*por Vítor Antunes
“Eu sou do signo de Câncer, minha pedra é o quartzo verde e minha cor é o branco/prateado”.
Ainda que essa frase não tenha sido dita por Vítor diCastro, poderia perfeitamente ter sido dita por ele. Vítor ficou famoso na internet por falar sobre signos de maneira bem-humorada e divertida. Nesta entrevista, ele comenta com sinceridade sobre a criticada transmissão do Carnaval Globeleza de 2024 – quando jornalistas foram trocados por influencers e a Globo enfrentou uma enxurrada de críticas -, mas também revela detalhes de sua nova empreitada: o espetáculo teatral “Intenso: Meu Retorno de Saturno”, no qual revisita sua própria separação. A montagem estreia no Teatro Frei Caneca, em São Paulo, no começo de julho. Inclusive, a peça deve monopolizar sua atenção ao longo do ano: “Tudo que produzo está concentrado na construção desse espetáculo, que trata de um assunto que me atravessa profundamente: o divórcio, a separação. Tem sido um processo que, ao mesmo tempo, envolve a criação de um espetáculo e o enfrentamento de uma dor que é minha. E preciso lidar diretamente com essa dor”, diz o artista.
Sinto que, nesse processo, estou revirando o lixo. Coisas que eu já tinha jogado fora, que já tinha superado, e que agora preciso revisitar para contar essa história. Claro que a história da peça não é a minha, mas o processo criativo envolve sentimentos reais. Para mim, tem sido desafiador transpor uma dor pessoal para o palco de maneira que ela deixe de ser minha, para se tornar nossa — de quem for assistir. Estou enfrentando essa dificuldade porque tudo, para mim, é muito pessoal. A peça também me ajuda nesse processo de superação – Vitor diCastro
Cercada de muita polêmica a transmissão de 2024 do Carnaval da Globo, e criticada por todos todos os lados, inclusive dentro da própria emissora, teve como um de seus alvos, Vítor. A emissora optou por retirar de cena o jornalismo e colocou em seu lugar. “Foram meses de terapia para lidar com isso. Minha participação em 2024 não foi a primeira como repórter da Sapucaí. Foi a segunda. Na primeira, a transmissão havia sido desenhada de forma que minha presença era pontual, parte de uma programação maior — foi no desfile das campeãs, transmitido pelo Multishow. Eu me diverti, assisti depois e senti que tinha feito um bom trabalho. Quando fui chamado novamente em 2024, já sabia da responsabilidade. Naquele momento, eu também estava vivendo minha separação. Pedi o divórcio num dia e, no outro, comecei os estudos para a cobertura do carnaval. Tive que lidar com tudo ao mesmo tempo. Estava emocionalmente abalado, mas ciente da dimensão do desafio. Me envolvi intensamente, visitei todos os barracões, estudei as apostilas com informações das escolas. O problema é que a transmissão de 2024 foi muito criticada — principalmente por não ter jornalistas na Avenida. Em 2023, por exemplo, estive com a Mariana Gross. Já em 2024, estava sozinho, enquanto Dandara Mariana e Kenia Sade estavam em outros espaços. Era uma decisão da direção: não haver jornalistas naquela função”.
Ele prossegue: “Essa ausência fez com que os amantes do carnaval criticassem duramente a cobertura. Éramos apenas três pessoas ali. Eu era desconhecido do público do carnaval e da TV, e acabei sendo marcado como ‘o influenciador que foi no lugar dos jornalistas para fazer graça’. No entanto, eu não tinha responsabilidade sobre o conteúdo editorial — falar sobre as escolas, os enredos — pois essa não era a função designada para mim. Eu tinha as informações, mas apenas segui a direção que recebi. Pensei: ‘OK, vou fazer o que me pediram. Vou ser esse Márcio Canuto no meio do povo, gritando, sambando, comendo a comida das pessoas’, porque essa era a proposta”.

Vitor diCastro levou sua separação como um dos temas de sua nova peça (Foto: Divulgação)
A separação de Vítor e seu ex-marido aconteceu há um ano e durou uma década. “O divórcio não é algo que acontece de uma vez. Ele é uma fase. É um processo, ele vai se desenrolando. Esse personagem tem me ajudado. Ele tem dúvidas, está o tempo todo se perguntando, se questionando, cometendo erros. É isso que ele faz. O que acho interessante é que eu pude — e posso, agora — entrar em contato com uma história que está em construção, que também está em processo. E isso é realmente difícil. Porque é o meu processo e o do personagem. É desse conjunto que nasce essa história”.
O casamento do qual Vítor deu termo é um no qual ele e seu ex-companheiro continuaram amigos. A relação apenas se desgastou, ainda que tenha havido tentativas de ambas as partes. “A primeira relação que vivi foi abusiva. Sofri agressões, humilhações — foi um relacionamento que me marcou profundamente de forma negativa. Depois disso, me casei com outra pessoa, em um relacionamento que terminou no ano passado. Cada relação é única, e isso é algo muito importante de se entender. Muita gente sai de um relacionamento e entra em outro em seguida, o que é um erro. É preciso dar um tempo para compreender quais são os seus critérios, onde se pisa, o que se aceita ou não. No segundo relacionamento, que foi o casamento, eu já estava mais preparado. Já sabia o que não queria. Mas hoje, depois do fim desse casamento, sou outra pessoa. Passei dez anos casado — e hoje tenho outros critérios. Desta vez, vivi um casamento saudável, uma relação saudável que chegou ao fim. Isso também me ensinou que relações saudáveis podem terminar. Não é necessário que uma das partes seja agressiva ou cometa algo grave para que uma relação acabe”.

Vitor di Castro: “Eu não tinha controle sobre a transmissão” (Foto: Divulgação)
Não tinha controle sobre nada da transmissão. O único controle que eu tinha era sobre o meu próprio desempenho. Fiz isso em São Paulo e tudo correu bem. Quando cheguei ao Rio e finalizei o primeiro dia de cobertura, cometi um erro clássico: entrei no Twitter para ver os comentários. Foi um erro. Vi o quanto as pessoas estavam odiando minha participação. Isso me impactou profundamente, porque eu não tinha como melhorar essa imagem ali, naquele momento. Eu não podia deixar de ser influenciador, não podia contratar um jornalista, não controlava nenhum aspecto da transmissão — e minha função não era passar informação. O que eu sinto é que uma parte do público não gostou do meu trabalho, simplesmente por não gostar. E tudo bem. Eu também era um iniciante nesse tipo de cobertura. Talvez, com mais transmissões, eu pudesse entregar o nível de qualidade que essas pessoas esperavam – Vítor diCastro
O artista prossegue dizendo: “Boa parte das críticas — pelo menos 80% — não eram direcionadas a mim, mas sim à direção que recebi. E quanto a isso, não havia nada que eu pudesse fazer”. E finaliza. “Sinceramente, me sinto muito orgulhoso de ter encarado esse desafio. Mesmo que esse episódio esteja guardado numa pastinha secreta no meu HD chamada ‘fracassos'”.
RELACIONAMENTO
Há diferenças nos divórcios entre casais homo e heterossexuais? Para Vítor, sim. “O que diferencia as duas relações — a hétero e a gay, embora eu só tenha vivido a gay — acredito que seja o fato de envolver dois homens em uma sociedade machista. Independentemente de ser hétero ou gay, um homem é criado dentro dessa lógica, e uma sociedade machista forma homens machistas. Quando dois homens machistas se relacionam, isso pode se tornar muito complicado. Em uma relação gay, essa disputa é entre homens, e existe uma forte competição masculina. Além disso, os corpos são muito parecidos — no caso de gays cis — e ambos foram criados para se relacionar com mulheres. Em algum momento, subverteram isso. Ainda existem muitas expectativas construídas nas cabeças de ambos, que precisam ser desconstruídas no relacionamento”.
Para ele, um relacionamento gay tem especificidades que não podem ser ignoradas. “São duas pessoas que provavelmente viveram traumas na adolescência por serem LGBTs, e esses traumas são levados para as relações futuras. Em geral, não tiveram experiências amorosas na infância ou adolescência — como a ‘namoradinha da escola’ — porque eram gays, porque sofreram bullying. Muitas vezes, o afeto está associado ao medo. O afeto lembra crime, lembra pecado. Pensando que o casamento gay só passou a existir formalmente no Brasil há cerca de dez anos, até 2019 a homofobia sequer era considerada crime. Se alguém me xingasse ou me atacasse, essa pessoa não era considerada criminosa. São essas camadas que atravessam o relacionamento gay. E, ao fazer essa peça, essa também era a minha vontade: trazer essas camadas para a cena.”
Heteros conquistaram o direito de se divorciar, gays conquistaram o direito de se casar – Vítor diCastro

Vítor diCastro: “Enquanto heteros ganharam o poderr de se divorciar, os gays, de se casar” (Foto: Divulgação)
Para ele, o fato de ter agora a liberdade em poder casar-se, algo que não era cogitado para pessoas LGBT, acaba sendo um fardo quando s epensa no divórcio. “A gente passou todo o tempo falando sobre o casamento gay, mas os gays também se separam. Sim, se divorciam. Essa é uma camada importante. Eu, por exemplo, demorei um tempo para entender que precisava me divorciar, porque me sentia obrigado a continuar casado. Pensava: ‘Já assinei esse papel, foram tantos anos de luta para conseguirmos o direito ao casamento, e agora vou me divorciar?’ Héteros não passam por isso. Então, acredito que cada história é única.”
ALÉM DOS ASTROS
Conforme iniciamos esta reportagem citando, Vítor costuma ser associado à questão dos signos. MAs qual o homem para além disso? Para além da subjetividade dos astros. “O conteúdo astrológico que produzo é pensado como entretenimento, mas sempre propus algo mais profundo, relacionado a outras temáticas. Sempre fui uma pessoa engajada politicamente, envolvida em discussões sobre relacionamentos e defensora da terapia. Durante a pandemia, fui uma das vozes que se posicionou fortemente a favor da ciência, dos cuidados coletivos e contra o governo Bolsonaro. Por isso, parte do público já me conhece também por esse posicionamento. Fico relativamente tranquilo, porque quem me acompanha pelos vídeos de signos sabe que, em muitos deles, há uma camada de aprofundamento. Às vezes estou falando sobre ‘os signos terminando um relacionamento’, mas acabo oferecendo um conselho. Falo como alguém que se considera sensato, alguém que passou por terapia e carrega uma visão mais refletida sobre o mundo”.
Tem artista com aquele pensamento, “ai eu queria muito muito ser intelectual e que o público do teatro me desse valor”. Sinceramente, eu não ligo muito para isso. Eu acho que nesse caso, eu gosto de contar boas histórias e gosto de comunicar coisas interessantes. Se a pessoa vai achar interessante e vai me achar inteligente, aí eu vou deixar na mão dela – Vítor diCastro

Vítor diCastro: “Não quero ser aprovado pelos intelectuais” (Foto: Divulgação)
MÊS DO ORGULHO
É problematizável o fato de algumas empresas, institutos ou veículos de comunicação só se debruçarem sobre o tema da diversidade durante o mês de junho, sem dar destaque e protagonismo a essas pessoas nos demais meses? Para Vítor, esse é algo que deve ser ponderado: “Eu já problematizei mais. Hoje vivemos um momento em que muitas empresas sequer lembram em junho. Houve uma regressão. Antigamente, ao menos em junho, existia uma mobilização. Digo isso com pesar, porque já tivemos momentos — entre 2019 e 2021 — em que as empresas me procuravam, assim como a outros criadores e artistas, para falar sobre o tema, fazer publis, vídeos, palestras. Hoje, isso se tornou cada vez mais raro. Acredito que isso se deve a um movimento político mundial, onde se tenta desvalorizar as pautas identitárias. Quando levantamos essas pautas, elas nem sempre são bem-vistas dentro de uma lógica capitalista. Houve um tempo, especialmente entre 2018 e 2020, em que empresas acreditaram ser possível levantar bandeiras e, ao mesmo tempo, vender seus produtos. Mas, à medida que o pensamento dominante se afastou disso, muitas empresas recuaram”.
A eleição do Trump é um bom exemplo: várias empresas usaram o momento para mudar suas políticas. Eu não costumo reclamar do fato de que só se fale disso em junho. Temos tantas pautas importantes que, para mim, está tudo bem compartimentar: em junho discutir LGBTQIAP+, em setembro saúde mental, em novembro questões raciais. O problema é quando isso se torna apenas uma estratégia de marketing. Se a empresa quer tratar do tema em junho? Ótimo. Mas o que ela faz nos outros meses? Ela tem um projeto consistente de diversidade? Porque, caso contrário, chamar a gente apenas em junho soa como um disfarce para um comportamento LGBTfóbico durante o restante do ano – Vítor diCastro
Vítor conta como surgiu o canal sobre Astrologia que acabou revelando-o na Internet: “Era meu hobby. Comecei com informações do teatro, fui me aprofundando, pesquisando, analisando mapas — até chegar ao meu. Em 2015, fiz uma pesquisa de mercado e vi que havia poucos criadores de conteúdo sobre astrologia. Pensei: “Como vou criar algo diferente?” Criei um formato e passei mais de um ano desenvolvendo. Quando lancei o primeiro vídeo, teve 8 milhões de visualizações. Percebi que acertei em algo e resolvi continuar. No início, era um vídeo por mês. Como seguiu fazendo sucesso, aumentei a frequência. No começo de 2019, decidi fundar o canal: três vídeos por semana, programação estruturada. Lancei o Deboche Astral. A partir daí, tudo aconteceu de um jeito que nem sei explicar. Estava no lugar certo, na hora certa, fazendo a coisa certa. Hoje, o canal soma mais de 500 milhões de visualizações”.
Vítor diCastro nunca foi apenas sobre signos — embora os astros tenham sido sua primeira linguagem com o mundo. Entre um quartzo verde e uma tela de celular, ele transformou dor em dramaturgia, separação em espetáculo, fracasso em arquivo e, mais do que tudo, vulnerabilidade em ferramenta de criação. Fez do divórcio um retorno de Saturno, do palco um espelho, e do riso, uma ponte para camadas mais profundas. Há algo de valente em quem revisita os próprios destroços para contar uma história. E há ainda mais força em quem faz isso sem perder a graça. Ele não nega a tempestade, mas também não abandona o brilho. Não teme o ridículo, nem o erro. E, por isso, vira personagem — mas sem jamais deixar de ser autor.
Porque, como ele mesmo diz: “A gente, que é gay, não quer mais ser coadjuvante da própria vida. Não queremos mais ser apenas o personagem cômico, que não tem envolvimento real na dramaturgia. Não queremos passar a história inteira correndo atrás de um vilão, sofrendo por causa dele. Agora, queremos o nosso ponto de virada nessa história. Porque não somos personagens secundários — somos protagonistas.”
E se hoje o palco está montado, o texto escrito e o holofote aceso, é porque ele — como tantos outros — não esperou por uma chance: criou a própria estreia. Entre risos e rompimentos, memes e memórias, Vítor é, sobretudo, um lembrete de que orgulho também é um verbo. E que ninguém mais vai nos convencer do contrário.
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