SENAI CETIQT: uma análise sobre o “1º Fórum Lideranças Sustentáveis: Felicidade Organizacional e Bem-Estar no Trabalho”


Helena Águeda Marujo, professora-doutora da Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e coordenadora da Cátedra UNESCO em Educação para Paz Global e Sustentabilidade, ressaltou que a regeneração começa dentro das organizações, mas ecoa para toda a sociedade. Assim, a mensagem que emergiu naquele espaço pode ser resumida em uma imagem simples e poética: quando empresas e pessoas caminham de mãos dadas, quando líderes e colaboradores se reconhecem como parte de um mesmo ecossistema, abre-se a possibilidade de um futuro em que o lucro não seja um fim em si, mas o combustível de uma jornada compartilhada. É importante não perder de vista que as organizações devem promover três necessidades psicológicas fundamentais: vínculo afetivo, autonomia e competência

A busca pelo aprofundar conhecimentos e desenvolver competências para uma gestão sustentável nas organizações, considerando os fatores ambientais, sociais e de governança que impactam os negócios e os resultados alcançados. O bem-estar dos trabalhadores tem ganhado cada vez mais destaque em todo o mundo. Um estudo colaborativo entre o Indeed, maior plataforma global de empregos, com mais de 615 milhões de perfis de candidatos, e a Universidade de Oxford mostrou que o contentamento profissional está profundamente ligado ao senso do pertencimento para a retenção de talentos. Este foi o cenário desenhado para a realização do 1º Fórum Lideranças Sustentáveis, realizado pelo SENAI CETIQT, na Barra da Tijuca. O antopólogo Marcelo Ramos, gerente de Desenvolvimento Estratégico da instituição, recebeu a professora-doutora Helena Águeda Marujo da Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa para abrir os trabalhos na primeira edição do projeto que teve como tema-central “Lideranças Sustentáveis: Felicidade Organizacional e Bem-Estar no Trabalho”. Ela abordou “Liderança Regenerativa, Bem-estar e Propósito” e como a ciência da felicidade pode transformar culturas organizacionais e impulsionar resultados de negócio de forma sustentável. Coordenadora da Cátedra UNESCO em Educação para Paz Global e Sustentabilidade, Helena é reconhecida internacionalmente como referência em Psicologia Positiva, área da psicologia que estuda cientificamente os aspectos que tornam a vida mais significativa e satisfatória.

Marcelo Ramos à frente do Fórum “Felicidade Organizacional e Bem-Estar no Trabalho (Divulgação)

Marcelo Ramos à frente do Fórum “Lideranças Sustentáveis: Felicidade Organizacional e Bem-Estar no Trabalho” (Divulgação)

Nesse mesmo encontro, as falas de Marcelo e Helena convergiram em um ponto nevrálgico: abordar a questão da sustentabilidade no século XXI é pensar, acima de tudo, nas pessoas. A busca por práticas “verdes” ou por índices de rentabilidade, embora necessários, tornam-se insuficientes quando desconectados da vida real daqueles que carregam o peso das engrenagens corporativas. O que se viu no fórum foi a reafirmação de que inovação e regeneração só são possíveis quando enraizadas no bem-estar coletivo, no respeito à dignidade humana e na construção de culturas organizacionais mais compassivas e equitativas.

Ao unir temas importantíssimos, a primeira edição do evento demonstrou que o caminho para organizações verdadeiramente sustentáveis passa, inevitavelmente, pela felicidade das pessoas que as constroem. No fundo, trata-se de resgatar algo que o capitalismo, em sua versão mais acelerada e utilitária, tentou soterrar: a convicção de que o trabalho deve ser também espaço de sentido, comunidade e esperança. E talvez resida aí a lição mais poderosa do fórum.

Em tempos de urgência ambiental e de exaustão emocional, falar de felicidade no trabalho é resistência e de suma relevância. Como lembrou Helena Águeda Marujo, a regeneração começa dentro das organizações, mas ecoa muito além de seus muros. Assim, a mensagem que emergiu naquele espaço pode ser resumida em uma imagem simples e poética: quando empresas e pessoas caminham de mãos dadas, quando líderes e colaboradores se reconhecem como parte de um mesmo ecossistema, abre-se a possibilidade de um futuro em que o lucro não seja um fim em si, mas o combustível de uma jornada compartilhada. Um futuro em que a felicidade pública se transforme, de fato, no maior patrimônio que uma sociedade pode cultivar.

 Helena Águeda Marujo, professora associada da Universidade de Lisboa (Destaque)

Helena Águeda Marujo, professora associada da Universidade de Lisboa (Destaque)

A fala de Helena, inserida no contexto do fórum do SENAI CETIQT, não se restringe a um exercício conceitual: ela aponta para uma realidade em que empresas, governos e instituições reconhecem que não há futuro sustentável sem a centralidade do humano. Em um mundo que ainda contabiliza as cicatrizes da pandemia, que enfrenta a pressão climática e que se depara com níveis inéditos de desigualdade, a discussão proposta ganha caráter urgente. As organizações, segundo Helena Águeda, não podem mais se limitar a metas financeiras ou a relatórios de responsabilidade social; precisam se reconstruir como sistemas vivos, atentos às necessidades emocionais, espirituais e relacionais de seus colaboradores.

O evento, que também contou com palestra técnica e mesa de debates, passará a ocorrer trimestralmente abordando temas que impactam diretamente as lideranças empresariais nas áreas jurídica, de RH e de compliance. “Manteremos a sintonia com a promoção da sustentabilidade em seus pilares ambiental, social e de governança. Nossa intenção é criar um espaço de discussão qualificada sobre questões atuais que já influenciam o dia a dia das organizações”, explica Marcelo Ramos. A professora Helena acrescenta que, dentro desse movimento de valorização do bem-estar organizacional, o tema do propósito ganha cada vez mais relevância: “Após a pandemia, vivemos o fenômeno da great resignation (grande resignação), quando milhares de pessoas, sobretudo em países desenvolvidos, passaram a questionar o sentido de suas escolhas profissionais e de vida diante da experiência de vulnerabilidade trazida por perdas, doenças e mortes. Ao nos confrontar com a finitude, a reflexão sobre propósito ganhou força”.

Marcelo Ramos destacou: “Quando pensamos em um fórum com esse nome, “Lideranças Sustentáveis: Felicidade Organizacional e Bem-Estar no Trabalho“, a gente tem um pano de fundo que nos atinge hoje como instituição de Ciência, Educação e Tecnologia para a indústria e, também, para o setor industrial. É reflexo de uma cada vez maior dificuldade de atrair e reter talentos para a indústria. A gente sabe também de um contexto em que houve muitas mudanças nas expectativas em relação ao trabalho, ao valor do trabalho e a forma como as novas gerações enxergam o trabalho. E a gente vê também uma norma regulamentadora dos riscos ocupacionais no trabalho recentemente alterada que procurará fazer com que as empresas se voltem para a gestão desses riscos psicossociais para a promoção de um ambiente de trabalho com maior bem-estar e mais saudável para os trabalhadores”.

Para o antropólogo e gerente de Desenvolvimento Estratégico do SENAI CETIQT, o fórum tem uma missão clara: criar um espaço de debate qualificado entre pessoas que compartilham a mesma inquietação, permitindo a formação de uma rede de líderes dispostos a trilhar o caminho rumo a organizações mais sustentáveis e centradas no ser humano. Se a fala de Marcelo lançou as bases práticas do encontro, a participação da professora Helena Águeda Marujo, referência internacional na Psicologia Positiva e na promoção da paz, corroborou que este é um momento decisivo para discutir questões exigentes, mas também carregadas de esperança. “A esperança é uma das minhas áreas de investigação. Eu faço parte de um projeto chamado Hope Barometer, que envolve cerca de duas dezenas de países em muitos continentes. Todos os anos estudamos o que está a esperançar as pessoas”.

Um dos caminhos da esperança é podermos pensar juntos para conversar sobre temas que são centrais numa sociedade complexa com recursos como nunca houve na História da humanidade. A ideia é termos um olhar sobre uma temática que possa ser investigada por muitos cantos do mundo, em muitas universidades – Helena Águeda Marujo

Ao conduzir este debate sobre como a ciência da felicidade pode transformar culturas organizacionais, Helena destacou que empresas que cultivam emoções positivas em seus colaboradores não apenas ampliam o engajamento e a inovação, mas também fortalecem sua competitividade de forma sustentável. Sua contribuição trouxe uma visão de vanguarda sobre como alinhar ciência, gestão e propósito para transformar resultados. O impacto foi imediato entre os presentes – líderes empresariais, gestores de sustentabilidade, profissionais de Recursos Humanos e muitos interessados em repensar as relações de trabalho. O fórum evidenciou uma mudança de mentalidade: valorizar o capital humano deixou de ser discurso para tornar-se estratégia central no redesenho das organizações.

Atualmente, já não é possível refletir sobre o bem-estar nas organizações sem adotar uma perspectiva sistêmica. É necessário compreender as empresas, sejam públicas ou privadas, como partes de um ecossistema, capazes de promover uma liderança regenerativa pautada por um propósito claro e consistente. Esse propósito deve sempre estar voltado para o bem comum, uma vez que as organizações integram um todo interdependente e têm responsabilidades que extrapolam suas próprias fronteiras e interesses – Helena Águeda Marujo

Ao refletir sobre os impactos sociais da pandemia, Helena fez questão de ressaltar a chamada Great Resignation, fenômeno que levou milhões de profissionais, sobretudo em países desenvolvidos, a repensarem suas trajetórias. “Dentro desse movimento de promoção do bem-estar nas organizações, um tema vem crescendo cada vez mais, o propósito. Depois da pandemia houve a Great Resignation, em que milhares e milhares de pessoas em países desenvolvidos que, com a experiência do confronto com a sua vulnerabilidade, com as perdas, as doenças e a morte, começaram a questionar o que estavam fazendo com suas vidas. E uma das áreas em que as questões se colocaram com mais profundidade foi ‘Estou fazendo alguma coisa que valha a pena, que tenha significado, que tenha impacto, que me realiza?’. A questão do propósito ganhou uma força muito grande pelo fato de nós nos confrontarmos com a finitude de uma maneira muito clara em nível mundial”.

Helena Águeda Marujo, professora associada da Universidade de Lisboa (Destaque)

Helena Águeda Marujo, professora associada da Universidade de Lisboa (Destaque)

Helena Águeda Marujo, professora associada da Universidade de Lisboa (Destaque)

Helena Águeda Marujo, professora associada da Universidade de Lisboa (Destaque)

A Coordenadora da Cátedra UNESCO em Educação para Paz Global e Sustentabilidade argumenta “haver um conceito na literatura científica de liderança regenerativa com a intencionalidade de trazer um sentido verdadeiro àquilo que fazemos que tem, como contraponto, organizações com formatos de gestão política de curto prazo, que exploram os recursos e têm como intenção obter benefícios imediatos. Esse modelo tem provocado um impacto tremendo e resultado em degradação ambiental, desigualdade social e instabilidade econômica, entre muitas outras coisas”.

Precisamos de uma abordagem que regenera da mesma maneira que a nossa pele se regenera depois de uma ferida, da mesma maneira que um sistema natural pode reencontrar sua capacidade de voltar à vida mesmo depois de uma devastação. Esta ideia de regeneração vem a partir de uma visão que, naturalmente, tem a ver com a criação de valor econômico – e é para isso que as empresas existem –, mas conseguir obtê-lo ao mesmo tempo que produz, potencialmente traz bem-estar nas pessoas na sociedade e regenera também o ambiente – Helena Águeda Marujo

O agravamento das mudanças climáticas, a perda da biodiversidade e o aumento da poluição, segundo a professora Helena, são os três fatores que compõem a “ebulição tripla do planeta”. Outro aspecto associado que tem a ver com uma crise de saúde mental nos profissionais: “Ao mesmo tempo que temos as dimensões da doença do planeta, temos a doença societal associada às nossas relações, à nossa capacidade de vivermos com harmonia e equilíbrio emocional.

Helena, então, reforçou seu argumento com dados do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). O estudo “A Atuação dos Conselhos Frente aos Impactos Climáticos e à Estratégia Net Zero”, lançado em 2024, evidencia como os conselhos de administração ainda se encontram em fase inicial de incorporação efetiva da agenda climática:

a) Cerca de 70% dos respondentes diziam que as metas relacionadas ao clima não estão incorporadas aos incentivos e à remuneração dos executivos de maneira sognificativa e mensurável.

b) Para cerca de 40% dos respondentes, não há clareza sobre a responsabilidade do conselho e da equipe executiva pelas decisões, por exemplo, de redução de emissão de gases do efeito estufa.

c) 36% sinalizaram que a questão climática não está incorporada na avaliação de riscos e oportunidades e na estratégia central dos negócios.

d) Mais de 50% dos conselhos executivos não considera a questão climática nas decisões de investimentos nem quantifica melhora nenhuma que impacte as táticas no resto do mundo, no planeta; como estão se usando os recursos, inclusive se as decisões que tomam e os produtos que produzem têm efeitos não apenas estritamente ligados à dimensão do clima, mas, por exemplo, à dimensão ética: que impacto um produto traz para uma determinada sociedade – pensemos no impacto das redes sociais e do digital e em como eles transformaram completamente a nossa vida e a qualidade das nossas relações e dos nossos vínculos.

É importante não perder de vista que as organizações devem promover três necessidades psicológicas fundamentais: vínculo afetivo, autonomia e competência. “Um ambiente saudável deve permitir ao colaborador sentir-se conectado e aceito pelos colegas (vínculo afetivo), ter liberdade de escolha nas suas ações (autonomia) e se perceber eficaz nas suas tarefas (competência). Algumas empresas já estimulam o job crafting, possibilidade de moldar o trabalho de acordo com a forma que melhor se ajusta às competências e preferências individuais, proporcionando mais autonomia na entrega de resultados”, diz Helena Marujo. “Há empresas que medem os níveis de cortisol (hormônio do estresse) dos trabalhadores para implementar políticas que favoreçam a saúde. Em estado de tensão elevada e contínua, o cérebro primitivo entra em alerta, limitando nossa capacidade de tomar decisões racionais”.

Na sequência é importante ressaltar que lideranças sustentáveis asseguram que os vínculos interpessoais, a vivência da autonomia e o desenvolvimento de competências estejam integrados nas práticas cotidianas das organizações.

Para se chegar a elas, o primeiro passo é desenvolver a capacidade de pensar a longo prazo, habilidade ainda pouco presente em nossa sociedade. É necessário transformar as políticas organizacionais para que os resultados deixem de ser avaliados exclusivamente no curto prazo: “Adotar uma visão orientada para as gerações futuras significa construir organizações que não se concentram apenas no lucro imediato, mas que se reconhecem como agentes do bem comum. A liderança regenerativa busca gerar impacto positivo na sociedade e parte do princípio de que as empresas têm responsabilidade direta pelo bem-estar das comunidades em que atuam. Nesse modelo, líderes dão prioridade à justiça social — como iniciativas de redução da pobreza nos territórios em que estão inseridos — e às práticas éticas, que incluem condições de trabalho justas, promoção de diversidade e inclusão, incentivo ao bem-estar em múltiplas dimensões e fortalecimento do sentimento de pertencimento”, alerta Helena Águeda.

A jornada da reconexão e o encontrar um propósito

Segundo a professora, “olhar para as organizações não deve ser a partir de uma lógica de desconexão, de separação, ou reducionista. Pelo contrário, olhar a lógica dos sistemas vivos e da reconexão. Ou seja, a interação e interdependência permanentes. O que muda num determinado ponto vai impactar todos os outros. Essa visão é muito mais exigente, pois é muito fácil termos um olhar simplista sobre aquilo que nos acontece, sobre o que pretendemos atingir. É muito mais exigente percebermos a dimensão sistêmica”. O pensamento sistêmico, tão valorizado hoje em disciplinas que vão da ecologia à gestão corporativa, aparece em sua fala como uma urgência. Se, por um lado, a economia global ainda insiste em leituras fragmentadas, baseadas em metas trimestrais e indicadores isolados, por outro, a visão da professora ecoa práticas ancestrais que se orientam pela noção de continuidade e interdependência.

A liderança regenerativa procura criar um impacto positivo na sociedade. Reconhece que as empresas têm a responsabilidade de contribuir para o bem-estar social de suas comunidades — os líderes regenerativos dão prioridade à justiça social (por exemplo, como a empresa ou organização diminui a pobreza nos lugares onde está implantada) e às práticas éticas, tais como práticas laborais justas, diversidade e inclusão, bem-estar múltiplo e sentimento de pertencimento a uma comunidade –  Helena Águeda Marujo

A professora revela que tem acompanhado projetos que as organizações desenvolvem para a promoção do bem-estar. Diversas empresas já implementam políticas voltadas para quatro dimensões: o bem-estar emocional, ligado ao orgulho e às experiências positivas no trabalho de cada um; o físico, que exige cuidar do corpo, com muitas empresas já oferecendo espaços de relaxamento para os funcionários; o financeiro, com apoio na gestão de recursos dos colaboradores; e o espiritual, que envolve pensarmos para além do nosso umbigo e refletir sobre como estamos colocando em prática a nossa contribuição e as nossas virtudes nos sistemas humanos. Uma organização saudável com liderança sustentável precisa trabalhar essas dimensões simultaneamente.