Zezé Motta produz disco e shows, filma quatro longas, quer dirigir e decreta sobre intimidade: “Sexo é vida, é saúde”


A multiartista está envolvida com a música, o cinema e com todo tipo de produção em que sua voz chegue na frente. Inclusive, literalmente, como na gravação do audiolivro ‘Em busca de mim’, registro da biografia de Viola Davis. Além disso, é uma das vozes da premiada animação ‘Abá e sua Banda’, lançada em 17 de abril e se prepara para filmar os longa-metragens sobre a vida de Mãe Bonifácia (1796-1867) e também sobre Tereza de Benguela (1700-1770), mulheres que lutaram contra a escravidão em seus tempos. Zezé trabalha ainda, em um novo disco e show em comemoração aos seus 80 anos; e também em um grande espetáculo em que vai atuar e cantar. Olhando para o futuro, revela que dirigir shows é um sonho para realizar, e ao falar sem tabus da vida amorosa na maturidade, frisa: “Acho normal, eu como uma mulher de 80, poder transar e me relacionar com quem quiser. Lembro que a minha mãe, que se foi aos 95 anos, depois de idosa ainda tinha relação com meu padrasto. As coisas mudam, mas o desejo existe e não devemos nos reprimir, e sim olhar para ele como uma coisa boa”

*Por Brunna Condini

Atriz, cantora e militante, como ela mesma se autodefine, Zezé Motta é símbolo de resistência e pioneira na luta por mais espaço para as mulheres negras na arte. Reverenciando seu legado e a potência que continua a inspirar através de suas falas e ações, entrevistamos a artista com exclusividade para o site sobre as pautas femininas mundo afora. Com quase 60 anos de carreira e 80 de vida, ela vem se reinventando e, nos últimos tempos, vive uma fase especial, em que parece até que o Brasil redescobriu sua potência que abriu e abre caminhos. Ou melhor, vive uma fase em que parece até que, da pandemia para cá, o Brasil constatou o quanto ela representa: “Nunca fiz tanta publicidade (foram mais de 35 propagandas de 2022 até hoje, para mais de 20 marcas). Na época de ‘Xica da Silva’ (1976), fiz só uma grande propaganda para uma marca de cerveja”.

Além disso, Zezé está envolvida com shows, filmes e todo tipo de produção em que sua voz chegue na frente. Inclusive, literalmente, como na gravação do audiolivro ‘Em busca de mim‘, registro da biografia da atriz Viola Davis. Outro ícone de representatividade. “Este projeto foi um convite da Audible e já está no ar. Este ano, estarei dedicada ao novo disco e ao show em comemoração aos meus 80 anos. Terá também um espetáculo grande e vou mostrar meu lado cantora e atriz. Vamos apresentar no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. Em julho, farei mais um especial comemorando o Dia da Mulher Negra no canal E!. E vou filmar quatro longas. Um deles é sobre Tereza de Benguela (1700-1770), um filme forte! Outro, será sobre a vida da Mãe Bonifácia (1796-1867)”. A seguir, a atriz fala das conquistas, de amor e sexualidade nesta fase e também revela os desejos que ainda pretende realizar. Sempre é tempo de sonhar e ela sabe disso. Zezé rocks!

Zezé Motta lança audiolivro de biografia da atriz Viola Davis, filma quatro longas, trabalha em novo disco e show pelos 80 anos, fala das conquistas e do amor nesta fase (Foto: Bel Corção)

Zezé Motta lança audiolivro de biografia da atriz Viola Davis, filma quatro longas, trabalha em novo disco e show pelos 80 anos, fala das conquistas e do amor nesta fase (Foto: Bel Corção)

Trabalhando como nunca e com uma carreira admirável, a multiartista diz como lida com a intensidade do momento. “Não fico pensando muito que tenho 80 anos, senão tenho medo de não dar conta. Acho que esse tem sido o segredo. Estar em atividade diariamente tem me ajudado muito, as pessoas me param nas ruas e dizem que eu não aparento ser octogenária. Estou sempre de um lado para o outro, trabalhando, com gente jovem ao lado, produzindo”.

Ficar em casa só descansando é bom, mas isso também nos leva ao envelhecimento. Se você fica na ativa, não tem tempo para envelhecer. É claro que precisamos respeitar nosso corpo, nossa idade, a saúde, mas me refiro à mente mesmo. – Zezé Motta

"Não fico pensando muito que tenho 80 anos, senão tenho medo de não dar conta. Acho que esse tem sido o segredo" (Foto: Bel Corção)

“Não fico pensando muito que tenho 80 anos, senão tenho medo de não dar conta. Acho que esse tem sido o segredo” (Foto: Bel Corção)

Zezé também revela no que ainda deseja se experimentar: “Já fiz quase tudo que sonhei um dia, são quase seis décadas de carreira. Mas tenho pensado que, no futuro, quero fazer direção de shows. Pouca gente sabe, mas já dirigi o saudoso Jamelão (1913-2008), dirigi show da Leci Brandão, e também um show da Ana Carolina. Ela não tinha estourado ainda, era pouco conhecida. Gosto dessa coisa do palco”.

Potência em ser

Ao longo da sua vida, a atriz vem ultrapassando preconceitos e derrubando tabus. E hoje não é diferente, como quando fala da vida amorosa de mulheres mais maduras como ela:

Sexo é vida, é saúde. Acho normal, eu como uma mulher de 80 anos poder transar e me relacionar com quem quiser. Lembro que a minha mãe, que se foi aos 95, depois de idosa ainda tinha relação com meu padrasto. As coisas mudam, mas o desejo existe e não devemos nos reprimir, e sim olhar para ele como uma coisa boa – Zezé Motta

O que é beleza para você hoje?  “É aceitação, é autoamor, é não sentir culpa. Vivencio minha vaidade me cuidando todos os dias, uso creme do dedo mindinho do pé até o último fio de cabelo. Sou filha de Oxum, sou vaidosa. Uso perfume para entrar em cena, se não tiver perfume parece que a voz vai falhar”, confidencia.

Potência também na ficção

Entre abril e maio, em uma chácara de Sorriso (MT), a artista vai protagonizar o longa-metragem ‘Mãe Bonifácia, de Salles Fernandes, sobre a vida da mulher negra que teve papel fundamental na luta dos escravizados. “Estou lendo muito sobre ela, que foi incrível. A Mãe Bonifácia era uma curandeira e alforriada, que ajudou os escravizados fugitivos a se esconderem em Cuiabá, no final do século 19. Uma figura lendária e símbolo da luta contra a escravidão. Estou exercitando já o meu lado de guerreira, assim como fiz quando interpretei Dandara (líder feminina e mulher de Zumbi dos Palmares em ‘Quilombo‘, filme de Cacá Diegues (1940-2025),  de 1984). Fiquei imaginando  a força que essa mulher tinha”, conta Zezé, que vai filmar sobre Tereza de Benguela, na mesma região, em Vila Bela da Santíssima Trindade (a 520 km de Cuiabá).

Se eu pudesse voltar no tempo, falar com a Zezé que começou há mais de 50 anos e sonhava com essa carreira, diria para ela: “Não desista! Você vai conseguir!” – Zezé Motta

"Sou parada nas ruas, as meninas me dizem que sirvo de inspiração para elas, isso me emociona” (Foto: Bel Corção)

“Sou parada nas ruas, as meninas me dizem que sirvo de inspiração para elas, isso me emociona” (Foto: Bel Corção)

Ao recordar o caminho e os trabalhos no teatro, na música, mais de 50 produções em TV e 70 filmes, inclusive como dubladora na premiada animação brasileira de Humberto Avelar, ‘Abá e sua Banda’, que será lançada em 17 de abril; Zezé afirma que não teria feito nada diferente em sua trajetória. “Ter uma carreira de tantos anos em atividade, sem parar em nenhum momento, é algo que me orgulho muito. São inúmeros personagens, milhares de shows que fiz por esse país, já lancei mais de 10 LP’s e Cd’s, cantei em Hannover (Alemanha), no Carnegie Hall de Nova York (EUA), no Olympia de Paris, em países como Venezuela, México, Chile, Argentina, Angola e Portugal. Como não se orgulhar de tudo isso? Sou parada nas ruas, as meninas me dizem que sirvo de inspiração para elas, isso me emociona”, diz.

"Quero fazer direção de shows. Já dirigi o saudoso Jamelão (1913-2008), dirigi show da Leci Brandão, e também um show da Ana Carolina, ela não tinha estourado ainda" (Foto: Bel Corção)

“Quero fazer direção de shows. Já dirigi o saudoso Jamelão (1913-2008), dirigi show da Leci Brandão, e também um show da Ana Carolina, ela não tinha estourado ainda” (Foto: Bel Corção)

Por todas

Falando como mulher preta, que conquistas ainda se fazem necessárias? “São muitas, temos muita luta pela frente! Basta você contar, por exemplo, o número de mulheres que estão no comando das grandes empresas, e se você for contar o número de pretas, então, vai ficar chocada. Apesar de sermos a maior parte da população, ainda somos minoria em muitos postos. A realidade é que mulheres negras são minoria em vários postos de trabalho no Brasil, como no Congresso Nacional, no serviço público e no Ministério Público”, avalia.

Muitas mulheres que admiro não estão mais entre nós, porém deixaram seu legado por aqui. Como, por exemplo, a Lélia Gonzalez (1935-1994). Costumo dizer que ela foi minha guru, sabe? Era uma intelectual e ativista negra que contribuiu para a luta contra o racismo e o sexismo no Brasil. Foi uma figura fundamental na consolidação do Movimento Negro Unificado e participou da redemocratização do país. Tive o privilégio de conviver com ela, aprender, e também sou uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial no Brasil. Admiro demais a Angela Davis também – Zezé Motta

"Sexo é vida, é saúde. Acho normal, eu como uma mulher de 80 anos, poder transar e me relacionar com quem quiser" (Foto: Bel Corção)

“Sexo é vida, é saúde. Acho normal, eu como uma mulher de 80 anos, poder transar e me relacionar com quem quiser” (Foto: Bel Corção)