Desfile-show da C&A, no Jockey Club, celebra a diversidade e põe a democracia no páreo da moda


Na passarela, a coleção de Verão ao som de Preta Gil, Naldo, Thiago Abravanel, Afrolata, entre outros

A noite deste domingo sacudiu o Jockey Club do Rio de Janeiro. Mas, quem pensou em corridas de cavalo e damas enchapeladas vestidas com pompa e circunstância, como no tradicional Grande Prêmio Brasil, pode tirar o cavalinho da chuva. Literalmente. Com o nome de Poderosas do Brasil, a C&A foi anfitriã da noite, mas abriu mão das competições de turfe para por no páreo um time da fina flor da beleza nacional em um desfile-show onde a pluralidade brasileira foi, no fundo, a grande homenageada da noite. E agitou o grande público que, entre os convidados vips, pôde conferir de graça o desfile com looks Verão 2014, que chegarão às lojas de todo o Brasil somente no dia 14 de outubro.

A estratégia, obviamente, visa aproximar a marca holandesa do seu público brasileiro em uma ação que, coerente com a posição comercial da rede, propõe democracia e diversidade ao mundo da moda. Para isso, a grife se espelhou nos fashions shows que unem moda e música, como o Fashion Rocks e os incensados desfiles da Victoria’s Secret. Mas, se os desfiles desta têm um quê de carnavalescos e se os primeiros costumam trazer uma rapaziada da música pop internacional, como Seal, Beyoncé e Adele, a C&A foi direto ao pote e apostou em um cardápio bem brasileiro, com acepipes que vão do Norte ao Sul do país. Havia de tudo: Preta Gil, Naldo, Afrolata, Mariene de Castro, Rapadura, Ar 21, Bateria da Grande Rio, passistas com esplendor nas costas, dançarinos negros de abdomens-tanquinho, o grupo de Belém Gang do Eletro (com uma vocalista que é uma espécie de Juliana Imai do tecnobrega) e até Thiago Abravanel cantando hits do eterno Tim Maia. Thiago, todo empolgado, foi um dos que contou para a gente que acredita na democrática mistura de estilos e na amplificação de padrões estéticos, muito além daqueles que a mídia costuma oferecer: “As pessoas precisam de oportunidades para brilhar. E a C&A transforma esse sonho em realidade ao eleger gente normal como modelos!” Ele se referia às novas musas da marca, garimpadas Brasil afora e apresentadas neste evento.

Fotos: Vinícius Pereira

A marca convidou Felipe Veloso para assinar o styling e o celebrado diretor e cenógrafo Gringo Cardia para comandar a festa que, como seria de esperar, abusou e usou (como no famoso slogan da department store) de ingredientes que fizeram a plateia sacolejar o esqueleto mesmo no final, quando São Pedro derrapou de levinho e deixou cair uma chuvinha. O máximo que se viu foi o pessoal prevenido abrindo o guarda-chuva sem arredar o pé da geral. Gringo, entusiasmado, confidenciou ao nosso site que imaginou o evento como uma ópera pop em quatro atos, afirmando que formatos operísticos necessariamente não precisam significar erudição, sendo formas contundentes de envolvimento do grande público, que curte um bom espetáculo e nada tem a ver com as caras e bocas dos habituês das semanas de moda. Chega a ser curiosa a declaração, pois a mestre-de-cerimônias do evento, a atriz Regina Casé, havia, nesta mesma tarde dominical, afirmado que a música clássica também não precisa ser empoada ao entrevistar o maestro Roberto Minczuk, da Orquestra Sinfônica Brasileira, sobre Mozart em seu Esquenta, na TV Globo. Pelo jeito, a galera do espetáculo estava mesmo em sintonia fina. E Gringo Cardia ainda completou: “Não vejo diferença entre a concepção de uma ópera ou balé – onde o figurino está a serviço do roteiro – e um desfile de moda. Neste caso, a coleção de moda, com suas cores e estampas, é que vai definir o roteiro daquilo que será apresentado sobre o palco”.

Fotos: Vinícius Pereira

E a mega top do desfile foi a angel Izabel Goulart, que ainda amadrinhou as quatro beldades pinçadas pela grife para representar a pluralidade da beleza nacional. Cada uma das quatro mulheres encabeçou um ato do espetáculo, todas com nomes de bonecas da Estrela: Bruna (Belo Horizonte), Uana (Recife), Kizi (nascida na Rocinha, no Rio) e Roci (Manaus). Junto a elas, um timaço de fazer inveja composto por quase 40 modelos que, como diria o saudoso Sargentelli, não estão no mapa: Carol Francischini, Carmelita, Martha Penz, Barbara Beluco, Marcelia Freesz, Angélica Erthal, Débora Muller, Bruna Erhardt, Juliana Arroyo, Sheila Klein e Natália Vianna, entre outras e, inclusive, a lindinha Michelli Provensi, que nos contou toda animada que lançará um livro durante a próximo SPFW. Quem disse que modelo não tem tutano? Michelli é uma prova cabal de que elas pensam sim – e muito!

Fotos: Vinícius Pereira

Em um bate-bola exclusivo com nosso site, Izabel Goulart, simpaticíssima, riu quando comparamos a catwalk das modelos às corridas de cavalo e afirmou que vê um imenso profissionalismo entre os dois universos. “Tanto os jóqueis quanto as modelos precisam se preparar arduamente”, ela disse. “E na hora agá, a coisa tem de fluir, apesar da correria!” E mais: quando contamos a ela que os cavalos, apesar de potentes, são super delicados e necessitam de cuidados especiais para manter suas crinas sedosas, Izabel ficou surpresa e abriu o jogo: “Apesar de valorizar a naturalidade na rotina diária e usar pouco make, não abro de ótimos xampus, condicionadores e máscaras hidratantes para manter as madeixas em forma.”

Enquanto Izabel era clicada e nos dava a rápida entrevista, o beauty artist Rodrigo Costa, contratado especialmente para cuidar da moça, se preocupava com mínimos detalhes: “Joga o cabelo para o lado, Isa”.  Aliás, no quesito beleza, havia uma espécie de Tratado de Tordesilhas no evento: Costa só para Isabel, Ricardo Tavares embelezando Regina Casé e Max Weber fazendo as modelos. Enquanto Ricardo optou por tons de bronze e dourado sobre uma base preta para imprimir um aspecto solar à apresentadora, Max escolheu uma beleza bem natural e iluminada com pequenas variações para cada grupo de modelos: boca laranja para Minas, vermelha para Manaus, madeixas frisadas com boca nude para o Rio e a dobradinha de pele bronze e cabelos crespos para Recife. Em comum em todos os quatro times de modelos, muitos cílios postiços e a inspiração em Farrah Fawcett e nas outras Charlie’s Angels. “As Panteras eram as poderosas dos anos setenta”, brincou o visagista.

Na área vip, uma galera bacana, canapés e champanhe. Estavam lá  Narcisa Tamborindeguy, Ricardo Rique, Serginho Mattos e seus meninos, Walter Rosa,  Márcia Gabrielle, Márcia Veríssimo e Marcelo Itagiba. Narcisa, inclusive, foi enfática sobre o público que entrava ali pela primeira vez e assistia o desfile de graça: “O Jockey Club é uma lindeza, é importante que todo mundo possa ver como aqui é bonito.” Naturalmente, ela estava perfeitamente alinhada com o espírito autêntico e democrático do evento.

O DJ Tutu Moraes comandou as picapes e tocou desde Clara Nunes até bossa nova, ressuscitando Chico Science e seu Mangue Beat. E, pelo conjunto que foi apresentado na passarela, o verão da C&A vem com tudo. Ela aposta em cores fortes como laranja, verde jade, azul forte, magenta, coral e amarelo, além do mix de estampas, prints de folhagens ou étnicos, texturas naturais, rendas, listras náuticas, grafismos optical art, plataformas nos pés e maxi bolsas. Adoramos os acessórios em vinil transparente, em especial as viseiras em rosa flúor, e os looks que misturavam o verde e rosa da Mangueira sem pudor. Afinal, a mistura é linda, funciona no mundo inteiro, Kenzo adora e só por aqui que o povo associa essa dupla de cores à escola de samba e acaba desistindo. Por que não, não é mesmo?

Para fechar, completamente antenados com a proposta democrática do evento, resolvemos eleger algumas personalidades do backstage que chamaram atenção pelo seu estilo ou atitude. Gente que faz a coisa acontecer, mas que, por isso mesmo, merece estar na ribalta: o integrante do Afrolata Ricardo da Silva, 23, morador de Vigário Geral, que elegeu o roxo como bola da vez em seu look, assim como a aluna de moda da Universidade Veiga de Almeida, Larissa Castro, 19, de madeixas na mesma cor e recrutada para a equipe de camarim. Ou o profissional de produção Luiz Menezes, tatuado de 34, que acredita que mulher bonita é como uma boa feijoada, “além de dar caldo, tem de ter substância’’, afirma. Para ele, o tipo ideal é quase uma utopia, um misto de Izabel Goulart com a diva Sabrina Sato. Junto a ele curtimos o bailarino da dança dos famosos, Edson Almeida, 26, que caprichou nos tênis metalizados, e a dupla de ninfetas fãs de Isabel que resolveu tietar na porta do camarim: Laura de Moraes e Catarina Villas-Boas, ambas de 15. Perguntadas sobe o que estavam usando, não negaram que o bacana é a mistura: “gostamos de misturar C&A com marcas como Farm e Top Shop”. Tudo gente que faz.

* Com Alexandre Schnabl