacidade de ressignificação que resida uma das maiores contribuições da fé popular para a moda contemporânea. Em um cenário global marcado pela homogeneização estética, os elementos culturais enraizados em experiências locais oferecem à criação autoral algo cada vez mais valioso: singularidade. São referências que não podem ser reproduzidas artificialmente porque carregam histórias, afetos e modos de fazer específicos de determinado lugar.

100% CeArt (Foto: Nicolas Gondim)
Ao dialogar com as tradições culturais cearenses, a moda autoral não apenas produz roupas. Ela constrói discursos visuais sobre memória coletiva, territorialidade e identidade. O vestuário torna-se um suporte para narrativas que ultrapassam tendências passageiras e conectam passado, presente e futuro. Nesse processo, o sagrado deixa de ser entendido apenas como manifestação religiosa e passa a ser reconhecido como patrimônio simbólico, fonte permanente de criação e ferramenta de afirmação cultural.
É por isso que as manifestações da fé popular continuam despertando o interesse de designers e criadores. Elas oferecem à moda a possibilidade de olhar para dentro de seu próprio território, reconhecendo que a inovação nem sempre nasce da ruptura. Muitas vezes, ela emerge da capacidade de reinterpretar heranças culturais e transformá-las em linguagem contemporânea. No Ceará, poucas fontes criativas são tão férteis quanto essa.

100% CEART – Backstage (Foto: Nicolas Gondim)

100% CeArt Foto: Nicolas Gondim)
A fé do cearense é coisa que antecede a razão e ultrapassa a geografia — e se instala como necessidade vital. O Padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço” de Juazeiro do Norte, é símbolo robusto dessa equação: morto em 1934, jamais canonizado pela Igreja, mas entronizado no coração popular com a autoridade que nenhum decreto do Vaticano precisa confirmar. A romaria, a procissão, a ladainha entoada ao entardecer nas praças dos municípios do interior — tudo isso compõe uma paisagem sonora e visual que é, antes de tudo, identidade. O Ceará profundo é devoto por sabedoria acumulada de quem aprendeu que há forças maiores do que o homem, e que é mais prudente reverenciá-las… por amor e merecimento.
Complementando a participação no DFB 2026, a CeArt mantém um espaço expositivo e comercial dedicado à produção artesanal cearense. A iniciativa amplia a experiência para além da passarela e reforça uma questão central para o debate contemporâneo da moda: a necessidade de construir sistemas de valorização capazes de conectar criação, mercado e sustentabilidade cultural. Sob essa perspectiva, o artesanato deixa de ser compreendido apenas como referência estética e passa a ser reconhecido como uma dimensão estratégica da economia criativa, da preservação patrimonial e da construção de futuros possíveis para a moda brasileira.
Artigos relacionados
Mundo do Enxoval: collab com a designer Isabella Narchi é sinônimo de olhar autoral e inspiração nos campos de lavanda
DFB Festival: análise do art book fotográfico 'DFB XXV' e a chancela do evento na história da moda autoral
Schutz lança coleção e tem Antonela Braga como Schutzie #001 em projeto que traduz a potente conexão com a geração Z