Whindersson Nunes fala da ação para despoluir rio no Piauí, prepara turnê de shows na Austrália e filme independente


O comediante, youtuber, cantor, compositor e ator trabalha no projeto de despoluir o Riacho Grotão, em Bom Jesus, no Piauí, como parte de uma ação pessoal de impacto ambiental. Com milhões de seguidores, ele afirma que a ideia é transformar popularidade em prática sustentável na cidade onde cresceu. O projeto envolve estudos sobre recuperação ambiental e deve começar com métodos simples, como barreiras ecológicas. Em turnê pelo Norte do país, Whindersson também reforça a importância de levar espetáculos a regiões fora do circuito tradicional. Revela ainda que alinhava uma turnê pela Austrália: “Quero conhecer outro continente, outra cultura, outra turma e voltar com mais história. Pretendo fazer um filme independente mesmo, com meus amigos, história da gente, da nossa própria cabeça, e botar muitos amigos para trabalhar”

*por Vítor Antunes

Fernando Pessoa (1888-1935) escreveu, em verso célebre, que “morrer é deixar de ser visto”. No caso de Whindersson Nunes, a equação parece invertida. Com 57 milhões de seguidores no Instagram, 45 milhões no YouTube e outros tantos espalhados por diferentes plataformas, o comediante, músico e ator não quer apenas ser visto — quer fazer diferençar. Nos últimos meses, passou a atuar como uma espécie de bandeirante da comédia, levando ao interior do país o humor que o consagrou nacionalmente. Esta entrevista, por exemplo, foi concedida de Rio Branco, no Acre, onde se apresentava antes de seguir para o Pará.

Depois de ultrapassar, em audiência, a população inteira de seu estado natal, o Piauí, Nunes passou a mirar um objetivo importantíssimo: transformar a cidade onde viveu. Entre seus projetos de vida está a despoluição do Riacho Grotão, em Bom Jesus do Piauí (PI). “Quando você vai mexer com o meio ambiente, de toda forma, você precisa saber o que está fazendo. Dei uma pesquisada sobre como as pessoas despoluem rios pelo planeta. Existem várias formas, umas mais artesanais e algumas mais tecnológicas. Agora eu estou em busca de entender esse maquinário e toda essa parada. Mas já vamos começar com as formas mais artesanais, com as barreiras ecológicas. E começar a fazer um trabalho de informar as pessoas que moram ao redor do rio sobre quais os riscos de ter um rio poluído por perto”.

Whindersson Nunes dá start ao projeto de despoluir o Riacho Grotão, em sua cidade natal no Piauí (Foto: Reprodução/Instagram)

Whindersson planeja ampliar sua presença nos palcos internacionais. O espetáculo “Isso definitivamente não é um culto” deve chegar à Austrália, numa tentativa de se deslocar também culturalmente. “O ‘Isso definitivamente não é um culto’ deve ir para a Austrália em breve. Quero conhecer outro continente, outra cultura, outra turma e voltar com mais história. Pretendo fazer um filme independente mesmo, com meus amigos, história da gente, da nossa própria cabeça, e botar muitos amigos para trabalhar”.

A sensibilidade do multiartista, hoje, se manifesta menos no riso do que no incômodo diante da desigualdade. “O que me emociona hoje é me flagrar diante de um amigo com algum problema de falta de comida ou de oportunidade. Isso me entristece, porque eu penso alguma ideia de ajudar. É muito difícil chegar lá, é muito difícil passar fome — e eu já passei muito tempo sem saber o que fazer (para ajudar). Isso me entristece um pouco. E eu penso que seja mais por conta da educação mesmo, que é difícil neste país. Ainda que a era digital esteja facilitando, nem todo mundo tem acesso à internet, a livros… e me entristece muito”.

NO PULSAR DO CORAÇÃO 

Whindersson Nunes vai ter como destinos o Acre e o Pará — dois estados que, historicamente, ficam à margem das grandes turnês vindas do eixo Centro-Sul. “Meus próximos shows serão no Acre e no Pará, e eu gosto muito de me apresentar em cada um desses estados, pelo menos uma vez por ano. Preciso manter uma periodicidade para as pessoas entenderem que nessas regiões tem gente interessada em ver peça, em ver apresentações. As pessoas daqui (do Acre) falam do seu lugar com muito carinho. Lógico, todo mundo quer que o seu lugar seja melhor”. Segue apostando em um formato que vai além do stand-up tradicional. Seus espetáculos combinam humor afiado, música e observações sensíveis sobre o cotidiano, abordando temas atuais com leveza, irreverência e uma conexão direta com o público.

O Whindersson figura pública já foi diferente do Whindersson. Sentia isso quando subia no palco, quando pegava no microfone ou quando ia para TV. Mas fui treinando o cérebro para poder ser quem eu sou no palco, no camarim também e na rua e em casa. Hoje não sinto que há diferença. Talvez o Whindersson empresário sim, seja diferente, pois não cabe haver tanta brincadeira – Whindersson Nunes

Existem vários Whinderssons em um só? (Foto: Reprodução/Instagram)

AUTOCONHECIMENTO

Não faz muito tempo, no ano passado, Whindersson passou por uma clínica de reabilitação para cuidar da saúde mental — convive com superdotação, depressão e ansiedade. O tema, no entanto, não aparece para ele como tabu, embora seja tratado com economia. “Eu não acho que seja sensível, eu acho que cada pessoa tem a sua régua daquilo que é normal e daquilo que é louco. Ninguém quer se encaixar na caixinha ‘daquela pessoa com problema mental’, sendo que as pessoas, em algum nível, têm alguma coisa para se tratar. O equilíbrio é a melhor coisa. E eu falo com leveza no meu show sobre isso. Leveza, eu digo, no sentido de não ser uma conversa pesada, é uma conversa divertida”.

Exposto há anos nas redes — e às suas distorções —, ele diz lidar hoje com mais método do que impulso, ainda que o desgaste não tenha desaparecido. “Já foi mais difícil. Hoje ainda é. Hoje eu acho que eu cuido mais do que eu consumo mesmo. Às vezes tem alguma coisa que passa na minha tela. Ah, fulano de tal brigou com fulano. Eu quero saber? Eu vou procurar uma coisa que tem a ver com o que eu penso hoje. Vou atrás de algo que tenha a ver com alguma comédia que eu vou fazer, ou filme, ou trabalho, ou ação social por aí”.

Whindersson quer se desconectar da atmosfera digital que não acrescenta (Foto: Reprodução/Instagram)

Multiplicado em frentes diversas — da música ao boxe, do cinema às redes —, “Whind” já foi descrito como alguém sem foco. Ele prefere ler esse movimento como método. “Quando eu vou fazer algo novo, eu penso: ‘por que não?’. E eu gosto, porque qualquer coisa que eu faço a mais agrega naquilo que eu gosto: comunicar. Me dá mais conhecimento e proximidade. Lutar boxe talvez me deu muito entendimento sobre o mundo da luta, ainda que não me tenha tornado um ótimo boxeador. Assim, no meu pessoal, na minha consciência, eu imagino que essa experiência está me agregando como pessoa, como ser humano, entender a vida de outras pessoas”.

Entre números que já não cabem em estatísticas e projetos que escapam ao palco, Whindersson Nunes parece operar numa outra escala – menos a da visibilidade, mais a do alcance. Há, no deslocamento constante, que vai do Piauí ao Acre, do riso da plateia ao rio, uma tentativa de reconectar extremos: o Brasil que assiste e o Brasil que ainda espera. Se, como quis Fernando Pessoa, deixar de ser visto é uma forma de morrer, Whindersson escolhe o caminho inverso: seguir aparecendo, mas com propósito. É um homem que entende que, no país das ausências, ser visto só faz sentido quando também se decide enxergar.