*por Vítor Antunes
Eles são raros. Os “Vittor”, como Vittor Fernando, não chegam a 1.500 no Brasil. Em São Paulo, seu estado natal, são só 348, segundo o IBGE. Entre eles… ele. Mas o que o torna único não é o nome, sobretudo diante dos quase 500 mil “Vítor”. A ele lhe foi dada a chance de recomeçar. Em outubro do ano passado, Vittor e o companheiro, o também ator Gabriel Fuentes, foram vítimas de um atentado quando estavam a caminho de São Paulo depois de passarem pelo Rio. Após entrarem por engano em uma rua sem saída, na altura de Itatiaia, ouviram 13 tiros disparados em direção ao veículo. Vittor foi atingido por dois deles – um na perna e outro no ombro e a ponta do projétil foi até o coração, exigindo cirurgia delicada. Foram 20 dias na UTI. Houve cadeira de rodas, houve pausa – mas houve, sobretudo, retorno.
Vittor conta como atravessou esse período: “Primeiro eu foquei muito nos meus cuidados psicológicos, e também nos físicos, tanto que já voltei parte da rotina em janeiro. Achei que ia demorar muito mais para voltar a andar — o que me fez até reconsiderar aceitar o convite de estar em ‘Qualquer Gato Vira Lata Tem uma Vida Sexual Mais Sadia que a Nossa’. Me questionei se estaria bem até a estreia, preocupado em topar esse projeto da peça. Tão logo me recuperei, voltei a praticar exercício para me restabelecer fisicamente o quanto antes”.
O que veio depois foi um ajuste interno, silencioso e definitivo. “O pós-acidente trouxe a mim uma grande transformação, me fez pensar muito e analisar a raridade de viver. Vivi uma fase muito mais reflexiva. Mudou em mim essa percepção da vulnerabilidade da vida. É uma ficha que cai. Ainda que eu já fizesse antes, hoje eu sigo fazendo terapia para lidar com o trauma. Passei a olhar para a vida de um jeito mais positivo. Afinal, é uma nova vida e eu estou vivo”.
A gente está na internet, é pessoa pública. Lancei mão disso para também dar um ponto final nas histórias maldosas. Eu não tinha como fingir que tudo estava bem e voltar a fazer vídeo. Decidi por contar aos seguidores, dar um ponto final na história, e a partir daí levar a vida com bom humor, como eu levo tudo na minha vida – Vittor Fernando

Vittor Fernando estreou recentemente uma peça escrita por Juca de Oliveira (Foto: Bientic)
EM MOVIMENTO
Entre um set e outro, entre palco e câmera, a vida parece ter engatado uma marcha contínua. Ele se prepara para iniciar seu primeiro filme, “Três Desejos de Eugênio”, inspirado no livro de Vitor Martins, onde também atua. Ao mesmo tempo, integra “Entrelaçados”, com estreia prevista ainda para este ano, e integra o elenco de “Icônica – De Faxineira a Fashionista”, uma das novelinhas do Globoplay. O ritmo, ali, o surpreendeu: “Embora eu já trabalhe com internet, este formato para mim é uma coisa nova. Fiquei chocado com a rapidez que tudo é feito. A gente grava e no mesmo espaço já tem uma pessoa editando os episódios, ao mesmo tempo. A novela inteira foi gravada em cerca de 10 dias”.
Há ainda a nova temporada de “Tô de Graça”, no Multishow, e o retorno ao palco com “Qualquer Gato Vira Lata Tem Uma Vida Sexual Mais Sadia que a Nossa”, de Juca de Oliveira (1935-2026). Um retorno logo depoisdo acidente, quase sem intervalo para hesitação. “Fazia cerca de cinco anos que eu não pisava no teatro — e havia acabado de passar por aquele evento. Voltar ao teatro já em janeiro foi muito emocionante, especialmente por estar trabalhando com a Duda Reis e o Paulinho Vilhena, além do diretor, o Alexandre Heinecke. Coincidentemente, a peça estava em cartaz quando o Juca morreu”.

Vittor Fernando estará em novelinha do Globoplay (Foto:Bientic)
A peça, escrita em 1998, carrega marcas de outro tempo, e a produção não fugiu disso. Atualizou, ajustou e tensionou. “Fala-se muito ali sobre o machismo, o feminismo, sobre a mulher se encontrar nesse universo masculino e pela busca pelo amor, mas percebendo não ser tão fácil assim, já que que os homens são muito difíceis — e isso não mudou como tempo. Acabam ficando claros os comportamentos ‘esquerdomacho’ e ‘heterotop’ que fazem desses caras, os típicos “machos escrotos”. Esta talvez seja a montagem mais diferente das demais, por termos nos dado conta de que não daria para contar essa história sem atualizar. Afinal, as mulheres já entendem o lugar delas, têm mais voz, se valorizam”.
Com milhões de seguidores — cerca de 5 milhões no Instagram e 11 milhões no TikTok —, Vittor sabe que popularidade não se converte, necessariamente, em plateia. “Os números tem seu valor, mas não são tudo. Hoje em dia, ter uma certa influência nas redes sociais ajuda a divulgar o seu trabalho. A divulgação chega em várias pessoas, mas não necessariamente existe essa conversão. A gente ainda continua atraindo o público de teatro, mas é muito legal porque a gente consegue unir com essas pessoas que também talvez acabam indo assistir mais porque viram a mim, ou aos outros atores do elenco postando sobre”.

Vittor Fernando acredita ser importante o protagonismo LGBT na dramaturgia (Foto: Bientic)
Esse trânsito entre linguagens, no entanto, não veio sem ruído. “Sou do teatro a minha vida inteira. Com 19 anos comecei a trabalhar com teatro profissional em São Paulo, fiz muitos musicais, e quando veio a pandemia – e o teatro foi uma das artes mais prejudicadas, porque contava com a presença da plateia – fui para a internet e virou essa loucura. Quando comecei a viralizar nas redes sociais e entender que isso era um trabalho, sofri preconceito da galera do teatro. Do tipo: ‘Nossa, o que é isso que ele está fazendo para as redes sociais, gente?’. E também já ouvi coisas do tipo: ‘É TikToker e agora está fazendo filme?’. Depois disso, todo mundo passou a querer existir nas redes. Todo mundo entendeu que a internet era essa ferramenta que é — e que se tornou no pós-pandemia uma ferramenta para se mostrar o trabalho para além de mostrar a vida pessoal”.
Na origem disso tudo, havia um filtro — e uma intuição. Durante a pandemia, Vittor criou personagens que atravessaram a tela com um filtro específico do Instagram. Hoje, usa menos. Mas eles seguem ali, à espreita. “Esse processo [de abandono do filtro] não foi muito bem pensado inicialmente, foi um processo natural da minha parte. As pessoas viam a mim, me viam fora do personagem também, sendo eu mesmo, e aí começaram a entender que era apenas um personagem. O público ama os personagens e eu amo também, me divirto, um deles é quase que um alter ego meu e ele surge dessa bagagem do teatro, do cinema. Quando me der na telha, retorno com ele”.
DOS AFETOS E DAS PEQUENAS ALEGRIAS
Namoram há pouco mais de um ano — e o amor, no caso deles, atravessa distâncias. Vittor e o também ator Gabriel Fuentes aprenderam a sustentar o vínculo no intervalo entre encontros, no ajuste fino das agendas, já que ambos estão em cidades diferentes. “Essa é a minha primeira vez namorando à distância. Estou descobrindo, aprendendo. Ainda que haja as tecnologias, há também a saudade, e a gente tenta ajustar as agendas dentro do possível. A gente vai sendo honesto um com o outro”. Começou rápido o namoro, quase sem cálculo — pouco tempo depois de se conhecerem, já estavam juntos.
Ao falar do entorno, Vittor amplia o quadro. Vê mudança real e concreta, na forma como histórias LGBTQIA+ têm sido contadas. “Eu vejo como um progresso mesmo. Hoje em dia, existem outras histórias (para além do preconceito)”:
Eu não vivi homofobia dentro de casa. As questões foram sempre outras, assim como de qualquer outra pessoa hétero ou heteronormativa, que eram pagar as contas, trabalhar, estudar. Mas acho importante, mesmo com o progresso das linguagens, das narrativas, tanto do audiovisual, como do teatro, e até das novelas, continuam comunicando o preconceito, pois ele ainda existe – assim como essa dificuldade em se aceitar, ainda mais o nosso país que é muito conservador. A gente quer também falar sobre mostrar que existem outras formas de você ser aceito e de você ser acolhido e de você rir de certas coisas da sua própria vida que não necessariamente têm a ver com uma grande questão profunda ou do sofrimento pelo sofrimento – Vittor Fernando

Vittor Fernando vive seu afeto com liberdade (Foto: Bientic)
No fim, Vittor retorna ao essencial — ao que fica depois de tudo. A cicatriz, afinal, é o avesso do bordado: o lado que não se mostra, mas que sustenta o desenho. Para explicar, ele recorre a Lygia Fagundes Telles (1918-2022): “’Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linhas duplas todas as feridas abertas’”. Acho essa frase linda”. E não é só uma frase. É um gesto. Ali, a vida deixa de ser ideia e vira prática. Vira impulso, reinvenção. No meio de tudo, Vittor vai costurando as próprias versões – ator, criador, gente de verdade — sem separar demais uma coisa da outra. É tudo vida, em movimento. O que ele atravessou não cabe mais no discurso abstrato da superação. Virou ponto de inflexão, desses que se sentem no corpo. Há ali um reposicionamento claro, escolhido. Uma gratidão que não observa de longe – age. E que não se contenta em si, se transforma.
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