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Walério Araújo prepara desfile baphônico para comemorar 15 anos de história e fala sobre preconceito: “No Brasil, as pessoas acham que crochê é pano de prato”

Para a ocasião, o estilista pretende fazer uma releitura de looks inesquecíveis em um evento na Galeria Pivô: "É um lugar incrível e tem um espaço adequado para comportar o número de pessoas que eu gostaria de convidar - embora, eu já queria que cause muito tumulto no Copan, porque dizem que chique é ter mais gente fora do que dentro"

Publicado em 31/10/2016 | Por Leonardo Rocha

Uma das personalidades mais irreverentes do mundo da moda, Walério Araújo está prestes a completar 15 anos de uma trajetória que transcende passarelas e o mood das plumas e dos paetês. Precursor na criação de peças agender, que hoje tomam conta de vitrines mundo afora, o estilista pernambucano e residente de São Paulo quer mesmo é celebrar. Seja à frente da Lavish ou nas peças que desenvolve para celebridades, ele sempre adiciona um toque autoral (e muitas vezes ousado) em tudo aquilo o que faz. E, talvez esse seja mesmo o maior trunfo por baixo de seus croquis. Em um bate-papo exclusivo para o HT, Walério mostrou que, assim como faz em suas coleções, não tem medo de ousar em suas palavras com opiniões relevantes e muito conscientes sobre o atual cenário fashion do Brasil. Quer saber mais? Então, vem que a gente te conta!

Walério Araujo no desfile da Experimento Nohda, com um sapato Lavish (Foto: Instagram)

Walério Araujo no desfile da Experimento Nohda, com um sapato Lavish (Foto: Instagram)

Para nossa sorte, demos de cara com o enfant terrible da moda brasileira por entre os desfiles da Experimento Nohda, no terceiro dia de SPFWTRANSN42, no icônico Teatro Oficina. Para dar início à conversa, Walério já chegou falando sobre sua festa de debutante que reunirá diversos parceiros de vida em uma releitura de seu aclamado trabalho. “Em julho do ano que vem eu comemoro 15 anos de estrada e vou debutar de novo. Já sondei alguns top stylist, onde cada um vai assinar três looks em um desfile na Galeria Pivô, que é um lugar incrível e tem um espaço adequado para comportar o número de pessoas que eu gostaria de convidar – embora, eu já queria que cause muito tumulto no Copan, porque dizem que chique é ter mais gente fora do que dentro”, disparou ele, aos risos. No projeto, ele convidou profissionais que acompanharam sua história de perto, como Paulo Martinez, David Pollak, Mauricio Ianês, Vanda Jacintho e Drica Cruz.

Leia mais: Surpreendente e engajada, a grife Lavish, de Trícia Milaneze, aposta no inesperado como conceito criativo e faz ação nacional para o outubro rosa

“Vamos reeditar os looks. Esses stylist já fizeram a minha vida profissional de desfiles, e eu quero que eles reinterpretem as peças que eles mais gostaram. Quero fazer tudo longo e com uma cartela de cores bem alinhadas para não ficar muito confuso, mas ainda estamos pensando sobre isso. É um projeto caro que eu pretendo levar adiante e viajar com esse desfile para todos os estados. Quero expor em algumas faculdades e por isso estou no processo de captação de patrocínio”, alertou ele.

O estilista e a Miss Brasil Raissa Santana (Foto: Instagram)

O estilista e a Miss Brasil Raissa Santana (Foto: Instagram)

Há alguns anos, o estilista apresentou sua coleção outono–inverno 2014 na semana de moda Casa de Criadores, na qual desfilou mais de 14 coleções e era figura cativa. No entanto, há três anos ele tem se aventurado por outros caminhos. “Não vou apresentar, mas quero assistir Weider  Silveiro, que é meu super amigo. Eu sou muito grato a esse movimento, mas depois de 15 anos no mesmo lugar a gente tem que mudar” pontuou.

Pois bem, em uma parceria de sucesso com a Lavish, Walério integra o quadro de criação da marca que explora bijóias artesanais incríveis, bastante valorizadas em Paris, Miami, Nova York e, claro, no nosso Brasil. Sem papas na língua, o estilista falou sobre o trabalho minucioso com a grife. “Um vê o outro, dá força, visibilidade. Eu ganhei um espaço autoral na Lavish muito legal. A Trícia Milaneze me deu total liberdade para fazer o que eu quisesse, tanto que construímos vestidos em material de metal e bordado. É bom e artesanal. O que se torna um desafio também. Existe um preconceito grande ainda com o manual no nosso país, mas lá fora é muito aceito e caro e eu sempre fiz porque já tinha a visão que a mulherada estaria carente disso. Aqui no Brasil, as pessoas acham que crochê é pano de prato”, disparou.

Sapatos usados por Walério da Lavish (Foto: Isntagram)

Sapatos usados por Walério da Lavish (Foto: Isntagram)

Agora, voltando à última edição da SPFWTRANSN42, a semana apresentou desfiles pulverizados pela capital paulistana com o projeto Ocupa São Paulo. A intenção dividiu opiniões dos estilistas e dos frequentadores que precisaram se deslocar por entre o trânsito caótico da Terra da Garoa. Apesar de não ter perambulado muito pelo evento, Walério achou a iniciativa interessante. “Eu achei os desfiles muito dispersos, cada um em um lugar diferente. Esse movimento de ocupação é incrível, mas não pretendo fazer um balanço dos meus concorrentes nesta edição”, disse ele, completando que a crise econômica e política no país tem feito a criatividade do brasileiro se expandir nos negócios de moda. “Como se vive de moda no Brasil hoje? Apelando! Apelando para comprar o tecido no quilo e na promoção. No meu caso, tenho um produto específico e bem eclético. O que me faz sobreviver. Não tenho preconceito no meu trabalho: faço roupas para A e para Z. Faço roupa para travesti, para o carnaval, high socity, cachorro… enfim, para todo mundo. Quem fazia aquela roupinha datada teve que se virar e ser criativo e investir em outras coisas também”, analisou.

Leia também: União perfeita ente a sofisticação e luxo artesanal e a delicadeza do crochê, as peças Lavish, de trícia Milaneze, são garantia de status fashion

Criatividade essa que fez a semana de moda mais badalada da América Latina entrar de cabeça no sistema do see now buy now – quando as peças desfiladas nas passarelas saem dos desfiles direto para as vitrines. Entusiasta do movimento, Walério comentou o perfil da cliente brasileira. “Eu acho incrível o see now buy now. É uma vontade que acontece muito dos dois lados. Se dependesse de mim, eu já vendia tudo no camarim mesmo para pagar o desfile. Moda estimula a vontade e o desejo das pessoas comprarem. Mulher compra muito por impulso. Tudo o que elas vêem querem comprar.  É preciso abastecer com muitas novidades”, disse, ressaltando, no entanto, que os custos dessa produção podem sair mais caros para os estilistas. “Para quem produz fica ainda mais caro. Já se gasta muito com desfiles e ainda ter que se reocupar com a produção de imediato se torna um desafio. Para isso é preciso ter estrutura, capital de giro e parceiros incríveis”, analisou.

Olha o @walerioaraujo falando sobre o sapato poder que ele costumizou com as bijoias da @lavishbytm @triciamilaneze

Um vídeo publicado por Heloisa Tolipan (@heloisatolipan) em

Com a indústria sufocando a parte artística e de criação, Walério Araújo completou dizendo que as semanas de moda no Brasil só sobrevivem graças a garra e o talento dos profissionais do país. Segundo ele, é preciso investir em matéria-prima e mão de obra qualificada para o ramo não sucumbir. “Brasileiro sabe fazer tudo e quando quer faz bem e radicaliza. Existe muita gente que gosta de fazer moda, mas matéria prima está cada vez mais em extinção, o que desanima. E isso não pode acontecer. O Brasil é tão respeitado e tão conhecido por suas riquezas que deixa a gente chateado. Lá fora, uma peça ganha dois bordadinhos e fica caríssima. Aqui, como é da nossa cultura, temos peças incríveis todas feitas à mão, como no norte e nordeste e ninguém valoriza”, disse.

Agora, quando questionado sobre as tendências para 2017, o estilista não se fez de rogado e disparou: “A tendência é a falta de vergonha. O povo está perdendo cada vez mais os rumos da vida. A psicopatia está super na moda – não que eu aprove isso. Esse tipo de gente atrapalha nossa vida. Hoje, como todo mundo quer ser alguma coisa, a noção se perdeu e as pessoas não medem mais esforços e vão a lugares inacreditáveis”, comentou. Babado, confusão e gritaria.

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