*Por Brunna Condini
A coroação de Virginia Fonseca como a nova rainha de bateria da Grande Rio para o Carnaval de 2026 marca a entrada de uma das maiores influenciadoras digitais do país no centro do maior espetáculo da Terra. Para além das críticas que movimentaram a web nesta quinta-feira (22) após o anúncio – em que internautas criticavam o fato dela não ter ligações com a comunidade, e portanto, não representar em nada o carnaval carioca – existem outras questões que pedem reflexão. Substituindo Paolla Oliveira, que conquistou a comunidade de Duque de Caxias com sua presença, carisma e envolvimento genuíno com a escola, Virginia chega sob os holofotes, mas também sob alguma polêmica. Sua recente convocação para a CPI das Bets, que afetam o bolso de milhares de brasileiros, levanta um ponto delicado: qual o limite entre influência, responsabilidade e representatividade junto à comunidade? E mais: o que uma escola de samba espera hoje da mulher que carrega esse lugar de destaque e a sua coroa mais simbólica?
O carnaval resiste, mas também ensina. Que essa nova jornada da influenciadora na Marquês de Sapucaí seja um convite à escuta, à presença verdadeira, ao compromisso com quem está atrás do tamborim — e muitas vezes, sem acesso ao que se aposta na outra ponta da tela. Porque no fim, não basta rebolar com a bateria. É preciso dançar junto com a comunidade. E isso se faz com passos de responsabilidade. Inclusive a afetiva.
Em um tempo em que se discute tanto a responsabilidade afetiva, pensamos: uma influenciadora como Virginia tem o approach para ocupar esse lugar com leveza hoje? Para enriquecer a discussão, convidamos o publisher do portal e do canal Blog Ouro de Tolo, especialista em memória do Carnaval, Pedro Migão, para falar sobre o tema. Como você interpreta a escolha da Virginia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio?

Virginia é a nova rainha de bateria da Grande Rio (Foto: Agnews)
“A informação que se tem é que ela, supostamente, teria um grande patrocínio. Parece que já havia procurado outras duas escolas, que negaram. Uma eu consigo entender ter negado, porque a atual rainha é a esposa do patrono. A outra não entendi o porquê. Mas imagino que é uma relação mercantilista, que há em muitas agremiações, com a venda do cargo, e que eu, particularmente, não sou contra. Inclusive, já falei disso no meu blog algumas vezes. Além disso, a Grande Rio tem uma tradição de rainhas exógenas à comunidade. Especialmente artistas, mas não só artistas. Já teve lá atrás a Marinara Costa (no carnaval de 1988), que era policial e depois ficou famosa. Então, existe uma tradição de rainhas que vêm de fora da festa na escola”.

Virginia Fonseca: de influenciadora a rainha de bateria (Foto: Agnews)
Que tipo de mensagem essa escolha passa, especialmente em um momento no qual a influenciadora acaba de depor como testemunha na CPI das Bets?
Sem dúvida alguma me parece um tanto quanto complicado. Além dessa CPI, ela também tem alguns episódios controversos na sua trajetória. Mas é aquilo também, até onde eu sei, ela é seguida nas redes sociais por 25% da população brasileira. Isso é muita gente. Na prática, o público que está impactado por essa investigação da CPI das Bets é um público diminuto dentro do público que ela alcança. Então, acho que a ideia foi no sentido de popularizar a Grande Rio fora da chamada ‘bolha’ do Carnaval. Acredito que esse momento de investigação e outras questões controversas acabam eclipsados pelo fato de ela ser acompanhada por 25% da população – Pedro Migão

“Acredito que esse momento de CPI e outras questões controversas dela, acabam eclipsados pelo fato dela ser acompanhada por 25% da população brasileira” (Foto: Agnews)
Escolher alguém que mobiliza milhões de seguidores (quase 53 milhões só no Instagram) e transforma tudo que toca em negócio, em si, não é um erro — é uma estratégia. Mas carnaval também é cultura, raiz e resistência. A pergunta é: a coroa da bateria pode ser apenas marketing, ou ela exige vínculo real com a comunidade? É política, simbólica, e inevitavelmente, controversa. Existe um conflito entre os valores históricos do Carnaval — de resistência popular — e a associação com figuras que lucram com a vulnerabilidade financeira da população?
“Isso existiu nas escolas de samba desde que o mundo é mundo, a verdade é essa. A própria chegada da segunda geração de bicheiros, nos anos 70, tem um pouco a ver com isso, de garantir viabilidade financeira à festa. Então, eu não acho que haja um conflito. A história das escolas de samba, tem esse viés de busca de fontes de financiamento, as fontes oficiais nem sempre foram perenes, nem sempre foram suficientes. O tempo todo as agremiações estão buscando outras formas de viabilidade financeira. Não acredito que seja algo conflituoso, porque o mundo do carnaval é um mundo que se adapta”, pontua o especialista em memória do Carnaval, Pedro Migão.

Com quase 53 milhões de seguidores só no Instagram, Virginia é a mais nova rainha de bateria no carnaval carioca (Foto: Agnews)
Sobre carnaval e os tempos
Pedro Migão analisa se a rainha de bateria, que é uma figura emblemática dentro de uma agremiação, com funções que misturam representação simbólica, carisma, samba no pé e performance, além do vínculo com a comunidade e de ser o elo entre a escola e a bateria, continua carregando esse significado ou virou mais uma vitrine de marketing.”Isso depende muito da escola e das opções que as agremiações fazem de suas rainhas, de suas comunidades. De qualquer maneira, mesmo quem é uma rainha pagante, digamos assim, tem que estabelecer uma relação com seus ritmistas. Muitas vezes se pede que paguem a roupa, ou paguem festas, churrascos, etc”. E conclui:
Acho que é correto você dizer que a rainha hoje, ainda é um elo entre a escola e a bateria, mas também é uma vitrine de marketing, sem dúvida – Pedro Migão
O carnaval está apenas se adaptando aos tempos ou correndo o risco de se descaracterizar? “Já venho falando há algum tempo no trabalho que faço com o carnaval, no YouTube, que a festa está passando por um processo que outros mundos estão passando também, como o mundo da Fórmula 1, o do futebol, o da cultura como um todo, que é o que chamo de financiarização neo-liberal da festa, ou seja, uma tendência é você buscar o lucro a curto prazo, o máximo de receita a curto prazo, mas eu não acho que isso vai descaracterizar o carnaval. Ele vai mudar com o tempo, como sempre mudou. Os desfiles das escolas em 1950 eram bem diferentes do que hoje. E o desfile de agora vai ser bem diferente do que quando os meus filhos tiverem a minha idade, daqui a 30 anos. O carnaval vai sempre se adaptar, mas não vejo se descaracterizando”, opina.
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